Me disseram porém
Que eu viesse aqui
Pra pedir de romaria e prece
Paz nos desaventos
Romaria,
de Renato Teixeira
Este não é um texto de uma mão só, de uma nota só, de uma cor só. Este é um texto de muitas mãos, de muitas lágrimas, de muitos sorrisos e de muitos sobrinhos. Sim, muitos sobrinhos, tantos quantos possamos imaginar e mais do que aqueles que podemos contar.
Os sobrinhos de sangue são aqueles que a família germinou, e os sobrinhos de adoção, aqueles crescidos pela semeadura diária de tantos anos. Alguns desses não a chamavam de tia, mas carregavam em si a afeição do parentesco.
Este não é um texto de um Clemente só, mas de vários. Alguns seguem com seu árduo (e infrutífero) trabalho com menires, outros partiram para terras mais distantes e deixaram aqui o ofício e muitas saudades, e uns não querem mais a pedreira: não querem tocá-la, querem trocá-la. A melhor maneira de reconhecer um Clemente é observar os menires: não há bolso ou bolsa que os esconda.
Neste ponto, as histórias se encontram na mesma personagem: tia Nilce. Todos que a conheceram sabem de suas características pessoais e acolhedoras, e não sem motivos cativou tantos sobrinhos, tantas amizades, tantas demonstrações de carinho.
No último ano, tia Nilce reuniu suas ferramentas, martelinho em mãos, e se debruçou sobre um trabalho maior para o qual foi chamada. “Nilce, vê esta pedreira a sua frente. Ela não devia ser assim: havia sonhado que seria um jardim verdejante, frutífero, que fosse refúgio para homens e animais, e que houvesse uma fonte de vida que não secasse. Ajude a mim e a eles: faça alguma coisa por essa terra.” Por que ela? As palavras de Leonardo Boff, citadas pelo Pe. João hoje pela manhã, são precisas: “[Deus] Olhou-nos um a um e escolheu para si o mais preparado”. Se alguém podia começar esse trabalho, certamente era tia Nilce.
Não era e não foi um trabalho fácil, mas, agora, ao término da missão que lhe foi destinada, o resultado é muito satisfatório. Ao reencontrar seus pais, sua irmã mais velha, seu querido amigo Véio (Washington) e tantas outras pessoas de tão gratas lembranças, tia Nilce será saudada pela chegada e pela obra de quase 70 anos de vida. Para ela, é hora de guardar as ferramentas, descansar, degustar as colombas celestiais e acreditar na germinação das sementes.
A todos aqueles que sentirem a vazia presença de tia Nilce, sorriam e lembrem-se de grandes momentos, aqueles que justificam nossa existência. Para aqueles que sentirem a presença marcante dela, multipliquem as sementes e sorriam com ela. Não há tristeza nem dor que apaguem o riso livre e o sorriso espontâneo de tia Nilce.
O trabalho de tia Nilce foi concluído, parte de um serviço maior. É hora de outros assumirem a parte que lhes cabe nessa narrativa e cultivar a terra. Nessa história, de forma idêntica e oposta, simultaneamente, à parábola do semeador, a semente que cai entre as pedras cresce e se multiplica como pedra. A parábola não deve ser assim. O sonho não é esse.
Cara,apenas hoje tomei conhecimento deste texto. Não me pergunte porque só fui lê-lo agora.
ResponderExcluirO tempo é individual.
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