Para Dona Quiméria
Algumas histórias passam, assim como autores. Relatos se perdem com o passar dos anos, e alguns se transformam tanto que perdem o lastro mínimo de herança, tornando-se órfãos ilustres e sem sobrenome. Há narrativas, contudo, que se eternizam, que se tornam mais vivas com o desenrolar das estações, com o eterno devir de gerações, com o sabor dos anos. São as epopeias, sobreditas míticas, que carregam consigo o sonho e o desejo de milhares de seres humanos, mortais de sangue, imortais de afeto, que têm as vidas escritas em cores vivas e pintadas em infindáveis aquarelas.
Nós somos barrocos.
Não somos feitos de crendices, de histórias mirabolantes, de narrativas cotidianas. Nós somos a própria epopeia, a própria fantasia e a vera realidade. Nós não somos os comuns, nem os ordinários, nem os sofredores. Nós somos os amantes, os apaixonados, os loucos. Para nós, não há o limite, não há o fracasso, e o impossível é uma criança inquieta que se embaralha em nossas pernas, num jogo infantil de “você não me pega”.
Nós acreditamos. Sempre. E ainda que somente nós. O mantra é recente, o sentimento que ele traduz não. Certamente posterior ao Fla-Flu, o nosso acreditar germinou quando “Deus separou a luz das trevas” e o mundo se fez preto e branco. Ali nascemos. A voz ancestral que nos leva pela mão ao estádio e nos desperta o primeiro e tímido grito de “Galo” nos ensina a orar, a acreditar.
Nós somos alvinegros.
Acreditar não é escolha, é vocação. Acreditar é nossa oração, é nosso refúgio nos momentos de provação. Sempre que um atleticano entoa “Eu acredito!”, o mais sempiterno dos sonhos se conecta com a divindade e uma onda de paixão, única e sensual, se corporifica. É festa. Ainda que os sonhos sejam nuvens, é das nuvens que chuva vem.
Nosso acreditar é redundantemente nosso. Durante a Copa do Mundo, no jogo Brasil x Chile, no Mineirão, evocaram, naquele momento de drama, quase dramático, o credo. O Brasil se classificou, a bola encontrou a trava brasileira no final do segundo tempo da prorrogação, mas não houve epifania. Apenas uma partida de futebol.
Nós somos Galo.
Só a Arquibancada Atleticana, o maior movimento não organizado de Minas Gerais, explica o prazer (muitas vezes erótico) da mistura: branco e preto, preto e branco, preto e preto, branco e branco. Não há um só preto, assim como não há um só branco: matizes que olhos menos atentos, não atleticanos, não percebem e, logo, não entendem. Há muitas camisas pretas e brancas pelo país e pelo mundo, mas nenhuma é semelhante àquela que tremula no varal. O poeta da chuva é atleticano.
Hoje, 2 de dezembro, sétimo dia de campanha gloriosa que trouxe a Copa do Brasil para Lourdes, a celebração traz a lembrança de um ciclo que chegou ao fim, mas que renascerá em breve, numa nova vida, numa nova história. O panteão do Galo está em festa. Evoé, 2015!
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