quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Foto

Vês nas fotos um rosto inexistente
Esquecimento sob forma de avivamento.
As carnes, os ossos comidos pelas certezas desesperam a beleza
                                                                                    [simulada.
Que significados dará a vida aos horizonts que esquecemos?

Vera Casa Nova

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Exatidão

A palavra associa o traço visível à coisa invisível, à coisa ausente, à coisa desejada ou temida, como uma frágil passarela improvisada sobre o abismo.
Italo Calvino

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Aquieta, cambada!

Quando, então, trouxeram reunidos todos os animais, estavam ajuntando a cavalhada. Regulava subida amanhã, orçado o sol, e eles redondeavam no aprazível - tropilha grande, pondo poeira, dado o alvoroço de muitos cascos. Fiz um rebuliz? Dou confesso o que foi: era de mim que eles estavam espantados. Aí porque a cavalaria me viu chegar, e se estrepoliu. O que é que cavalo sabe? Uns deles rinchavam de medo; cavalo sempre relincha exagerado. Ardido aquele nitrinte riso fininho, e, como não podiam se escapulir para longe, que uns suavam, e já escumavam e retremiam, que com as orêlhas apontavam. Assim ficaram, mas murchando e obedecendo, quando, com uma raiva tão repentina, eu pulei para o meio deles: - "Barzabú! Aquieta, cambada!" - que eu gritei. Me avaliaram. Mesmo pus a mão no lombo dum, que emagreceu à vista, encurtando e baixando a cabeça, arrufava a crina, conforme terminou o bufo de bufôr.
Notei que os companheiros reparavam a estranhez daquilo, dos cavalos e as minhas maneiras. Só que se riam, formados no costume de jagunços, que é de frouxas essas leviandades. - "Barzabú!" - ô gente!, feito fosse minha certeza, o Das-Trevas. E eu parava, rente, no meio de todos, que de volta aceitavam minha presença, esses cavalos.
João Guimarães Rosa

domingo, 28 de agosto de 2011

O peso do amor

O corpo, devido ao peso, tende para o lugar que lhe é próprio, porque o peso não tende só para baixo, mas também para o lugar que lhe é próprio. Assim o fogo encaminha-se para cima, e a pedra para baixo. Movem-se segundo o seu peso. Dirigem-se para o lugar que lhes compete. O azeite derramado sobre a água aflora à superfície; a água vertida sobre o azeite submerge-se debaixo deste: movem-se segundo o seu peso e dirigem-se para o lugar que lhes compete. As coisas que não estão no próprio lugar agitam-se, mas, quando o encontram, ordenam-se e repousam.
Santo Agostinho

sábado, 27 de agosto de 2011

O tempo e o espírito

Mas como diminui ou se consome o futuro, se ainda não existe? Ou como cresce o pretérito, que já não existe, a não ser pelo motivo de três coisas se nos depararem no espírito onde isto se realiza: expectação, atenção e memória? Aquilo que o espírito espera passa através do domínio da atenção para o domínio da memória.
Santo Agostinho

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O que é o tempo?

De que modo existem aqueles dois tempos - o passado e o futuro -, se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, já não seria tempo, mas eternidade. Mas se o presente, para ser tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito, como podemos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir?
Santo Agostinho

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O saci

para quem tem uma só perna
e corre pelo frio uivo da mata,
é crendice acreditar que mais será melhor.

sábado, 13 de agosto de 2011

Ilusão

Mas, então, tudo naquela parte dos Gerais era ilusão de haver e não se saber. O mundo ali tinha de ser de se recomeçar...
João Guimarães Rosa

domingo, 31 de julho de 2011

A década

Hoje, cheguei às últimas linhas de Walden, de Thoreau. Foi uma leitura longa, que nem de perto se compara aos dois anos de vivência no e de convivência do autor com o lago, mas a sensação do passar das estações é inequívoca.
Hoje, 10 anos do Caneteiro. É uma data importante para os Bucaneiros, porque nós somos o prolongamento de nossos parentes, que muitas vezes, erroneamente, são vistos como antepassados. Erroneamente porque os laços consaguíneos não passam, são presentes, metamorfoseados em nomes distintos, em ações idênticas.
Em 2001, "eu não quis pegar uma cabine de primeira classe sob o tombadilho, mas viajar de segunda, na frente do mastro e no convés do mundo, pois dali podia enxergar melhor o luar entre as montanhas. Não pretendo descer agora."
Em 2011, "o que mais temo é que minha expressão não seja extra-vagante o suficiente, que não possa vaguear muito além dos limites estreitos de minha experiência diária para se adequar à verdade da qual estou convencido."

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Lázaro

- Alô, Lázaro? Oh, meu fio, saudade d'ocê! Comé que as coisa anda por aí?
As coisas tão brava aqui, meu fio, ocê nem imagina. O Grorioso continua, ocê me disculpa o termo, "cagado de arara". Virgi Mãe! Nada que o Lorival faz tá dando certo: já tentou de tudo e nada funciona. Dispois que o Magnata esbanjou o campeonato rural ao perder aquele gol, o do caneco, as coisa ficaram fusca. As pessoas fala que era o Magnata, o Fábio e o gol naquele lance do segundo jogo da final, mas é mintira. Era o Magnata, o Fábio, o gol, a bola (que é a dona do jogo) e a turcida inteira do Galo. Ele num pudia tê perdido. O Chicão, quando o Magnata perdeu a bola, avançou no pé do móve da televisão de tanta raiva: quase que ele deixa manco o pobre coitado do armário.
Aí nós começamo bem o campeonato, com duas vitória boa, achando que o vento soprava a nosso favor. Bubiça! Dispois do jogo contra o Bahia, tudo desandô. Achei até que fosse praga de urubu, mas discobri que é ruindade memo. É como o Caneteiro fala: é um monte de moeda pequena, faz volume, causa impacto nos óio e nos ouvido, mas não tem valor. Eta, meu Deus!
O Lorival tá meio perdido, mas ele é um home esperto. Tratô de trazê uma cópia do cabelo do Neymar pra espantá a zica que ficô com ele no ano passado: como o André num é o Neymar e o Santos não é o Galo, nessa ordem, vai sê fácil afastá essa inguiça.
- ...
- Comé que é? Dorival? Não, meu filho, é Lorival memo. É porque ele tem um nariz grande, parece um bico de papagaio, aí o Chicão apilidô ele de Lorival. E como de ave nós entendemo tudo, nós batizamo ele de Lorival. Cê pode ter certeza que as coisa vão melhorá dispois que desse batismo oficial.
Lázaro, meu fio, tô ligando pr'ocê pra pedir uma ajuda pro Grorioso. Ocê que já teve do outro lado e voltô, consiguiu levantá dispois de todo mundo tê falado que ocê tava morto, dá uns conselhos pro Lorival e pros jogadô pra eles se levantá tamém. Tem muita gente caída, tem até um que tá cunhecido como Já-morreu, e é hora de levantá.
Em 2009, meu fio, nós ressuscitamo o Fluminense. Ele tava praticamente sem respirar, moribundo, e, dispois de vencê o Galo, ele embalô e se salvô da degola. Em 2010, eu queria tê ligado pr'ocê pra pidi essa ajuda, justamente na véspera do jogo contra o Fluminense, mas num consigui completá a ligação. O Luxa tava com a faca no pescoço e acabô rolando a cabeça dele memo, dispois daquele vexame no Engenhão.
Agora, Lázaro, tô esperando que o Galo comece a se levantá hoje, vencendo o tricolor do Nelson e se afastando da zona do desespero. Lá embaixo, meu fio, é só choro e rangê de dentes... Credo em cruz!
- ...
- Ô, meu fio, agradicida dimais. Ocê num sabe o bem que ocê tá fazendo pros preto e pros branco, pra esse povo todo arreunido em torno dessa bandeira. O Lorival hoje vai consigui. Tá iscutando o Chicão lati? Ele tamém tá agradecendo do fundo do coraçãozinho dele.
Aproveitano, meu fio, qu'eu já tô na linha, deixa eu falá cum o Roberto. Tô cum saudade desse minino...

domingo, 24 de julho de 2011

Back to black

Para Amy Winehouse
em trôpegas palavras
o voo de uma voz
uma vida sem limites
que se descobre limitada.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...