Para Brás Cubas
Que me conste, muitos já relataram os próprios delírios, cientes do que faziam ou não; sem originalidade alguma, faço-o eu também e tenho lá minhas dúvidas se alguém mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação de fenômenos mentais, pode saltar o capítulo. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos. Primeiramente, tomei a figura de um bule andino e sentia um chá fervente correr por meu interior, alfinetando, a cada gota escaldante, meu corpo de barro.
Logo depois, senti-me transformado numa cimitarra, que, nas hábeis mãos de um sarraceno, partia mãos e crânios de cristãos que brigavam por uma cruz que carregavam ao peito, sem a menor ciência de que, em poucos minutos, descobririam a nulidade de jazer sob ela. Esse corpo de morte me deu a mais completa leveza e a sensação de que a tinta que sujou minhas mãos tantas vezes em vida não era comparável àquele fluido ígneo e escarlate para a composição de uma narrativa.
Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um avestruz, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevia interrogá-lo e, com alguma arte, lhe disse que a viagem me parecia sem destino.
– Engana-se – replicou o animal – nós vamos à origem dos séculos. Aos seus.
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