Para Edgar Alan Poe
Minha maldição foi ter nascido palhaço. Acaso fosse um domador de feras, o homem-bala, um triste elefante encantado por amendoins, ou mesmo um chimpanzé, acorrentado à imagem e semelhança de um escravo, não produziria estas letras. Não. Meu fardo é rolar, dia após dia, essa imensa rocha de lembranças rumo ao topo da ilusão.
Meu acerto foi, nesse palco etéreo, me apaixonar pela bailarina. Leve, flexível, sombrinha dos tempos em mãos e sorriso da paz em seus lábios. Não havia música na qual os pés curtos e precisos não modelassem uma coreografia almiscarada, lúdica, cativante. Ela me mostrou doçura para que eu aprendesse a lidar com a dureza, ouviu meus vícios e, serena, sorriu para que eu aprendesse a lidar com as lágrimas.
Não se sabe a exata medida de seu nome, ainda que seja a razão entre o que circula e o que corta.
Não se têm referências, nem ajudarão a primeira e terceira pessoas de qualquer tempo.
Não se proclama mais o delicado chuvisco de seu nome.
Não serão formas afetivas tampouco diminutas que reduzirão a lembrança de sua semeante alegria.
Eu bem me lembro disso...
A bailarina está morta. Não me importa que ela não dance mais diante de meus olhos, que não deslize, sombrinha em mãos, pelo picadeiro úmido de uma noite chuvosa, que retribua meu desejo com seus olhos infinitos. Eu a tenho comigo.
Eu falo com os mortos, eu invado sonhos, eu corro pelas sombras com as bestas, eu entendo a língua do silêncio, da distância e do tempo. Nenhum negro corvo voará em minha noite escura, nenhuma ave será o arauto de minha impossibilidade eterna, nenhum bico adunco ressoará “Nunca mais” em meu quarto nem rasgará meus umbrais. O grasnar demoníaco de seus olhos vazados e de seu voo nefasto não será o archote de meu devaneio. Não, não há criatura que crocite o amanhã. Eu sou o hoje.
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