segunda-feira, 26 de março de 2018

110 anos

– Puxa o tamburete e senta, meu fio. Aqui ocê tá em casa.
Assim fiz.
– Tô passando um café.
Parou, olhou para a chaleira que fervia e disse:
– Meu fio, esse café é atreticano quinem nóis. Óia a água branquinha misturano com o pretão do café, e ficano tudo pretim. Eta, mininada! Aqui tamém é Galo!
Ao falar “meninada”, o Luizinho, que até então, dormia em roda, acordou e se levantou atento, buscando algum movimento diferente na cozinha.
– Eta, Luisin! Né nada não, sô! Num tá na hora inda não.
Passou o café pelo filtro de pano e afirmou:
- Tamém tem hora que o bran’co’preto pode dá branco tamém. O importante é misturá.
Fechou a garrafa térmica, abriu uma lata com biscoitos, puxou um banco, se assentou, serviu o café em duas xícaras. Peguei a xícara, que fumegava, assoprei e a levei à boca, retirando rápido quase me queimando.
- Eta, minino! Cuidado pr’ocê num queimá a beiça, hein? – E riu com vontade.
- Esse tá quente mesmo, Dona Quiméria! – Respondi sorrindo.
- Café bão tem qui sê forte e quenti quinem coração de atreticano.
Biscoito vai, café vem, proseou:
- Meu fio, hoje o Roberto me ligou. Disse que teve uma festa linda ontem no Campo do Galo, que tava lotado, num cabia mais ninguém e que tinha um mundo de gente do lado de fora pra entrá. O povo todo se arreuniu pra comemorá o aniversário do Grorioso, que fez um jogo contra a Seleção Brasileira. Foi um jogo pra entrá pra história, e os mió em campo foru o Kafunga e o Mané. Acabô empatado, e o povo deu volta no campo carregando os jogadô dos dois time. Foi bunito dimais!
Sorri emocionado, e ela prosseguiu:
– 110 ano num é mole, viu? Eh sodade!
Bebeu o café e colocou a xícara na mesa:
– Tá vino chumbo grosso pela frente, meu fio. Pode iscrevê! Nóis passamu do Mequinha onti, mas é agora que a porca vai torcê o rabo. O time num tá mto firme, passamu uns perrengue onti, já tinha passado no último jogo, nuns otro tamém, e tá na hora desse meninada aprumá. Eu pensei in fazê um chá, daquelas foiage que ocê conhece bem, mas agora num vai dá purque temo um pastor lá. – Parou uns instantes, riu sozinha e: – Eta, bestage!
– Intão... Vamu deixa o pastor metê gol, enquanto nóis trabaia nus bastidô. Ele num precisa fica sabeno de nada, inda mais purque reza nunca é dimais e, como diz meu véio amigo Tatarana, é mió bebê água de sete fonte.
– Vamu tê surpresa nessa final, meu fio, pode iscrevê. Vai sê uma coisa diferente, pra marcá esse campeonato pra sempre, mas num picisa fica preocupado não, purque nóis tamo preparado com chumbo tamém. Na hora do valha-me Deus, vamu abri fogo.
Enquanto ela comia um biscoito, ficamos em silêncio.
– Meu fio, já contei pr’ocê a história do Nicanô?
– Nicanor? Não, Dona Quiméria.
– Um galo que só tinha uma perna. Uns chamavam ele de Nicanô Saci.
– Não conheço essa história.
– O Nicanô se aposentô das rinha sem nunca ter perdido uma luta, e só tinha uma perna, hein?
– Que isso! Nunca ouvi falar nele. Me conta.
– Esse minino era bão dimais, Nossinhora! Cum ele, num tinha tempo rúim.
– Já morreu?
– Não, meu fio. Galo num morre, muda de rádio. Vai cantá em otras banda. O Nicanô vem pra final, pode isperá. Quando o campeonato acabá, eu ti conto a história dele. A história de uma perna só.

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