quarta-feira, 30 de junho de 2021

As cidades e os sonhos

Para Italo Calvino

Depois de algumas horas de sono, chega-se a Anaret, uma construção fortificada por jardins floridos e plantas frutuosas. Não há muros, balaustradas, vigias ou armas, apenas um longo exército de margaridas que circundam a cidade, jamais impedindo a entrada de um viajante, jamais permitindo que ele saia indiferente.

As mulheres de Anaret são belas, únicas, tão únicas que, apreciando-se em detalhes e pormenores, se dirá que se trata de uma só mulher, tantas vezes refeita, renascida, multiplicada infinitamente por olhos que nunca se enganam, por bocas que sempre se beijam e por mãos que se procuram num carinho, numa tarde silenciosa de sol.

À noite, quando os ventos frios anunciam a suave chegada da vida, ouvem-se melodias por todas as ruas e vielas, o clamor belo e quente de canções que embalam os homens e adormecem as feras. São vozes femininas que entorpecem os sentidos e costuram realidade, sonho e desejo numa mesma trama, em que corpos se tocam e se afastam, se pedem e se repelem, no langor cálido de paz e guerra.

Essas serenatas atravessam a noite, os sonhos e os anos, cortam o espaço, a sanidade e o interdito, não cessam jamais de chegar a um inebriado e estranho ouvinte, que insiste em caminhar em busca dessa cidade-desejo. Anaret é a cidade onde os sonhos sorriem, lábios sinuosos e sensuais, rubros e vivos, cantam memórias e esperanças, a lembrança é vivificada e calor e frio são amantes em despedida.

Ao despertar com os primeiros raios de sol, Anaret se retira e se guarda, recatada e encantadora, para que o dia seja o que se espera dele. O desperto, sem o calor da cidade-desejo, tateia a cama vazia e ora para que a chuva venha em seu socorro, verdejando a fé e umidecendo-lhe as palavras, para que, no próximo encontro, ao fim do dia, elas possam encerrar essa eternidade de silêncio e constrição.

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