quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Sêmi

Vivemos tempos de pós-verdades, de fake news (sempre existiram, não com essa incidência e com esse nome, mas se lembre de que a serpente já se utilizava desse recurso), de radicalização e de ódio declarado (haters), de conexão constante, de curtidas, likes e viralização. Um fato rotineiro que se junta a esse grupo citado tem me chamado a atenção: os sêmis. Uma pesquisa mais dicionarizada talvez não revele esse “sêmi” substantivado, com acento, arrimo de família, mas essa forma carinhosa e apelidada se justifica plenamente pela insistência pela qual nos deparamos com ele.

“Semi-”, assim, sem acento e com faca em mãos, foi batizado de prefixo e cresceu bem relacionado, político, marcando presença nos mais variados ambientes e se unindo a todos aqueles se mostrassem interessados nessa parceria. Seu sentido primevo é o de metade, donde se tem o semicírculo, o semianalfabeto, a semijoia e o seminovo, legítima invenção brasileira.

Acontece, contudo, que a sociedade vai mudando (para o bem ou para mal) e a linguagem vai mudando junto (para o bem ou para mal), as inovações tecnológicas se fazem cada vez mais presentes (para o bem ou para mal), e o indivíduo, parte menor da engrenagem, parte maior da existência, muda também. Semimuda, semitambém, semi-indivíduo.

Hoje, o “Sêmi” está, muitas vezes, deixando de ser metade para ser integralidade ou, opostamente, quase não ser. A esse movimento, dou o nome de semiverdade, que não é o mesmo que pós-verdade e não se parece com ela, pois se constitui em uma classificação taxonômica particular e talvez seja a primeira ocorrência dessa fase pela qual passamos no momento.

Em julho deste ano, um político brasileiro, referindo-se a outro político, usou a seguinte expressão “próximo de imbecil”, que nada mais é que um semi-imbecil. Há poucos dias, havia “praticamente certeza” de que o petróleo que polui o litoral brasileiro era venezuelano, e agora há fortes indícios que ele seja proveniente de uma navio de bandeira grega: isso é semicerteza. Perceba-se que, nessa fase sêmi em que vivemos, as informações não são necessariamente falsas, não necessariamente verdadeiras, logo semifalsas ou semiverdadeiras.

Não é difícil encontrar alguém que tenha uma ou várias ideias brilhantes, revolucionárias, que não se sustentam, porém, à mínima análise. Essas são, sem dúvida, semi-ideias, que certamente serão veladas e sepultadas assim, sem desfibrilador que as salve ou ressuscite. No mundo corporativo, ocorre o mesmo: semigestão, semiprofissional, semiplanejamento, semirreunião, semiqualificado. Nas relações familiares, idem: semipai, semimãe, semifilho e outros sêmis mais, que a medicina genética poderá explicar sem grandes dificuldades, mas não sem grandes tabus.

Nas questões de gênero, políticas, futebolísticas (o VAR inaugurou o semi-impedimento) ou do ENEM, sempre há sêmis, basta estar atento para observá-los. Nesses casos, se estiver semiatento, pode-se não perceber ou semiperceber. Assim, da metade para quase tudo ou para o quase nada, o sêmi pode ser meia parte ou mea culpa. É uma questão de semiperspectiva.

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