Estava extremamente amarga, o fel seria doce perto dela. Segurei minha careta e observei que Tio Lulu bebia a cerveja em goles generosos, prazerosos, com brilho nos olhos. Fez um sonoro "Ah!" ao terminar e pronunciou: "Bebamos porque a felicidade é líquida". Colocou o copo na mesa com força e me observou atentamente.
- Não gostou, né?
- Não, tio. Não é isso...
- Tenho certeza que não. Você está acostumado a beber esses mijos de égua e achar que são cerveja, mas quando experimenta realmente um de qualidade vira a cara.
Sorri sem graça.
- Você sabe por que achou a cerveja amarga?
- Tio, me desculpe, mas a cerveja é amarga.
- Meninos, meninos, meninos... - e num movimento instantâneo, abaixou-se, pegou um sapato no chão e o arremessou furiosamente contra a parede.
- O que foi, tio? Pulga?
- Claro que não. Apenas exercício para testar os movimentos.
Pegou a garrafa, serviu mais um copo e, antes de beber, complementou:
- A cerveja não é amarga, meu filho. Amarga é sua boca. O Xota me ensinou uma coisa, que ele ainda não entendeu muito bem, mas que é a pura verdade. É uma parte da Bíblia que diz assim: "Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine". É isso que define os Mendes, que nos define. Nós não nascemos para boca de sino, para emitir sons, nós nascemos para falar, para emitir palavras, para amar.
Bebeu o copo de uma só vez e prosseguiu:
- Nós vamos morrer, meu filho, todos, sem exceção. Mas repare que alguns vão morrer mais, porque já morreram e ficaram mortos, enquanto alguns seguem vivos para sempre. Serão inúmeras gerações passadas, e alguns ainda serão lembrados, não porque foram ricos, estudados, mas porque falaram, cantaram e amaram.
Peguei a garrafa, completei meu copo e disse:
- Um brinde, tio. Ao seu aniversário e à língua dos anjos, que cantam, e à dos homens, que bebem. Nós, os Mendes.
Tocamos os copos e bebemos, e senti a cerveja muito mais saborosa.
- A cerveja é a mesma, filho, sua boca é que mudou. - e em novo movimento frenético arremessou um sapato na minha direção.
- Que isso, tio?
- Agora é barata.
***
Homenagem ao eterno Tio Lulu, Luiz Mendes de Cerqueira, "O ilimitado".
15/09/1879
O início dessa história está em As mulheres de Lulu, em três partes, de 15, 16 e 17/09/2013.
Emblemático Lulu Mendes,cantar, amar é viver.
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