Em tempos de pandemia,
separar o joio do trigo ganha um novo sentido: separar as fake news das (true?)
news. Pode parecer redundante, mas é preciso considerar que, quando essa
parábola foi contada (Mt 13, 24-30), o mundo era irremediavelmente manual
(muito antes de ser analógico), bem longe destes tempos digitais em que já
navegamos há anos. Além disso, há a questão de língua portuguesa, pois, afinal,
temos em nosso léxico palavras ou expressões que poderiam substituir de maneira
idêntica (às vezes melhor) “fake news”, mas optamos por manter essa forma tão
consolidada (nos dois sentidos) em nossa sociedade.
Muitas são as palavras ou
expressões que podem ser usadas para ilustrar o volume de informações
circulantes atualmente, sejam elas fake ou não, e é importante saber usá-las,
escolhendo a melhor opção, para que o objetivo a que nos propomos seja
atingido. Uma palavra incerta é como uma laranja podre em um cesto.
Com frequência, o volume de
informações parece conferir autoridade (ou poder) ao usuário independentemente
da veracidade do que é afirmado. Ocorre, muitas vezes, que o leitor ou
espectador se confunde em relação aos estratos em que informação, cultura e
sabedoria se encontram, tomando uma pela outra indiscriminadamente. Em linhas
gerais, a informação é ponto de partida, o fato, a ação. A cultura é um
arcabouço ao qual essa informação se articula, em um jogo inter-relacional de
certa complexidade. Já a sabedoria é o discernimento de identificar o que é
informação, o que é cultura e como usá-las da maneira mais qualificada.
As fake news, em geral,
estão mais vinculadas a notícias, apesar de que elas existem em todas as áreas,
vestindo apenas outras roupagens. Quem já não se deparou com inverdades,
incorreções ou ausências substancialmente estruturais de conteúdos verídicos,
que, carinhosamente, chamamos de falsidades, erros ou mentiras? Quanto mais
específico for o conteúdo, mais difícil será avaliar a veracidade e validade de
uma informação, logo mais necessária será a voz de uma especialista.
Saber escolher as melhores
opções é fazer curadoria, é discernir o que é relevante, é estar ciente da
diferença entre o que é essencial e o que é fundamental, diferença essa tão bem
explicada pelo Prof.
Mario Sergio Cortella.
Somos conscientes, é claro, de que escolher não é uma tarefa simples, como
explica o pesquisador Barry Schwartz em um TED sobre o paradoxo da escolha (em inglês ou legendado), assunto que dá título a livro desse
pesquisador, mas não há como viver sem fazer escolhas. Viver é escolher, ainda
que seja por não viver.
Como separar o que é
relevante do que é irrelevante neste contexto dinâmico e de crescimento
exponencial de conteúdo em que estamos inseridos? Como saber o que usar, em
quem ou em quais fontes confiar e como ter acesso ao trigo e não ao joio? Não é
possível ser especialista em diversos assuntos, pois, se assim fosse, o
multiespecialista seria um generalista, portanto não especialista, num jogo
tautológico sem fim.
Na perspectiva do método
científico, fazer a curadoria é saber, dentre as milhares de variáveis que
supostamente interferem num fenômeno, quais delas realmente determinam (e como)
o resultado final dele. Para esse fim, é preciso ter informação, cultura e
sabedoria, lembrando que as duas primeiras são potencialmente acadêmicas,
enquanto a terceira se constrói na experiência de saberes e na vivência de
valores. Por isso a importância de uma educação, também atingida por essa
avalanche informacional, que oriente e ensine os alunos a “curadorar”.
Independentemente das
melhores escolhas ou não, uma curadoria pode ocorrer, ainda que de maneira
corretiva. Uma escolha malfeita implicará o uso de outro sentido de curadoria,
daquele que cura, que repara uma doença ou um mal, uma ação alopática. Todos
nós sabemos que remédios são drogas e, por conseguinte, apresentam efeitos
colaterais, ainda que de baixo espectro. Assim, para o bem desse processo, que
também é o da conscientização da autoria do nosso destino, é melhor um curador
do que um curandeiro.
Texto publicado originalmente no Linkedin:
https://www.linkedin.com/pulse/curadoria-humberto-mendes

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