sábado, 30 de maio de 2009

Festa de Pentecostes

Carissimos fieis – Não posso ocultar as vivas emoções de minh’ alma no momento de subir a esta tribuna sagrada, para dirigir-vos, pela primeira vez, a minha modesta palavra. Foi com júbilo e desvanecimento que accedi a gentileza de um convite, para auxiliar na presente festividade, que vindes comemorando com tanto aparato, cheios de recolhimento e fervor: prelibei a ventura de poder testemunhar – de viso – o espírito profundamente religioso e edificante, com que sabeis desempenhar-vos dos compromissos religiosos, na rememoração dos mais profundos dogmas e impenetráveis mistérios da S. Igreja.


As palavras acima foram proferidas em 30 de maio de 1909, em Monte-Santo/MG, pelo Cônego Belchior Mendes de Cerqueira, abrindo o Sermão pela Festa de Pentecostes. Hoje, 100 anos depois, véspera do domingo de Pentecostes, as vivas emoções são vivas palavras.


A ele, Cônego Belchior, meu tio-avô, a quem eu chamo carinhosamente de "O descobridor", minha pequena homenagem.

Sed, quae stulta sunt mundi, elegit Deus, ut confundat sapientes, et infirma mundi elegit Deus, ut confundat fortia. (1 Cor 1:27)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Resta 1

Quem antes vive só do que mal acompanhado não conhece a solidão.
No deserto de cada um, miragens e pegadas andam aos pares.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Artesão

Com uma pedra, Pedro edificou uma igreja, Davi findou Golias.
De uma pedra, Drummond retirou poesia, Michelangelo colheu Davi.

Com uma palavra, o Nazareno inutilizou inúmeras pedras.
Com uma palavra, os tolos fazem calos, os miseráveis quebram os dentes.

As palavras não são pedras. São de pedra.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

domingo, 3 de maio de 2009

Ausência de palavras

O que escrever quando não se tem o que dizer?
[...]
Descansai, palavras, da árdua construção.
Não há pujança, somente a ausência a ruflar asas pelo teto.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A dor da Informação

- Por que saltas, Karina?
- Por que não o faria, Anjo da Morte?
- As palavras que te ferem são as mesmas que te dão vida.
- Tu conheces a Morte, não a Sabedoria. Faze teu trabalho: recolhe as palavras sem futuro.

domingo, 19 de abril de 2009

Etiqueta

Todo homem tem seu preço. Poucos têm valor.
O preço é medido em moeda; o valor, em horas.
Mais vale a mais-valia ou a dúvida é uma questão de etiqueta?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Gato-guará

"Outrora havia o ‘juiz ladrão’. E hoje?”

Essa dúvida atroz percorria a crônica de Nelson Rodrigues em 1955, quando apenas sonhávamos com o primeiro título mundial e tínhamos pesadelos terríveis com a prata do Prata. De lá para cá e por todas as bocas se ouve que o futebol mudou, o que é um fato, assim como os jogadores mudaram, a torcida mudou, até a bola mudou. E os juízes? Metamorfosearam-se em árbitros, carregando consigo os bandeirinhas, agora sobreditos assistentes.

Além disso, inserimos o politicamente correto. Adeus, ladrões! Vigaristas, patifes, canalhas, nunca mais! Qualquer desvio linguístico se cifra em perdas e danos morais. Pobre do alface! Além de mudar de gênero, que é a único desvio de conduta que o mundo do futebol aceita, perdeu o QI.

Se ainda houvesse um patife, um mísero canalha no apito, o jogo do Galo com o Guaratinguetá seria resenhado em poucas linhas. Como não há, serão necessárias mais do que quatro linhas para narrar aquele fraco jogo de bola. Melhor que uma crônica seria um B.O.

Não fosse o gato-guará, felino bufão que resolveu dar a graça pelo gramado e entreter o público, seria difícil dizer que o jogo foi uma barafunda circense. O gatuno valente roubou a cena com seus malabarismos e pirilampos, não devolvendo a cena roubada nem após o apito final do árbitro. A unanimidade entre público e crítica traria o burro, mas como a respeitável senhora não apareceu, confirmou-se a felinidade do guará.

Quanto ao jogo, foi uma partida de uma nota só: dó. O sol brilhou rapidamente no segundo gol do Galo, com Tardelli mostrando o que faz um centroavante: técnica, posicionamento e muita sorte. O restante foi um grande balaio de gato-guará.

Apesar do modesto desempenho, logo o felino será visto em novos picadeiros, porque, no futebol, gatuno que não mia mama.

sábado, 11 de abril de 2009

Rutaceae

Para minha amiga Neide Freitas

No pequeno sítio em que trabalho, cultivo limoeiros. Produzem durante todo o ano, em alguns meses com mais produtividade, outros com menos, resultado da conjunção do sol com a chuva, do vento com a geada, do húmus do agricultor com o humor das minhocas (ou vice-versa).
Consumidores mais rotos confundem-se pelos frutos: veem os rotáceos, obra do Criador, onde há apenas rutáceos, substância de família. Por acaso se colhem uvas de espinheiros ou figos de urtigas?

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Entrelinhas

As palavras não respiram sós: no silêncio lácteo do papel, carregam consigo os interstícios da existência.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Corolário

Quando Dona Amélia me deu um terço, eu possuía um meio, era um sexto, nem vislumbrava um quarto. Escorreu-me pelos dedos meu meio, o quarto por quarto se multiplicou, o sexto sestro se fez cestro, apenas o terço se manteve trino, nas contas inumeráveis de meu fracionamento.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...