domingo, 16 de novembro de 2008

Preço

Na Matemática, há um paradigma que afirma que “a ordem dos fatores não altera o produto”. Na multiplicação, por exemplo, não importa quem leva o nome de multiplicador ou de multiplicando para o resultado final, sobredito produto. Nesse caso específico, se o sujeito é agente (multiplicador) ou paciente (multiplicando), não haverá diferença no frigidar dos ovos.

Esse postulado não se adapta integralmente à língua portuguesa, o que por si só já é um demonstrativo de que as Letras não são uma ciência matemática, ainda que algumas vezes possa ser “financeira”, assim como a crise que se ergueu no mar de especulação. Explico. Existe uma lógica financeira, uma teoria econômica, que define como deveria ser e se comportar o que se chama de mercado, mas o mercado não se preocupa muito com esses preceitos. A língua portuguesa também possui uma teoria, que não podemos chamar de lógica, um exoesqueleto a que chamamos de gramática, que deveria definir como ser e como se comportar o que se chama de mercado, mas esse mercado não está, geralmente, preocupado muito com a teoria. “A gente usamos a língua e isso basta.”

Retomando os fatores e o produto, em língua portuguesa, a construção frasal segue o paradigma sujeito, verbo e objeto, ou, em miúdos, “Vovó viu a uva”. Nomeando os fatores, “Vovó” é o sujeito, “viu”, o verbo, “a uva”, o objeto. Poderíamos também construir “A uva, viu vovó” ou “Viu vovó a uva”, sem que houvesse (total) comprometimento da compreensão da frase. Acontece, porém, que em outras construções frasais o mesmo não aconteceria em virtude das características semânticas do multiplicando e do multiplicador. Assim, em “Vovó viu a vaca”, a ordem dos fatores alteraria o produto, uma vez “A vaca viu vovó” criaria um novo sentido à construção frasal. O sujeito “vedor” se torna objeto visto na troca de posições.

Isso posto, viu-se que a língua portuguesa pode ou não ser matemática, o que permite afirmar, sem dúvidas, aos mais incautos, que ela não é Exata. Considerações iniciais feitas, passemos à análise de uma construção que tem atacado nossos olhos constantemente, não perdoando inclusive nossos ouvidos: “Preço é tudo e preço só o Manuel da Venda tem.”

O Seu Manuel da Venda é uma boa pessoa, o boteco tem cerveja gelada e tira-gosto de qualidade, além de horário de funcionamento estendido, mas tudo isso outros botecos têm, não é exclusividade dele. O que faz a diferença do boteco do Manuel é o slogan: “Preço é tudo e preço só o Manuel da Venda tem.”, que está carregado de produtos.

Comecemos por “Preço é tudo” e usemos o paradigma da ordem dos fatores, “Tudo é preço.” Nada mais atual e capitalístico do que a confirmação do caráter mercantil de tudo, pois se pressupõe que se há preço, é porque está à venda. O que é esse tudo se não o simulacro de uma massa amorfa e pseudo-homogeneizada que chamamos de mercado, que, no fundo, somos nós mesmos. A cada um cabe uma etiqueta e a dúvida que paira no ar é se há etiqueta para se possuir etiqueta.

Na seqüência coordenada aditiva, mudemos “Preço só o Manuel da Venda tem” para “O Manuel da Venda só tem preço”. Nada mais. Na venda do Manuel, não espere atendimento de qualidade, atenção, conforto, conhecimento: só preço. Em tempos de encantamento do cliente, o Manuel da Venda, apenas com a inversão da frase, consegue dizer exatamente o que é e o que pretende, com incrível sinceridade, e se manter na crista da onda do mercado, mesmo que esse mar seja de especulação. Isso só reafirma a máxima de “preço ser tudo” e demonstra que talvez seja melhor conhecer um pouco mais da língua e um pouco menos da etiqueta.

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