sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Meia-verdade

Imagem de holdmypixels, by Pixabay. 

Ennio Alberto Filho e Humberto Mendes 

Em uma entrevista de emprego, o entrevistador, ao ler o currículo do candidato, identifica “curso superior incompleto” e questiona o entrevistado o quanto exatamente é “incompleto”. O candidato responde que passou pelo vestibular, cursou um mês e trancou a matrícula. “Um mês?” pergunta o entrevistador, e “Sim” responde o candidato. “Isso é incompleto?” perguntou um, “Bastante incompleto, senhor”, respondeu o outro. 

Nessa breve história, fictícia em relação à entrevista e verídica em relação ao currículo, destaca-se uma questão bem contemporânea: a meia-verdade. Apesar de consideravelmente velha, talvez ainda não tenha sido estudada com a profundidade com que merece, pois, sem dúvida, está, senão em patamar semelhante, muito próximo àquele ocupado pelas fake news, pela pós-verdade e mesmo pela mentira. 

Sem dúvida, a meia-verdade se confunde com a meio-verdade, que muito se aproximam, mas que não são idênticas. As normas linguísticas elucidam esse parentesco (meio x meia), mas é inegável, do ponto de vista lógico, que tudo que contém um pouco de verdade precisará conter um tanto de não verdade para ser inteiro, valendo o mesmo para a mentira. 

Antes da metade, é importante focar o inteiro. O que é a verdade? Certamente, a filosofia está mais bem preparada para debater esse tema, mas se pode considerar a verdade um conceito e uma realidade que coabitam com união de bens e com separação litigiosa simultaneamente. Essa é uma afirmação um tanto questionável, o que afirma seu caráter propositivo e provocativo, próprio do movimento reflexivo a que se propõe este texto. 

Por que a verdade pode ser um conceito? Porque pode ser discutida, debatida, contestada e até mesmo negada, apontem os fatos ou não para essa possibilidade. Por que pode ser uma realidade? Porque pode ser factual, visível, sensível e científica. A proporção entre conceito e realidade determinará o quanto uma verdade é “inteira”, se há inteireza entre meias, metades, meios e fins. 

O ponto central que se pretende debater neste texto é a quantidade de energia gasta atualmente para se discutir uma meia-verdade, para reafirmar dois lados complementares, mas sem se buscar uma visão outra que possa resolver a questão como um todo e permitir que haja um avanço não só epistemológico, mas também humano. 

Um exemplo modesto é o copo com água até a metade de sua capacidade. Meio cheio? Meio vazio? Aqui há possibilidades simbólicas variadas de leitura e interpretação, mas, do ponto de vista pragmático, se aquele “meio copo” é uma questão a ser debatida, o foco deve ser o quão relevante é faltar ou conter no copo. Se o conteúdo do copo não for um problema, o melhor é não perder tempo nem com ele nem com o outro. 

Um exemplo mais ácido é o momento pelo qual passamos, de pandemia, em que economia e saúde pública têm se chocado. Não deveriam se chocar, pois precisam caminhar juntas, paralelamente, e o princípio matemático básico prevê que duas retas paralelas jamais se encontrarão, logo jamais se chocarão. Então por que discutir se é melhor focar em uma ou outra neste momento? É o mesmo que discutir se o copo do parágrafo anterior é o mais indicado para conter água. 

Economia e saúde pública devem ser pensadas juntas, sistemicamente, partes inseparáveis das políticas de Estado e do dia a dia de cada ente de um grupo social. O debate a ser promovido é sobre como conciliar ambas, como, eventualmente, permitir que uma avance um pouco agora até que a outra possa alcançá-la depois, como responder às inúmeras demandas de saúde pública que o Brasil exige diante de um quadro de recursos limitados e, muitas vezes, já comprometidos. 

Muitas vezes, grupos antagônicos defendem pontos de vista distintos, mas não excludentes, apenas “meiados”. Dizer que a culpa é do governo não resolve nada, assim como afirmar que a população não faz a parte dela não melhora a situação. Não se busca aqui uma politização do debate, mas observe: a culpa é do governo? Primeiro, essa frase precisaria ser completada: culpa de quê? Se a resposta for sim, é culpa só desse governo? Então essa situação veio do governo anterior: só dele? Ah, não, do anterior também e dos anteriores “antecessivamente.” Não há dúvida de que encontrar uma solução e resolver os problemas, pelo menos no primeiro momento, é infinitamente melhor do que discutir e não avançar. Mesmo que a culpa seja desse governo, buscar incialmente a solução é o mais sensato. 

Há uma questão central na meia-verdade sobre a qual sempre se deve ater: se uma proposição pode ser classificada como meia-verdade, de que será constituída sua outra parte? Um meia-verdade implica uma meia-mentira? Uma meia-verdade é uma meia-mentira que não se realizou, e vice-versa? 

É preciso “certo repertório”, como afirma Luiz Felipe Pondé, para poder se desvencilhar desse jogo fracionário da atualidade. Entende-se “repertório”, aqui, como um fazer compartilhado de e por informação, cultura e sabedoria. Podem não ser tudo de que se precisa, mas, certamente, serão os itens iniciais para um conhecimento que não será completo jamais, mas conseguirá ser muito mais do que incompleto. 

Texto publicado no LinkedIn em 29 de outubro de 2020.

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