sexta-feira, 8 de maio de 2020

Curadoria


Fonte da imagem: https://bit.ly/3doGmYv 

Ennio Alberto Filho e Humberto Mendes

Em tempos de pandemia, separar o joio do trigo ganha um novo sentido: separar as fake news das (true?) news. Pode parecer redundante, mas é preciso considerar que, quando essa parábola foi contada (Mt 13, 24-30), o mundo era irremediavelmente manual (muito antes de ser analógico), bem longe destes tempos digitais em que já navegamos há anos. Além disso, há a questão de língua portuguesa, pois, afinal, temos em nosso léxico palavras ou expressões que poderiam substituir de maneira idêntica (às vezes melhor) “fake news”, mas optamos por manter essa forma tão consolidada (nos dois sentidos) em nossa sociedade.

Muitas são as palavras ou expressões que podem ser usadas para ilustrar o volume de informações circulantes atualmente, sejam elas fake ou não, e é importante saber usá-las, escolhendo a melhor opção, para que o objetivo a que nos propomos seja atingido. Uma palavra incerta é como uma laranja podre em um cesto.

Com frequência, o volume de informações parece conferir autoridade (ou poder) ao usuário independentemente da veracidade do que é afirmado. Ocorre, muitas vezes, que o leitor ou espectador se confunde em relação aos estratos em que informação, cultura e sabedoria se encontram, tomando uma pela outra indiscriminadamente. Em linhas gerais, a informação é ponto de partida, o fato, a ação. A cultura é um arcabouço ao qual essa informação se articula, em um jogo inter-relacional de certa complexidade. Já a sabedoria é o discernimento de identificar o que é informação, o que é cultura e como usá-las da maneira mais qualificada.

As fake news, em geral, estão mais vinculadas a notícias, apesar de que elas existem em todas as áreas, vestindo apenas outras roupagens. Quem já não se deparou com inverdades, incorreções ou ausências substancialmente estruturais de conteúdos verídicos, que, carinhosamente, chamamos de falsidades, erros ou mentiras? Quanto mais específico for o conteúdo, mais difícil será avaliar a veracidade e validade de uma informação, logo mais necessária será a voz de uma especialista.

Saber escolher as melhores opções é fazer curadoria, é discernir o que é relevante, é estar ciente da diferença entre o que é essencial e o que é fundamental, diferença essa tão bem explicada pelo Prof. Mario Sergio Cortella. Somos conscientes, é claro, de que escolher não é uma tarefa simples, como explica o pesquisador Barry Schwartz em um TED sobre o paradoxo da escolha (em inglês ou legendado), assunto que dá título a livro desse pesquisador, mas não há como viver sem fazer escolhas. Viver é escolher, ainda que seja por não viver.

Como separar o que é relevante do que é irrelevante neste contexto dinâmico e de crescimento exponencial de conteúdo em que estamos inseridos? Como saber o que usar, em quem ou em quais fontes confiar e como ter acesso ao trigo e não ao joio? Não é possível ser especialista em diversos assuntos, pois, se assim fosse, o multiespecialista seria um generalista, portanto não especialista, num jogo tautológico sem fim.

Na perspectiva do método científico, fazer a curadoria é saber, dentre as milhares de variáveis que supostamente interferem num fenômeno, quais delas realmente determinam (e como) o resultado final dele. Para esse fim, é preciso ter informação, cultura e sabedoria, lembrando que as duas primeiras são potencialmente acadêmicas, enquanto a terceira se constrói na experiência de saberes e na vivência de valores. Por isso a importância de uma educação, também atingida por essa avalanche informacional, que oriente e ensine os alunos a “curadorar”.

Independentemente das melhores escolhas ou não, uma curadoria pode ocorrer, ainda que de maneira corretiva. Uma escolha malfeita implicará o uso de outro sentido de curadoria, daquele que cura, que repara uma doença ou um mal, uma ação alopática. Todos nós sabemos que remédios são drogas e, por conseguinte, apresentam efeitos colaterais, ainda que de baixo espectro. Assim, para o bem desse processo, que também é o da conscientização da autoria do nosso destino, é melhor um curador do que um curandeiro.

Texto publicado originalmente no Linkedin:
https://www.linkedin.com/pulse/curadoria-humberto-mendes

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