Hoje é uma data importante para este blog: a despedida do Caneteiro dessas páginas. Em 25 de julho de 2001, houve uma ruptura, uma quase morte, que renasceu, nova e modificada, na missa de 7º dia, naquele 31 de julho. Desde então, são quase 20 anos de acidez, e não há estômago que suporte tamanha quantidade de HCl (Humberto Clemente). Assim, este é o último texto assinado por esse caneteiro, tão importante e tão único, mas que, como todo ser humano, também precisa sair de cena em algum momento da existência. Gratidão por tantas risadas e tantos aprendizados nesses longos anos de caneta irrequieta.
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Nada mais velho do que a palavra a inovação (de origem latina), apesar de, sempre que a ouvimos, um inevitável cheiro de novo invada nossas narinas e nossa imaginação. Disrupção também não é jovem, mas, muito menos usada, está muito mais para o retrato de Dorian Gray do que para o próprio Dorian. Disrupção tem enfeitado a boca de muitas pessoas, ainda que grande parte delas não faça a menor ideia do que seja esse bibelô (chupeta para tantos outros).
Particularmente incomodado com tanta inovação e disrupção que não passam de embromação, resolvi fazer um experimento disruptivo, inovador, em que todas as bases sociais e científicas fossem colocadas à prova: o café disruptivo. Fazer um café, passar um café, o verbo pode se alterar, assim como a qualidade final da infusão, indo desde o chafé (translúcido e aguado) até o levanta defunto (quase precisando ser cheirado de tanto pó).
Para quebrar paradigmas, que é a base da disrupção, resolvi fazer meu café no liquidificador. Me senti o disruptivo, um Duchamp do século XXI, um mictório entre tantos vasos sanitários. Além do mais, resolvi afirmar que a tampa do liquidificador é um gadget, utilizando-a como olho mágico nesse laboratório fabuloso. Foram minutos de pura arte, inovação, disrupção e sujeira, muita sujeira. Os mais pessimistas diriam que o café ficou horroroso, mas prefiro buscar um olhar disruptivo e crer que criei uma nova bebida, ainda não batizada, de gosto duvidoso e pós-moderno.
Todo esse exercício lúdico acima tem a pretensão de trazer à discussão uma palavra nova no léxico, pelo menos até agora não dicionarizada em minhas pesquisas, que já nasce essencialmente velha: ivelhação. Sem dúvida, os próprios radicais já explicitam, essa ivelhação é o antípoda de inovação, certamente um antepassado longínquo, uma pitecoexistência nesse mundo tão jovem da inovação.
Essa ivelhação é o ato de se buscar o velho, o antigo, uma ação que gere ou que encontre um histórico, e não apenas uma história, sem necessariamente se remeter a teias de aranha ou a cabelos brancos. Antes que me digam preconceituoso, declaro abertamente meu afeto às aranhas, às teias e aos cabelos brancos, todos os três tão presentes em minha vida.
Ouvi certa vez uma teoria que dizia sobre as pimentas e os sais no mercado de trabalho. Os sais se referem aos cabeças brancas, aos profissionais mais experientes, com mais horas de estresse e dedicação, logo com mais idade, enquanto as pimentas se referem aos cabeças de fogo, os novos profissionais, em geral jovens, com a cabeça fervilhando de ideias e de vontades, mas sem necessariamente conhecer o front.
Particularmente, gostei muito dessa abordagem, ainda que possam ser feitos comentários ou críticas, aliás como a toda teoria, conceito ou perspectiva. Trouxe o assunto à cozinha e fiquei pensando em algum prato que leve apenas pimenta, sem sal. Depois me veio a perspectiva de a pimenta em conserva levar sal em alguns casos, ainda que se possa comer a pimenta in natura. Analisei também o impacto de uma colherada de pimenta ou de sal no humor do fígado, dos rins e do ângulo de 90⁰. (Cada um reflita por si).
Essas divagações me fazem pensar que o mercado de trabalho deveria ter uma área especializada na ivelhação, a fim de poder potencializar o que esses cabeças brancas têm de melhor. Há processos para a captação de “novos” talentos, de trainees, de “jovens lideranças”, mas há, realmente, atenção para reter os “velhos” talentos? O cabeça branca é um processador sem placa-mãe nos dias de hoje? Ou o problema é muito mais de BIOS (aqui, certamente, só os mais antigos, quiçá só os cabeças brancas reconhecerão que BIOS é esse)?
Além disso, a tradição, muito valorizada por parte considerável de nossa sociedade, só se sustenta na ivelhação, porque pensar tradição sustentada na inovação é como pensar no queijo suíço a partir dos buracos do queijo e não do queijo em si.
Esse texto não pretende ser uma proposta disruptiva, pois não há nada de novo nele, nem de abordagem, nem de metodologia. Encontrará, contudo, espaço para disruptar em virtude do que o mercado de trabalho tem feito e como tem visto esses cabeças brancas. Não há aqui nenhuma bandeira de reserva de mercado aos cabeças brancas ou de desmerecimento dos cabeças vermelhas, porque, se houvesse, seria um vício estrutural, já que os cabeças brancas já foram cabeças vermelhas, e os cabeças vermelhas que ultrapassarem o cabo da boa esperança (em minúsculas mesmo) serão cabeças brancas um dia.
A ideia é misturar, é usar o que cada grupo tem de melhor, é obter o melhor sabor que cada pimenta ou que cada sal é capaz de ofertar e apresentar um prato novo, inovador. Não nos deixemos, porém, enganar com pratos inovadores, pois o sabor pode ser incrivelmente inédito, mas o prato, esse utensílio doméstico que sustenta o alimento, seguirá o mesmo (ainda que nunca usado) em sua forma e sua função: saciar nossa ancestral fome.

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