terça-feira, 19 de setembro de 2017

A esposa do Severino

- Dona Severa, não é a vida que desejamos integralmente, mas é a que temos. É essa que conseguimos construir, que conseguimos manter e, mais, é a que conseguimos viver. Está cheia de buracos, sem brilho em várias partes, estéril em outras, mas é essa e só podemos consertar para frente, tentar fazer melhor e aceitar que somos falhos, todos. O errado que passou passou; se não passou ainda, é presente (gostemos nós ou não).
Nunca fomos os piores, nem por qualidade, nem por pobreza, apenas não tivemos os holofotes que muitos medíocres tiveram e têm, mas, hoje, Dona Severa, essas mentiras já não nos enganam mais.
O pouco que sempre tivemos não era defeito, só não sabíamos disso. Havia pessoas que sempre tiveram menos que nós e frequentavam, sebastianamente, nossa casa, mas tenho dúvida se a canga delas era mais pesada que a nossa. A delas foi muitas vezes varrida pela chuva, mas sempre renascia, confiante, à frente.
Se o beco tatuou nossa vida, não pode fazer o mesmo com nossa alma. Foi aprendizado e passou, diferentemente das pessoas que iluminaram nossa história e não passaram, ainda que não estejam aqui. Agora estão mais iluminadas.
Vamos aproveitar que estamos todos aqui e comemorar, pois o amanhã só será revelado depois da zero hora e, antiquadamente, essa revelação pode queimar. Parabéns, Dona Severa!

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