sábado, 22 de novembro de 2014

Perdido, almocreve

- Bom dia, Dona Amélia!
- Bom dia, seu Petão.
- Como vai a sra.?
- Com a graça de Deus, bem, obrigada. E o sr.?
- Levando, sempre levando.
- A tropa cresceu, hein?
- É, a cada dia se junta uma mula.
Recolocou o chapéu na cabeça e passou a mão pelo rosto recolhendo o suor.
- E sua neta?
- Qual delas?
- Para mim, só tem uma.
- Vai bem, obrigada. A cada dia mais linda.
- É vero.
Sorriram mutuamente.
- Seu Petão, há anos espero o sr. nesta janela.
- Eu sei, Dona Amélia, faz muito tempo. Quero pedir desculpas. É triste, mas acontece que eu perdi o texto original. - retirou o chapéu novamente.
- Não é possível!?
- Sim, Dona Amélia. Completamente perdido. Apenas o início estava manuscrito e foi mantido. O restante ficou com o pó da estrada.
- Do que tratava o texto?
- Contava a história daquela mula enfeitada que a sra. vê logo ali.
- Aquela cheia de miçangas?
- Essa mesmo.
- Como é o nome dela?
- Tem nome, mas, depois de ter perdido o texto, resolvi chamá-la de "A-que-não-digo".
- Virgem Mãe!
- Eu já tinha percebido que ela não era uma boa companhia, mas, como fazia parte da tropa, resolvi guiar essa besta até o destino dela. Tô indo entregá-la agora.
- Que bom!
- A sra. me dê licença que eu vou puxando a tropa.
- Seu Petão, antes de o sr. ir embora, que mula branca é aquela que vem vindo?
- Aquela toda branca?
- Sim.
- De crina quase loira?
- Isso.
- Com uma mancha na barriga que parece um reino?
- Essa.
- É outra besta, Dona Amélia, mas essa é outra história. Pode me aguardar.

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