sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Revolução de 1842: outra versão

Marcha da coluna de Lavras para a Oliveira, e desta vila sobre a do Tamanduá

O Movimento de 10 de Junho progredia, quase sem oposição, ao sul da Província, tendo-se por ele declarado em menos de 15 dias os Municípios de Queluz, Bonfim, Pomba, Barbacena, São José, São João del-Rei, Lavras, Aiuruoca, Baependi e Oliveira. O Município de Tamanduá era um dos que gemiam debaixo da maior opressão. O juiz de direito, cunhado do desembargador Honório, e o juiz municipal substituto, Francisco Soares, tinham ali desenvolvido a mais terrível perseguição. A cadeia estava atulhada de presos, uns comprometidos em fantásticos processos, outros, em virtude da suspensão de garantias, e muitos outros indivíduos, para escaparem aos horrores da perseguição, se haviam internado pelos sertões e pelas matas. Arrancar aquele importante município a tantos padecimentos era uma ação, além de importante e útil, assaz meritória; e a glória de a empreender coube aos valentes guardas nacionais do Município de Lavras e da Oliveira, especialmente aos dos curatos do Cláudio, Japão, Santo Antônio do Amparo e do curato de São Francisco, do mesmo Município de Tamanduá, e Bom Sucesso, do Município de São José, reunidos todos em uma coluna, que subia em número de praças a cerca de 600 homens, cuja direção foi incumbida ao Dr. José Jorge da Silva, que com tanta eficácia e zelo trabalhara na sustentação do Movimento de 10 de Junho, promovendo-o na Vila de Lavras e marchando, finalmente, à frente desses bravos que tomaram sobre si libertar o Município de Tamanduá do barbarismo que sobre ele pesava.

Nesta, como em outras muitas ocasiões, foi fatal aos insurgentes a falta de oficiais que os dirigissem. Fortes e numerosas colunas se reuniram, possuídas do melhor espírito, não lhes faltava boa vontade e coragem; dissolviam-se, porém, por não haver quem as dirigisse. Os legalistas de Tamanduá, advertidos da marcha da coluna insurgente, se vieram postar de emboscada a três léguas aquém da vila, em um lugar apropriado. Cometeram os oficiais a falta de não esperarem pela força, que marchava do Arraial de São Francisco, ao mando de Manuel Rodrigues de Andrade, homem prático dos lugares, e de se irem internando por uma mata, sem que tivessem tomado qualquer precaução, a fim de evitarem alguma surpresa que muito naturalmente deviam recear. Caíram, pois, na emboscada, e o fogo inesperado, feito sobre a vanguarda da coluna, pô-la imediatamente quase toda em debandada; uma parte dela fez corajosa resistência e conseguiu por fim que se retirassem os legalistas, de sorte que, ambas as partes combatentes debandaram-se depois dum tiroteio.

Se os insurgentes tivessem quem os conduzisse, se não fora a fatal moléstia do Dr. José Jorge, que o obrigara a ficar na Vila da Oliveira, a do Tamanduá houvera sido tomada, pois que, ali, uma grande parte da força, que sustentava a legalidade, aderia aos princípios dos insurgentes, e só esperava por um apoio para se declarar. Na Vila Nova da Formiga, pertencente também à Comarca do Rio Grande, existia, reunida pela legalidade, uma força, que disposta estava a reforçar as fileiras insurgentes desde o momento, em que se estes apresentassem fortificados na do Tamanduá; no Município de Uberaba, não faltava aos insurgentes apoio, e forte.

José Antonio Marinho. História da Revolução Liberal de 1842. 5.ed. Belo Horizonte: Assembleia Legislativa de Minas Gerais, 2015. [Original de 1844]. Disponível em: https://goo.gl/IbOV7j

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