domingo, 23 de dezembro de 2018

Akáshico

Esta narrativa estava perdida a mais de 200 anos e agora, graças ao apoio de Monsenhor Espinoza, que tem me permitido acessar esses papéis, reaparece na minha família. Uma única condição está imposta: que as narrativas sejam recontadas, jamais transcritas.

Espero que, em breve, possa me dedicar exclusivamente a elas.

***

Um dia claro de sol perdido no fim do século XVIII, numa cidade brasileira marcada pela aristocracia branca e pela escravidão negra. Mais uma manhã que se inicia com os comércios abrindo as portas, homens de negócios e de letras transitando pelas ruas, o mercado ruidoso com negociantes chegando e saindo, a algazarra de meninos pela rua, os montes de esterco espalhados por todos os cantos e a melodia de carroças subindo e descendo ladeiras.

Sentado em um chafariz, observo tudo, tal qual um espectador privilegiado. As pessoas passam por mim sem me perceber ou mesmo sem tempo para me olhar. Não destoo da paisagem, estou entre outros que ali também se acomodam, mas não há olhos para mim. Quer dizer, quase não há. Um gato malhado, amarelo, preto e branco, passa por mim, me fita nos olhos, sibila, se arrepia e corre.

Do alto da praça, surge Conceição e seu balaio de roupas. Talvez tenha vivido tempos de frescor e beleza, mas que certamente já passaram. Usando um vestido vermelho de tecido barato, surrado pelo uso e pelo tempo, a mulata segue compenetrada rumo ao riacho onde irá bater o seu ganha-pão. Mesmo sem recursos, vê-se que seu cabelo está escovado e que há uma espécie de prendedor que cria uma arte no cabelo, deixando claro que a lida não consumiu sua vaidade.

Surge, então, de uma rua lateral um mulato parrudo, descalço, com roupas um tanto quanto gastas, mas que em nada tiram dele a convicção e o objetivo. Também ele sem nenhuma beleza, apenas a força brutal que exala de seu corpo. Em movimentos firmes, felinos, caminha entre sombras em direção à Conceição, que não percebe sua aproximação. No meio da praça, já a poucos metros, ela descendo, ele subindo, Conceição percebe a chegada do homem.

Ceição não sabe o que faz: quer correr, quer fugir, quer gritar, mas sabe que nenhuma dessas opções será boa. Resolve mirar um ponto do outro lado da praça, junta o balaio ao corpo, cerra as sobrancelhas, levanta o rosto e aperta o passo. Nada disso impede o encontro com Bastião. Ele se junta a ela e inicia um diálogo, na verdade um monólogo, pois Ceição nada responde. As palavras são firmes, fortes, duras como sua constituição física, mas não agridem a mulher. Ceição levanta ainda mais a cabeça, muda, e tenta andar mais rápido.

O grande mal de Bastião é não entender o comportamento daquela mulher que ele tanto ama e por quem tantas vezes se declarou. Ela está fria, de pedra, intocável, sem nenhum movimento que mostre a mínima reciprocidade para o sentimento dele. Aqueles olhos agora estão no infinito, perdidos, sem o menor resquício de uma chama que ardeu neles.

A travessia da praça não é longa, e a rua que levará Ceição ao riacho está próxima. Sem obter nenhuma resposta, Bastião segura com firmeza o braço da mulher, o que a faz parar. Lança seus olhos sobre o dela e ruge:
- [...].

Essas palavras causam um frisson em Ceição, com um longo arrepio percorrendo o corpo da mulher e fazendo suas pálpebras vibrarem fortemente. Nesse momento, ouve-se um grito de ordem e uma patrulha com quatro soldados surge da rua do riacho. Bastião larga o braço de Ceição, tenta correr, mas já não há espaço para fugas. O homem é preso, levado à prisão, espancado e por lá vê as últimas luzes de sua vida, ainda sem saber por que Ceição fizera aquilo.

Ceição é interrogada e afirma não saber de nada da vida daquele homem, temendo que qualquer palavra pudesse colocar a vida do amado em risco. Durante toda a travessia da praça, ela estava ciente do perigo que Bastião corria e por isso tentou evitá-lo de qualquer maneira. Ele não soube disso, nem ela soube que ele fora enterrado em uma cova qualquer, ouvindo apenas uma versão que ele teria fugido da cadeia.


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