domingo, 21 de dezembro de 2008

Carta ao Presidente

Este texto é um tributo à memória do Padre Dulinho, a quem eu chamo de "O semeador". Trinta anos após seu falecimento (21/12/1978), suas palavras continuam germinando.
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Ao Excelentíssimo Presidente da República,
Sr. Luiz Inácio Lula da Silva.

Prezado Lula,

O protocolo oficial impõe que Vossa Excelência seja assim tratada, com esse pronome de tratamento, mas em virtude de se tratar de uma carta (e-mail) de um civil, sem ligações partidárias, sem interesses financeiros e sem representação de terceiros para a redação deste texto, dirigir-me-ei a Vossa Excelência por Sr. Presidente.

A situação de Santa Catarina, decorrente das sucessivas chuvas que caem sobre aquele Estado, tem causado comoção nacional e manifestações de solidariedade têm surgido de todos os cantos do país, afirmando um sentimento de nação tantas vezes esquecido. As liberações de verba, sua presença, Sr. Presidente, na área atingida e a manifestação internacional de apoio contribuem, de modo inequívoco, para que os catarinenses se sintam amparados e tenham força para buscar a reconstrução dessa parte da federação.

Seu governo, Sr. Presidente, tem-se pautado pela busca de um equilíbrio social, o que se vê claramente na política de distribuição de renda e em ganhos que as classes historicamente menos privilegiadas têm alcançado nos últimos sete anos. Na convergência entre essa busca de equilíbrio e os excessos pluviais de Santa Catarina, encontra-se a justificativa desta carta. Para alguns, mais céticos, será obra de ficção científica ou mesmo insanidade. Da minha parte, apenas uma proposta para análise de viabilidade e pertinência.

Um dos grandes problemas deste país é a desigual distribuição, cabendo aqui muitos complementos para essa expressão: “desigual distribuição” de renda, de escolaridade, de terras, de ocupação territorial, de indústrias, de universidades e tantos outros que poderiam ser citados. Uma grave desigualdade, histórica, que vigora há séculos, é a situação do Nordeste brasileiro.

Sr. Presidente, como filho daquela terra nordestina e desta terra brasileira, o senhor bem sabe que desigualdade é essa a que me refiro. A transposição do Rio São Francisco é uma peça desse intrincado quebra-cabeça e bem poderia ser uma solução para parte dessa “Questão Nordeste”. Pessoalmente, já ouvi tantas e tão divergentes opiniões sobre essa transposição que não possuo uma opinião formada a respeito, considerando apenas impensável a possibilidade de resolver uma discussão nacional com uma greve de fome.

Isso posto, Sr. Presidente, reúno os dois assuntos tratados de maneira (quase) independente até aqui apara uni-los em um mesmo propósito: “a construção de uma grande rede de aquedutos”. Se o país possuísse uma “teia” de aquedutos, que pudesse deslocar consideráveis volumes de água de um ponto a outro do território nacional, poderíamos transformar lágrimas em desenvolvimento.

A estrutura consistiria em grandes reservatórios construídos em pontos estratégicos, como a foz de um rio, por exemplo, e interligados entre si e a usinas e outros pontos de recebimento por dutos subterrâneos, que permitissem que o movimento das águas fosse direcionado de acordo com a necessidade e/ou o interesse do país.

Com uma rede de aquedutos espalhada pelo país, poderíamos, por exemplo, “orientar” o curso das águas para o Nordeste, sem precisar “tocar” o Rio São Francisco, permitindo que áreas castigadas pela seca fossem irrigadas e se consolidassem como regiões de cultivos diversos. Considerando o quadro atual, deslocaríamos parte do excesso de água de Santa Catarina para outros pontos do território, enchendo reservatórios, represas e possibilitando que as usinas hidrelétricas produzissem energia limpa para o Brasil.

Uma obra como essa, é evidente, tenho ciência disto, necessitaria de inúmeros estudos e estaria associada a números que apontariam ou não a viabilidade de execução. Iniciando pelos estudos de topografia, essa obra envolveria milhares de profissionais das mais variadas áreas, desde profissionais graduados (engenheiros, geógrafos, economistas, ambientalistas, químicos, entre outros) até aqueles relacionados à execução dos trabalhos (pedreiros, soldadores, técnicos, entre outros). Uma obra desse porte, se viável, poderia ser atendida pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e seria um marco na história brasileira, assim como foram a auto-suficiência de petróleo e a descoberta da camada pré-sal.

O Brasil já possui, em seu território, o maior aqüífero subterrâneo de água doce do mundo, o Aqüífero Guarani, e poderia desenvolver essa “Teia Azul” (nome simbólico) de maneira semelhante: uma grande rede aqüífera pelo território nacional que promovesse desenvolvimento, trabalho e esperança para todos os brasileiros.

Possuímos tecnologia de ponta em várias áreas e assistimos, dia-a-dia, à construção de oleodutos, gasodutos e outros similares que cortam nosso país e também nossas fronteiras, abrindo o caminho de divisas e construindo, com sólidos pilares, o que um dia já foi apenas sonho.

Com essa “Teia Azul”, munida de estações de tratamento de água em cada ponto de coleta e distribuição, poderíamos repensar o país no que se refere aos mananciais de água e, quem sabe, mostrar ao mundo uma ação eficaz e condizente com as questões contemporâneas, como aquecimento global, efeito estufa, escassez de água potável. As discussões ambientais apontam para a importância da água doce em um futuro próximo, considerando mesmo que, em alguns anos futuros, deixemos de ver a cotação do barril de petróleo para vermos a cotação do barril de água doce.

Dessa forma, Sr. Presidente, apresento minha idéia e espero que ela possa ser analisada pelo senhor, inicialmente, e por especialistas e técnicos em áreas correlatas ao assunto em questão. Se for viável, trará um benefício para o país e para a população de enormes proporções. Caso seja inviável, peço que considere minha intenção em ajudar e não o resultado obtido.

Encerro esta carta agradecendo sua atenção e afirmando, assim como fez meu primo Teodulo Mendes, padre e músico, na década de 1970, em carta ao Presidente Ernesto Geisel, que esta terra nos gerou; esta mesma terra nos acolherá na eternidade. Lutemos por ela em vida para que a tenhamos certa em nossa morte.

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