Para Karla Cipreste e Jean
Estamos próximos do final do mês de julho, primeiro sexto da
segunda metade do ano. As pessoas dizem que os dias passam mais rápidos a
partir de agosto, o que em mim, particularmente, suscita algumas dúvidas.
Quando estamos jovens e sempre correndo por alguma coisa (trabalho, estudo,
amor, dinheiro, bens), realmente o tempo se mostra mais rápido. Quando já
estamos velhos e sempre correndo de alguma coisa (dos remédios, dos médicos,
das limitações e, principalmente, da morte), o tempo se mostra sonolento e
cauteloso. É mais uma de tantas contradições da vida: na terceira idade, no
ciclo dos três pés (conhecido desde Édipo e a Esfinge), nossa velocidade se
esvai.
Como dizia, fim de julho. Tempo de reformas previdenciárias,
de passeata de prostitutas pelo Centro de Belo Horizonte (reivindicação pelo
direito ao livre trabalho), de escândalos no governo britânico e de rodadas
derradeiras do primeiro turno do Campeonato Brasileiro.
Ah, Brasileirão! Tá difícil! Não bastasse o galinheiro
desarrumado, a raposa ainda está com livre acesso pelo quintal. Anda pra lá,
anda pra cá, líder e absoluta, dona do pedaço. Do jeito que o vento sopra, a
raposa continuará na área por muito tempo. Não bastasse essa imunidade de ir e
vir, ela traz consigo um primeiro semestre recheado de petiscos. A situação não
está preta e branca!
Nesses momentos difíceis, procuro Dona Quiméria. Ela é a
orientadora dos futuros incertos, das pelejas e das pendengas imponderáveis,
das demandas, dos nós cegos e da agulha nos palheiros. Perceba, leitor, que é a
agulha nos palheiros, e não a agulha no palheiro. Dona Quiméria, por pouco,
seria a dos casos e das causa impossíveis, mas como ela mesma diz:
– Causas impossíveis é só com São Judas Tadeu, meu fio!
Como dona já indica, Quiméria é uma senhora de idade, com os
sessenta tendo sumido dos retrovisores há muito tempo. Ela não conta a idade,
mas a proximidade revelada ao falar de Kafunga, Zé do Monte, Mexicano ou Guará
sugere uma longevidade espetacular. Falar não significa conhecer, mas, de qualquer
maneira, a memória impressiona.
Mora sozinha em uma pequena casa no bairro da Lagoinha. Ou
melhor, sozinha não: com seu cão e seus galos. Galos índios, como ela gosta que sejam chamados. Cada animal tem o seu nome próprio, homenagem a um jogador
alvinegro. O cão se chama Chicão, mesmo nome do pai e também do avô. É a
terceira geração de Chicões na casa de Dona Quiméria e ela diz que, enquanto os
cachorros continuarem bravos e brigões, continuarão perpetuando o nome. Quantos
aos galos, que são em número de onze e não podem ser criados soltos por motivos
óbvios, não têm nomes de medíocres. “Perna de pau não bota nome nos meus
jogadores”, assim se referindo às suas aves.
– Dona Quiméria, do time atual, quem tem galo com a senhora?
– O Veloso tem.
– Só ele?
– O Guilherme tamém.
– Quem mais?
– Num tem ninguém mais.
– E o Marques? Não tá aí?
– Tava, mas quando ele foi embora, eu cuzinhei ele.
– A senhora teve coragem?
– Galo pra mim tem dois tipo: os atleticano e os outro.
Enquanto é atleticano e é bom de bola, fica comigo. Depois que vai embora, eu
boto na panela e arrumo outro.
Essa é a Dona Quiméria. Pois bem, fui até a sua casa saber
do segundo semestre alvinegro. Quando bati a campainha, o Chicão veio como uma
fera até o portão; faltava morder a grade e arrancá-la com os dentes. Pensei:
“Faz jus ao nome!” Dona Quiméria apareceu e, sorridente como sempre, abriu o
portão. Achei que o cachorro iria fugir ou pular em mim, mas a presença de Dona
Quiméria era um cartão vermelho para ele. Fez-se mudo. Acompanhava-nos aonde
íamos, mas não latia. Nesses momentos podíamos chamá-lo de Luisinho: tranquilo,
sem encenações e com a situação sob controle.
Conversamos um pouco sobre a vida, sobre sua saúde, sobre os
políticos e, claro, sobre o Galo. Perguntei:
– E nosso time, Dona Quiméria, como é que fica?
– Tá difíci!
– O que a senhora acha que acontece? E o caneco?
– O Caneco tá difíci! O que vai melhorá um pouco é o mês do
cachorro loco, que vai atravancá eles! Eu vi que o próximo mês vai segurá eles.
Nós tinha que aproveitá e aproximá.
Respirou e completou:
– O 7 e 8 vão botar o Galo no alto do puleiro. Cê vai vê!
Em 1977, Dona Quiméria tinha “visto” o Cerezo montado num
cometa, em cima do Mineirão. Até hoje, quando revejo o pênalti batido por ele,
me vem essa “visão” à mente.
– Mas eles serão campeões?
– Isso eu num vi ainda e espero num vê tamem.
– Mas se a senhora...
– Num esquenta a pioienta. Se ela aparecê, na hora eu fecho
os óio.
Conversamos mais um pouco e me despedi dela. Abracei-a e disse que voltaria em breve pra saber novidades. Ao atravessar o portão, o até então Luisinho voltou a ser Chicão. Enquanto caminhava até o carro, pensava comigo mesmo:
– Somos o 7º colocado e estamos no mês 7, faltando 8 dias
para o mês 8. Temos 8 vitórias, 7 empates e saldo de 7 gols.
É... não será por falta de números que deixarei de acreditar
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