quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Porta de Santo Amaro


Era uma noite única. Tomou banho, arrumou-se, fez a barba com alguns senões, pois as mãos já não tinham a firmeza de tempos mais juvenis, mas nada que o impedisse de se sentir mais novo. Acertou os cabelos, aqueles últimos e velhos remanescentes de sua vida leonina, fez uma conferência detalhada no rosto, nos dentes, nas orelhas, ensaiou sorrisos e versos, sentiu uma emoção nova e teve a certeza de que estava pronto para o jantar.

Aqueles eram dias felizes, pois a memória estava controlada, sem lapsos, e não havia esquecido nada importante há algum tempo, o que o deixava mais confiante e animado. Havia preparado um pequeno buquê de flores do campo para presentear a anfitriã e estava muito contente com a aquarela de cores que reunia. Havia amarelas, vermelhas, laranjas, violetas e outras que se misturavam, insatisfeitas com um só tom.

Olhou o relógio, confirmou a hora e também sua pequena lista diária, apesar de não tê-la usado nos últimos dias. Tudo certo, à exceção dos remédios, pois optara pelo vinho que levava junto ao buquê. Misturar medicamentos e álcool não era uma boa opção, e seu histórico recente de lembranças lhe dava a segurança de que não teria nenhum problema.

Saiu de casa, fechou a porta. O contraste entre a rua escura e o céu iluminado lhe chamou a atenção.

Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós

Um verso veio à sua cabeça e ele sorriu. Um encontro em sua idade não era dos eventos mais comuns, ainda mais com uma mulher tão única. Pensou, então, como os adjetivos mudam com os anos, pois a primeira palavra que lhe veio à mente foi “atraente”, mas que estava muito longe do sentido usual dessa palavra. Na fase em que temos contato mais com coroas do que com buquês, a atração cede lugar à atraência. Com uns anos a menos, certamente se diria eufórico naquela noite.

A força desse amor
Nos invadiu...
Com ela veio a paz, toda beleza de sentir

Outros versos vieram à mente e ele sorriu largamente. Estaria compondo uma poesia? Estaria se descobrindo poeta nessa fase da vida? Ele, que mal escrevera umas poucas linhas ao longo de tantos anos, encontrava agora uma nova inspiração? Sua confiança crescia e ele, naquele momento, via o mundo como uma grande pintura, com cores aquareláveis, em que vermelhos eram mais rubros e azuis, mais celestes.

A casa de sua anfitriã não era longe, nada que uma caminhada musical não pudesse vencer, e ele optou por cadenciar o passo para não transpirar de mais. Além disso, era uma boa maneira de limpar a mente de problemas cotidianos e focar realmente no que era imprescindível. Como as flores naquele ramalhete tão belo.

Caminhando, levantou o buquê à altura dos olhos e sentiu a fragrância delicada das flores. Lembranças olfativas lhe vieram à mente e um singelo desejo de viver tomou conta dele.

Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você...

Os versos seguiam-se em sua mente e uma onda de amor-próprio se apossou dele, até que fosse se quebrar na areia. Uma dúvida precipitou tudo: conseguiria lembrar dos versos que compunha? Bastava ficar calmo, não entrar em pânico, deixar as ideias fluírem e tudo daria certo. O vinho o ajudaria a relaxar e, talvez, até compor mais.

O vinho! Meu Deus! Esquecera o vinho. Não era possível! Havia programado a compra, o rótulo, a safra, com maior cuidado e zelo, e deixara a garrafa em casa. Olhou o relógio! Voltar ou não? Não havia muito tempo para isso e, se o fizesse, precisaria de outro transporte para chegar à casa da... da...

Não era possível! Não se lembrava do nome da anfitriã! Meu Deus, agora não! Ele não podia se esquecer do nome dela justo naquele momento, depois de tanto tempo esperando o jantar. O vinho, então, se tornou o menor dos seus problemas, assim como o tempo para buscar a garrafa.

Parou de caminhar e encostou numa parede. Fechou os olhos, respirou fundo e disse a si mesmo que ficasse calmo, era uma crise que logo passaria e que não atrapalharia seu encontro. Mudou a respiração e procurou os remédios em um dos bolsos. Não estavam. Como não estavam? Ele sempre carregava os remédios no bolso. Sentiu um calafrio e uma frustração enorme tomou conta dele.

Olhou o relógio de novo. Não viu as horas. Não dispunha de muito tempo e nada lhe vinha à mente que pudesse ajudá-lo. Ainda encostado, resolveu repassar todo o dia, a fim de buscar alguma ideia que o ancorasse naquele mar de dúvidas em que se encontrava.

Meu amor...
Vou lhe dizer
Quero você

Aqueles versos que não paravam de ocupar seus pensamentos. Não! Com tantos anos da vida para se fazer poeta, logo naquela hora, em que não podia dividir a mente, eles surgiram com força. Um desespero começou a brotar dentro dele e a aflição do fracasso iminente disparou-lhe o coração, ressonando as batidas nos ouvidos. E agora?

Escorregou mantendo as costas na parede e caiu sentado, desanimado, desamparado, mudo. Ainda desnorteado com toda aquela situação, lembrou-se de equilibrar a respiração para manter a calma. As lágrimas lhe correram pela face, e o sentimento de impotência lhe invadiu, mostrando a ele, brutalmente, que os anos não podem ser enganados.

Com a respiração restaurada, um feixe de clareza começou a brotar nele. Decidido, levantou-se, bateu a mão na roupa para retirar a poeira e seguiu rumo à casa da anfitriã. O buquê, fielmente em suas mãos.

Com a alegria de um pássaro
Em busca de outro verão

Que versos eram aqueles? Um pensamento aflorou: não eram versos dele, não era ele um poeta, mas um copiador, um ladrão de versos estúpido, que mal sabia de quem roubava e dizê-los só aumentaria sua vergonha e limitação.

Pouco tempo depois, chegou à casa do jantar e parou à porta.

Na noite do sertão

Que porta era aquela?

Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei

Não reconheceu a porta. Estaria no endereço certo? Teria confundido o local? Haveria uma mulher realmente a esperá-lo, ou tudo não passaria de uma ilusão de sua mente senil? Sentiu a boca seca e as mãos transpirando. Um buquê. Que buquê era aquele?

Tomado de pavor, encarou a porta e sentiu o coração bater por ela. Era simples, de um tom azulado do fim das tardes de inverno, esmaecido, em que se percebe que o tempo chupou, tal como uma laranja, grandes partes da cor original, deixando apenas a lembrança que o bagaço já foi fruto.

Havia uma ferida na lateral, que sangrava e escorria pelo chão, mas que lutava, maternalmente, para gerar uma semente que partia rumo ao céu. Não era uma trepadeira, era uma sobrevivente, uma planta que não aceitou a limitação, a ausência de solo, de carinho e de atenção, e rasgou nas entranhas da casa uma fábula de querer viver apesar de tudo. Não, não era uma ferida, era um sonho.

Não satisfeita de fugir do destino de erva, de mato, aquela planta abraçou a porta, a cobriu, a protegeu e com ela se uniu. Casaram-se. Agora, aquele véu florido pertencia a ambas, tão parte, tão arte, que a porta não se reconhecia mais como mera fronteira entre dois mundos, mas como única existência, flor.

O degrau, comido por pés ora aflitos, ora displicentes, se juntava ao chão, fazendo uma comunhão rasteira, nunca rasa. Certamente, jamais seria casa, mas encontrou sua essência se fazendo chão. Não havia glamour, nem louvores, nem presentes e adulações, mas a felicidade do degrau não exigia um próximo passo, apenas um pé que o empurrasse ao encontro de seu par.

As flores daquele véu lhe chamaram atenção e uma luz distante, mínima e solitária piscou em sua mente: o nome dela era uma flor. Isso! Graças a deus! Sua anfitriã tinha o nome de uma flor, começava a se lembrar. Agora, era se acalmar e pensar nas opções, pois logo se lembraria de todos os detalhes. O pior já passara.

Começou a listar nomes de flores que podiam ser também próprios: Margarida, Rosa, Hortênsia... Begônia, Petúnia... Líria, Girassola, Crava, Cinamoma... Algo não estava certo... Aqueles nomes que vinham à mente eram realmente de flores? Um sentimento de que não eram começou a surgir e a sufocá-lo. Henriqueta, a flor... Henriqueta, sim, era flor, disso não tinha dúvida, e aquele sorriso enigmático lhe invadiu com serenidade e encanto. Quem era Henriqueta?

Olhou o relógio: as horas estavam lá, mas não lhe diziam nada. Voltou os olhos para a porta, percorreu-a de ponta a ponta, virou-se para a rua e, aéreo, não percebeu movimento naquele mar de solidão. Meteu a mão no bolso e não encontrou os remédios. Na outra mão havia um buquê. Que flores eram aquelas? Será que o nome que procurava estava em suas mãos e ele não reconhecia?

Era melhor seguir em frente e jogar fora para sempre aquele encontro, de cuja companhia ele nem se lembrava, ou era melhor voltar para casa e tentar recomeçar depois, tomando os remédios e seguindo suas atividades de memorização?

Não teve tempo de optar, pois a porta se abriu. Uma mulher atravessou o marco e, vendo-o ali, exclamou animada:

– Amaro! Boa noite! Você chegou agora?

Uma onda de calor tomou conta dele e um sorriso brotou-lhe incontinente. Tentou dizer alguma coisa, mas as palavras não saíram.

– Você está muito elegante, viu?

Cada palavra doce e gentil agitava seu corpo.

Tentou articular alguma frase, sem sucesso, emitindo apenas um rosnado inaudível.

– O que é isso em sua mão, Amaro? É um buquê?

– É...

Os olhos dela brilhavam.

– É... – voltou a dizer ele.

Um silêncio costurou os olhares de ambos.

– É...

Engasgou-se com os pensamentos, enquanto lutava com os lábios mudos.

– É...

– Que lindo! – Disse ela.

Uma torrente reprimida e incontrolável disparou:

– É para você, minha flor.

Sem saber como havia dito aquilo, viu um buquê branco surgir nos lábios da mulher, enquanto o rosto dela se tingia de vermelho.

Ele retribuiu o sorriso e esticou a mão com as flores para ela.

– Obrigada – disse ela um tanto desconcertada. – Vamos entrar. – Recolheu as flores com uma mão, levando a outra até a mão dele. Entraram juntos, de mãos dadas, e a porta se fechou.

À mesa, esqueceram-se de tudo.
***

Aquarela de Marci Nunes (@marci_nunes) e poesia de Flávio Venturini (@flavioventurinioficial), Céu de Santo Amaro.

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