segunda-feira, 28 de março de 2016

A maldição do frangolino

– Alô!? Alô!?
– ...
– Alô!? Roberto? É ocê, minino?
– ...
– Esse telefone tá uma porqueira, num tô ovindo direito...
– ...
– O Galo? Ah, minino! Num esquenta a pioeinta não. Isso é confusão de minino. O Uilson é um minino bão, só que ele num sabe que num pode sê muito bão pra jogá futibol. Ocê num vê o Luisinho e o Chicão? O Luisinho é muito bão, mas se num tivesse o Chicão, a coisa num andava. É assim memo.
– ...
– Ele tem cara de coroinha, de carregadô de batina, por isso que isso aconteceu, mas pode fica tranquilo que as coisa tão encaminhada. Daqui a pouco o Milagrero tá de volta, e nóis entramu no caminho certo...
– ...
– Tô preocupada é com esse minino frangolino que bateu asa onti. Mais uma vez é coisa de minino, que num sabe da vida e meteu us pé pel’s mão. Se ele fosse mais isperto, mais vivido, num teria batido asa. Agora, ele chamô a maldição do frangolino pra cima dele.
– ...
– Só com muita benzeção e abre-caminho ele vai tirá essa inhaca. Pode iscrevê!
–...
– Roberto, minino, iscuta o que que eu tô falando. É aconticido memo, ocê pode percurá sabê. Num sô eu que tô gorano o minino não, é a estória que num me deixa minti.
– ...
– Óia pro cê vê: ocê lembra de um tal de Paulinho Maqui, Masqui, Mascarem, Masquilarem... Num consigo falá o nome desse bem-aventurado. Foi com ele que começô a maldição do frangolino: ele fez um gol, bateu asa e a carreira dele num dislanchô. Tanté que muita gente nem lembra dele e si lembra é por causa das asa, futebol memo que é bom...
– ...
– Aí dispois foi a vez do Gradiadô: fez a mesma bubiça e... e? O que que foi que ele ganhô? Bem, di importante que eu lembro foi um cocão do Veron em 2009... Hahaha...
– ...
– ... Num arrumô mais nada, Roberto. Tá ganhano o dinheirinho dele, mas num belisca nada.
– ...
– Agora vem esse minino do tupete colorido e resorve batê asa. Eta bestage! Vai picisá de cumigo-ninguém-pode e muita oferenda pra disfazê essa inguiça.
– ...
– Alô!? Alô!?
– ...
– Alô!? Roberto? Ocê tá aí? Eta porquera dos inferno esse telefone. Caiu de novo.
Dona Quiméria colocou o fone no gancho, assoviou para os cães e se dirigiu à cozinha para passar um café. Sentou-se à mesa, cortou um pedaço de broa de milho, olhou para a porta da cozinha e viu todos os meninos lá fora:
– Mininada, o café só dispois da água fervê.
Luisinho deitou e abaixou as orelhas.
– Luisim, temo que sabê isperá. Ocê sabe que o Galo só canta na hora certa.
O cão respondeu mostrando os caninos brancos, e Dona Quiméria sorriu:
– Eta minino bão!

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