quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Cuscos

Na foto que deveria estar aqui, não há tristeza. Três pessoas se confraternizam erguendo taças imaginárias com seus pés coloridamente fantasiados. Brindam àquele momento fugaz, fugidio na memória, fulgurante na lembrança, uma festa que testa o que nos resta de uma antiga Floresta.
Na foto que deve estar aqui, não há melancolia. Três tênis tecem trocadilhos e troçam times triviais, tateiam o tempo com troféus, trombetas, trupicãos, tapas e o tropel da trupe.
Na foto que deverá estar aqui, só haverá alegria. Só Cuscos.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O grande baile

Realizou-se no domingo passado em casa do nosso amigo Major Belchior Mendes Ribeiro o baile que ao bello sexo offereceu a rapaziada chic da terra.
Nada faltou para realçar o brilho dessa festa que correu animada e com enthusiasmo sempre crescente: – flores, confetti, bisnagas, ditos de espirito e a mais franca cordialidade. A satisfação era geral e por todos os lados só se ouviam elogios ao baile.
Toda a gente achava na festa um grand encanto, um prazer extraordinario.
E, de facto, quem a observasse, veria que alli reinava a mais franca alegria, uma alegria que era o maior brilho, o maior deslumbramento d’aquella festa que só terminou aos primeiros clarões do dia.
As 11 horas da noite, quando lá chegamos, o baile estava em pleno explendor.
Pelo salão primorosamente decorado com flores naturaes, bandeirolas e serpentinas se crusavam no rodopiar das valsas para mais de trinta pares.
A confusão era geral.
A maioria dos cavalheiros estava em vêstuário de rigor e as senhoritas trajavam custosas e elegantes toilletes.
Como a festa era em domingo de carnaval alguns de nossos rapazes, que primam pelo gosto e pela elegancia, deixaram de parte a etiqueta e lá se apresentaram fantasiados.
Foi esta, sem duvida, a nota hilariante da noite.
Um verdadeiro successo.
Não foi sem grande difficuldade que conseguimos conhecer alguns desses mascarados.
[...]
O Lulú trajava rico dominó de seda preta, todo enfeitado de cartas e sellos do correio, tendo em uma das mãos um grande sinête, distinctivos esse de seu emprego. Estava mesmo a caracter.
Durante o tempo que estivemos no salão, o nosso Lulú esteve silencioso e cabisbaixo. Naturalmente o nosso agente do correio sentia-se envergonhado por ser o vovô daquella rapaziada.
E tinha bem razão: trinta e cinco Janeiros não são brincadeira.
[...]
O nosso Totonho do Belchior deixou de parte o seu ar grave e circunspecto e metteu-se também na troça. Lá estava elle com o deu dominó todo feito de retalhos de fazendas, e bonito que era um gosto. O rapaz é perito na arte de cortar e costurar.
Trazia no pescoço uma medida de alfaiate e nas mãos uma grande thesoura, emblemas de seu oficio. O Totonho (sempre o do Belchior para não se confundir com outro qualquer, visto haver muitos homonymos na terra) mesmo na hora do folguedo quis mostrar que é um rapaz serio e trabalhador. O rico dominó que vestia, foi por elle feito em suas officinas.
Como aquelles pedacinhos de panno estavam pregados com gosto e symetria!
Eis porque não faltam candidatas á sua mão de esposo. Nestes tempos de preguiça, possuir-se um maridinho que sabe costurar com perfeição, é manná cahido do céu.
O Dondico, commandante em chefe dos rapazes, não teve para historias e apresenttou-se com a cara que Deus lhe deu, aliás bem bonitinha e sympathica. Vestia uniforme de militar tendo nos braços e na golla da farda as insignias de General. Do peito pendiam diversas medalhas condecorativas, conquistadas por actos de bravura em combates de amor. Affirmam os seus subordinados (e a cidade está toda cheia) que em certo combate fraqueou e cahiu mortalmente ferido: d’ahi talvez o motivo de sua gravidade e circunspecção.
Quando já se é meio bilhete corrido não se tem graça mais para cousa alguma, mormente estando a pequena ao lado fiscalisando os nossos actos e movimentos.
É mesmo um inferno.
Quando se está nesses assedios só há um remedio, e esse de cura infallivel: – banhos de Egreja.
O Vigario e o Carmello afflictos andam por isso.
Experimenta, Dondico, e depois me dirás se berimbáu é gaita.
[...]

Jornal A Propaganda, anno II, n.34, Itapecerica, 17 de fevereiro de 1907. p.1-2.
Material gentilmente cedido pelo Chico Bacalhau.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Lobo Tao

Agradecimento a Roberto e Sideral
Eu estou sempre por aí a rodar
Eu busco letras em qualquer lugar
E quando estou andando e não tenho aonde ir
Fico até na dúvida se é hora de mentir

Às vezes grafo mal,
Garatuja natural,
eu sou o Tao, tao, tao, tao, tao.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Legado

A arte de furtar mentiras.
A arte de amar palavras.
A arte de escrever mulheres.
O legado de família é a ciência que os verbos são irmãos.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Pena Branca

O cuitelinho chegou aonde as onda se espaia
É a hora da bataia
O coração faia, os oio se enche d’água

O voo solo encontrou a passarada
Na melodia que a paz espraia.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Uso e desuso

A sinceridade é tão valiosa quanto os amigos. Use-a para eles.
Aos outros, fique à vontade.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

34

É Clemente porque não se mistura.
É Mendes porque mistura.
É branco porque reflete, é preto porque absorve.
O equilíbrio está no caos.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Resenha

Manhã de segunda na Cidade do Galo. O sol, desperto pela sinfonia inconfundível do galinheiro, se alonga para iniciar a aquentação do dia na busca incansável de alguma novidade sobre a terra. A porta se abre e Dona Quiméria, com o pé direito encontrando o quintal, faz o nome do Pai, beija a mão e convoca os tenores com um chamado: “Galo!”. O que era sinfonia vira charanga, numa festa e numa alegria dignas de final de campeonato, com direito a repiques, ruflar de asas e batucada de pés e bicos.
– Brigada, meus menino! – agradece Dona Quiméria ao término da folia.
Com a xícara de café na mão e atentamente observada pelo Chicão, Dona Quiméria se dirige a seus “meninos” e começa a resenha de todo pós-jogo. O primeiro a receber os dois punhados (de ração e de orientação) é o galo de nome “Nº.1”:
– Meu fio, ocê tava nervoso ontem? Tinha hora que ocê parecia tá enroscado numas teia de aranha, tinha hora que ocê parecia a própria aranha de tanto reflexo e precisão. Fica tranquilo. Faz o que ocê sabe e tudo vai dá certo.
O galo olha atentamente para Dona Quiméria.
– Eu sei que ocê fala pouco, é meio tímido, mas isso num é pobrema. Aos poucos, as coisas vão se acertar.
Acaricia o galo e parte para os próximos, despejando a lição.
– Ocês precisa treiná mais. Tão batendo cabeça de mais e isso pode complicá a gente mais pra frente. Se ocês tiver mais seguro, o Nº.1 vai ficá mais tranquilo. E ocê, Gringo, parabéns! Gostei muito da sua estreia, muita tranquilidade e pouca botina. Se continuá assim, vou batizar ocê.
Um pouco mais à frente, Dona Quiméria para e observa um galo que cisca.
– Ocê tá ciscando de lado, Ricardinho! Num pode ser assim, meu fio! Num é atoa que bico de galo tem formato de frecha: é pra apontá pra que lado nós temo que ir. Pra frente! Sempre pra frente!
Joga a ração e prossegue:
– Ocês outro que tavam do lado dele têm que prestá atenção e ficá mió posicionado pra facilitar a coisa pros menino da frente. Ocê, Carioca, tá muito butineiro. Cada ciscada é uma minhoca. Fica frio.
Voltando a falar para aqueles quatro:
– Óia aqui, deixa eu mostrar pr’ocês. Cês tão vendo o Tardelli lá na frente? Vê bem a posição dele e observa a vasilha d’água.
Dona Quiméria assovia e o Tardelli olha para ela.
– Cês tão vendo esse mio? Finge que é a bola. É assim que ocês tem que fazê. – e lança o milho na direção da vasilha d’água. Tardelli, na corrida, salta e engole o milho antes que caísse na água.
– Tão vendo? Se fizê assim, tá no papo. Num tem erro.
Aproxima-se do Tardelli e afaga-lhe a cabeça, distribuindo uma quantidade generosa de ração.
– Meu fio, ontem num foi muito fácil, mas num esquenta a pioeinta não. Quando a bola começá a chegar mais vezes e com mais qualidade, o caminho do gol vai se abrir. Pode preparar as bala porque daqui a pouco a metralhadora tá de volta.
Enquanto o Tardelli come, vira para o galo que estava próximo dele.
– Ocê jogou bem ontem, meu fio! Gostei de ver. Ocê é novo na casa, mas já vi que é mió que seu antecessor. O que foi embora era bão, mas, como diz meu afiado, só tinha dois neurônio. – rindo sozinha. Se ele tivesse mais, tava na seleção. É um menino bão, mas parecia que num queria ficar no nosso time... Pega o galo no colo e cochicha no ouvido dele:
– Ocê é o galo do caneco, mas num conta pra ninguém.
Com a resenha concluída e o sol clareando o quintal, Dona Quiméria entra em casa acompanhada do Chicão e se assenta para telefonar.
– Vou ligar pro seu padrinho, Chicão.
O cachorro late e pula de satisfação, sobe em Dona Quiméria e lambe-lhe o rosto.
– Tá certo, tá certo. Eu deixo ocê falar com ele.
No velho telefone de disco, negro como a noite, com números alvos como leite:
– Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
– Para sempre seja louvado. – responde uma voz masculina do outro lado.
– Roberto, meu fio, saudade d’ocê! O campeonato começou ontem...
Mais uma vez, todos os atleticanos se unem, de todos os cantos do mundo, do além e do aquém, para mais uma batalha que se inicia. No horizonte, há um novo varal.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Irroyal

Só uma publicação ficciosa apresentaria uma descendente dos Orleans e Bragança como princesa.
Só uma publicação faburlosa apresentaria uma coleção vitrífica como realesca.
Só um público faceiro impercebe que a poeira da princesa é similar ao pó de ouro da coleção.

sábado, 16 de janeiro de 2010

O Engenhoso

Meu avô não gostava de adjetivos.
Pai, esposo, avô e cruzeirense bastavam.
Para os Clemente, "clemente" nunca será adjetivo.

Meu avô gostava de verbos. Nada de frase longas.
Pelo gosto do verbos, ele nunca estará morto.

Trinta e três aniversários sem "O Engenhoso" Luiz Clemente, a quem eu chamo carinhosamente de avô. Anarquismo sim, anarquista jamais.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...