quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Hestória jornalística

Foto: AP/Owen Humphfreys/PA
Disponível em: http://g1.globo.com/fotos/fotos/2013/02/imagens-do-dia-6-de-fevereiro-de-2013.html#F703746. 

Para o portal: "Mar agitado e força do vento geram ondas gigantes na costa de Seaham, no nordeste da Inglaterra. O país se prepara com as previsões de fortes nevascas e ventanias para os próximos dias." 

BdR: uma forma humana gigante que se levanta do mar e corre em direção ao farol, a fim de aprisionar, em suas mãos fluidas, a luz que assombra a escuridão da noite.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Aprendizado (III)

Chamaram-me para o atendimento.
Depois de horas e alguns exames, meu resultado apareceu, e meu avô sorriu para mim.
- Eu disse a você que não podia ser enfarto.
Respondi com um sorriso e saímos juntos do pronto-atendimento. Já na rua, caminhando lado a lado:
- Me dá essa pedra que tá no seu bolso.
- Pedra? Eu não carrego pedra no bolso.
- Enfia a mão no bolso e tira, porque ela tá aí.
- Eta, Vô, o senhor é teimoso mesmo, hein?! - e enfiei as mãos no bolso para puxar o forro para fora, a fim de mostrar que estavam vazios.
Nesse momento, senti a mão esquerda encontrar um objeto no bolso. Segurei, puxei e fiquei assombrado com a pedra que apareceu: escura, com pontas agudas e odor adstringente.
Meu avô estendeu a mão e recolheu a pedra.
- Filho, a leitura põe muitas palavras pra dentro, mas só a guerra as coloca para fora.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Aprendizado (II)

- A velha dúvida se todo saci é canhoto ou não.
Meu avô sorriu para mim.
- Alguns acreditam que os Clemente não têm enfarto porque têm o coração de pedra.
- Já ouvi essa besteira antes. Quem fala isso é porque não nos conhece, e você sabe bem disso.
Balancei a cabeça afirmativamente.
- Nós não temos o coração de pedra, nós somos de pedra. Na forja em que nascemos, não há malho com penas ou palavras doces, não há desculpas ou amenidades, apenas o ruflar inquieto do martelo. Por isso somos de pedra, porque, se assim não fôssemos, não haveria história para contar.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Aprendizado

Durante a espera em um pronto-atendimento hospitalar, vi meu avô se aproximando e se assentando ao meu lado. Olhou ao redor como se aquele ambiente fosse inusitado e, virando-se para mim, disse:
- O que faz aqui?
- Não estou passando bem.
- O que tem?
- Sinto uma dor no peito e estou com medo de ter um enfarto.
Há muito não ouvia uma risada tão sonora quanto a dada por meu avô. Olhei para ele surpreso por aquele comportamento diante de minha resposta. Ele bateu com a mão em minhas costas:
- Você não tem vergonha de falar uma coisa dessas?
- O quê? Que estou com medo de ter um enfarto?
- É claro. Desde quando um dos nossos morre de enfarto? Nós morremos em campanha.
- Mas...
- Lembre-se de que nós somos feitos de uma só peça, de um só material, de um só golpe. Nós não nos dividimos, não nos misturamos, não aceitamos mais ou menos, só a exata medida.
- Lembre-se o senhor de que eu tenho dois sobrenomes...
- Eu sei. Não se talham mais nomes únicos. Não há mais Clementes como antigamente.
- Alguns dizem que o Clemente é a pimenta dos Mendes.
- E o Mendes é a segunda perna do saci dos Clementes.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Moinhos de vento

Agradecimento a Miguel de Cervantes

Desocupado leitor: podes crer, sem juramento, que eu gostaria que este blog, como filho da inteligência, fosse o mais formoso, o mais galhardo e o mais arguto que se pudesse imaginar. Mas não consegui contrariar a ordem da natureza, em que cada coisa gera seu semelhante. ["Do limoeiro só nascem limões", não me esquecerei nunca]. Então o que poderia criar meu árido e mal cultivado engenho a não ser a história de um filho seco, murcho, caprichoso e cheio de pensamentos desencontrados que não passaram pela imaginação de nenhum outro, exatamente como alguém que foi concebido num cárcere, onde todo incômodo tem seu assento e onde toda triste discórdia faz sua moradia? [No fundo, meus pensamentos originais são compilações e ruminações de tantos que me antecederam e que, a gosto ou contragosto, me modelam dia após dia]. O sossego, o lugar agradável, a amenidade dos campos, a placidez dos céus, o murmúrio das fontes e a tranquilidade do espírito são de grande ajuda para que as musas mais estéreis se mostrem fecundas e ofereçam ao mundo partos que o encham de maravilha e alegria. [Por isso estou nas sombras, na doce tranquilidade que os anônimos gozam e também os gatos, que, à noite, saem silenciosos em busca da lua que lhes pinte a silhueta.]

domingo, 27 de janeiro de 2013

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Receita

sabem de que somos feitos
de nossos pensamentos clementes
de nossas virtudes
de nossos muitos defeitos clementes,
mas não nos entendem

de que adianta os ingredientes
se não se sabe misturá-los?
não há palmo de mão que nos meça.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Do boi

na dúvida, mastigue
mastigue
mastigue
pare
mastigue
observe os arredores
rumine

se necessário, coloque para fora
observe a massa amorfa
cheire-a
toque-a
sinta de que são feitas suas ideias

volte a mastigar
denteie
salive
mastigue
engula

em breve, tudo será apenas um monte.
de ideias, de passado, de moscas.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...