- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
- Pra sempre seja louvado! Vamo entrá, meu fio!
- E o Chicão, Dona Quiméria?
- Tá ocupado, meu fio! Num esquenta a pioeinta não.
Atravessei o portão, o jardim e, entrando pela casa, fui encontrá-la na cozinha mexendo alguma coisa no fogão. Uma nuvem verde tomava conta da casa, e eu ouvia, ao longe, o rosnado certo do Chicão, porque o Luisinho não rosna e raramente late.
- Saudades da senhora! - e a abracei.
- Tamém, minino. Cê tá meio sumido?
- Muito trabalho, Dona Quiméria.
- Ocê precisa relaxá mais, meu fio, si não ocê "num vai guentá" - e riu de alegria.
- A senhora tem razão. - e sorri pra ela.
Corri os olhos pela cozinha e percebi que a fumaça tomava conta também dos outros cômodos e caminhava para o quintal.
- Que fumaceira é essa, Dona Quiméria?
- Tô fazendo um defumadô, meu fio. Tô pricisano espantá a zica.
- Mas esse cheiro é de...
- Boldo! Isso memo. Boldo!
- Defumador com boldo eu nunca vi, Dona Quiméria.
- Os meus minino tão numa ressaca braba. Vai lá no quintal pr'ocê dá uma olhada.
Caminhei mais uns passos e, ao chegar à porta que levava ao quintal, me deparei com os galos de Dona Quiméria espalhados pelo quintal. Todos deitados ou encostados em um vaso ou planta, com um olhar distante.
- Estão doentes? - perguntei eu.
- Qui doente o quê, meu fio! Isso é ressaca memo. Eles beberu uma das boas, sinão a mió que tá tendo. É a América e, desde intão, tão nessa ressaca da peste. Tô fazendo esse defumeiro pra espantá a zica e, com o caldo que sobrá, vô fazê uma poção pr'eles revigorá.
Nesse momento, apareceu o Luisinho e foi até Dona Quiméria, "disse" alguma coisa e recebeu um afago. Virou-se e se dirigiu à porta: o cão soltou um uivo bestial e apareceu no quintal já como Chicão.
- O que foi, Dona Quiméria?
- É o Chicão que tá dando uma dura nos galo. El's precisá tomá vergonha e voltá a fazê a coisa certa.
- E o Luisinho?
- O Luisim é um craque, com ele é só na categoria. Pra esses serviço "mais pesado", tem que sê o Chicão. - e riu.
O Chicão se aproximava de cada galo e rosnava, latia e batia a pata esquerda dianteira no chão.
- Eta, que esse minino tá nervoso hoje. - e o cão prosseguia dando "uma dura" nos galos. Alguns levantavam, esticavam as asas, ameaçavam um canto, ensaiavam mesmo algumas esporadas.
Dona Quiméria desligou o fogo e virou o conteúdo do caldeirão em um balde metálico, desses leiteiros. Foi até o quintal, recolheu algumas folhas de arruda e voltou à cozinha.
- Mi ajuda aqui, meu fio. Pega esse balde pra mim e vão lá no quintal. É bom qui ocê espanta sua zica tamém.
Peguei o balde e a segui. No quintal, o Chicão, ao ver nossa chegada, parou o que fazia e foi sentar ao lado de Dona Quiméria, já transmutado em Luisinho.
- Eh mininada! Vamu acordá. Tá na hora de nós voltá a fazê o que fazemu de mió. Cada um d'ocês vai vim aqui nesse balde e vai dá uma golada nessa poção. Hoje é a rodada de número 13, e 13 é Galo, e a partir de hoje pricisamu voltá a vencê. Cabô esse negócio de festança e galinhada, é hora de metê as espora di novo. Vamu lá!
Coloquei o balde no chão. Os galos, um por um, se aproximavam e bebericavam a poção. Alguns mais, outros menos, mas sempre com uma careta danada. Enquanto isso, Dona Quiméria batia as folhas de arruda na cabeça deles.
- Ocê, Guilérme, bebe mais. Ocê tá pricisando!
- Ronaldinho, ocê bebeu? Mintira. Ocê qué é mi enganá. Volta aqui e bebe direito.
O galo voltou, bebeu uma boa golada, recebeu o afago de Dona Quiméria e ouviu:
- Minino, si ocê quisé, tudo pode acontecê.
O galo sorriu timidamente e balançou a cabeça. Dona Quiméria tirou uma caneca de alumínio do bolso do vestido e mergulhou no balde.
- Toma, meu fio! Esse é o seu. Pode bebê.
Peguei a caneca, verifiquei se estava quente (o cheiro de boldo era insuportável) e virei em um só "tapa".
- Isso, meu fio. Agora as coisa vão virá. Pode esperá e acreditá.
- Eu acredito.
Ao ouvir minha resposta, todos os galos cantaram, Chicão latiu insistentemente e Dona Quiméria mostrou, pelos alvos dentes, o sorriso dos crédulos, pois os incrédulos não têm dentes.