sábado, 3 de setembro de 2011

Capítulo VII - Delírio (I)

Para Brás Cubas

Que me conste, muitos já relataram os próprios delírios, cientes do que faziam ou não; sem originalidade alguma, faço-o eu também e tenho lá minhas dúvidas se alguém mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação de fenômenos mentais, pode saltar o capítulo. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos. Primeiramente, tomei a figura de um bule andino e sentia um chá fervente correr por meu interior, alfinetando, a cada gota escaldante, meu corpo de barro.

Logo depois, senti-me transformado numa cimitarra, que, nas hábeis mãos de um sarraceno, partia mãos e crânios de cristãos que brigavam por uma cruz que carregavam ao peito, sem a menor ciência de que, em poucos minutos, descobririam a nulidade de jazer sob ela. Esse corpo de morte me deu a mais completa leveza e a sensação de que a tinta que sujou minhas mãos tantas vezes em vida não era comparável àquele fluido ígneo e escarlate para a composição de uma narrativa.

Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um avestruz, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevia interrogá-lo e, com alguma arte, lhe disse que a viagem me parecia sem destino.

– Engana-se – replicou o animal – nós vamos à origem dos séculos. Aos seus.


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Escutar e compreender


Nem todos os livros são tão tediosos quanto seus leitores. Provavelmente há palavras que se aplicam exatamente a nossa condição, e que, se as pudéssemos realmente escutar e compreender, seriam mais salutares a nossas vidas do que as manhãs ou a primavera, e possivelmente dariam um novo aspecto à face das coisas.


Henry Thoreau

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Prudência


A verdadeira prudência consiste, já que somos humanos, em não querer ser mais sábios do que nossa natureza o permite.


Erasmo de Rotterdam

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Foto

Vês nas fotos um rosto inexistente
Esquecimento sob forma de avivamento.
As carnes, os ossos comidos pelas certezas desesperam a beleza
                                                                                    [simulada.
Que significados dará a vida aos horizonts que esquecemos?

Vera Casa Nova

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Exatidão

A palavra associa o traço visível à coisa invisível, à coisa ausente, à coisa desejada ou temida, como uma frágil passarela improvisada sobre o abismo.
Italo Calvino

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Aquieta, cambada!

Quando, então, trouxeram reunidos todos os animais, estavam ajuntando a cavalhada. Regulava subida amanhã, orçado o sol, e eles redondeavam no aprazível - tropilha grande, pondo poeira, dado o alvoroço de muitos cascos. Fiz um rebuliz? Dou confesso o que foi: era de mim que eles estavam espantados. Aí porque a cavalaria me viu chegar, e se estrepoliu. O que é que cavalo sabe? Uns deles rinchavam de medo; cavalo sempre relincha exagerado. Ardido aquele nitrinte riso fininho, e, como não podiam se escapulir para longe, que uns suavam, e já escumavam e retremiam, que com as orêlhas apontavam. Assim ficaram, mas murchando e obedecendo, quando, com uma raiva tão repentina, eu pulei para o meio deles: - "Barzabú! Aquieta, cambada!" - que eu gritei. Me avaliaram. Mesmo pus a mão no lombo dum, que emagreceu à vista, encurtando e baixando a cabeça, arrufava a crina, conforme terminou o bufo de bufôr.
Notei que os companheiros reparavam a estranhez daquilo, dos cavalos e as minhas maneiras. Só que se riam, formados no costume de jagunços, que é de frouxas essas leviandades. - "Barzabú!" - ô gente!, feito fosse minha certeza, o Das-Trevas. E eu parava, rente, no meio de todos, que de volta aceitavam minha presença, esses cavalos.
João Guimarães Rosa

domingo, 28 de agosto de 2011

O peso do amor

O corpo, devido ao peso, tende para o lugar que lhe é próprio, porque o peso não tende só para baixo, mas também para o lugar que lhe é próprio. Assim o fogo encaminha-se para cima, e a pedra para baixo. Movem-se segundo o seu peso. Dirigem-se para o lugar que lhes compete. O azeite derramado sobre a água aflora à superfície; a água vertida sobre o azeite submerge-se debaixo deste: movem-se segundo o seu peso e dirigem-se para o lugar que lhes compete. As coisas que não estão no próprio lugar agitam-se, mas, quando o encontram, ordenam-se e repousam.
Santo Agostinho

sábado, 27 de agosto de 2011

O tempo e o espírito

Mas como diminui ou se consome o futuro, se ainda não existe? Ou como cresce o pretérito, que já não existe, a não ser pelo motivo de três coisas se nos depararem no espírito onde isto se realiza: expectação, atenção e memória? Aquilo que o espírito espera passa através do domínio da atenção para o domínio da memória.
Santo Agostinho

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O que é o tempo?

De que modo existem aqueles dois tempos - o passado e o futuro -, se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, já não seria tempo, mas eternidade. Mas se o presente, para ser tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito, como podemos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir?
Santo Agostinho

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O saci

para quem tem uma só perna
e corre pelo frio uivo da mata,
é crendice acreditar que mais será melhor.

sábado, 13 de agosto de 2011

Ilusão

Mas, então, tudo naquela parte dos Gerais era ilusão de haver e não se saber. O mundo ali tinha de ser de se recomeçar...
João Guimarães Rosa

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...