O Nicanô, com o tempo, se acustumô com o quintal, comigo, com o Luizim (com o Chicão ele num amarrava as égua) e foi crescendo. Nós chamava ele de Nicanô Saci, e ele aprendeu logo o nome, tanté que quando eu chegava da rua e gritava o nome dele, ele levantava a cabeça e ficava de oio nimim.
Os outro galo num mixia com ele, purque eu já tinha avisado a molecada comé que a banda tocava, e num quiria ele invulvido em briga nem em rinha. Mais quando a gente tá predestinado, num tem jeito, as coisa acontece memo, e o Nicanô era um desses.
Numa noite, o Chicão rancô o rabo de um gato que resolveu cortá caminho pelo nosso quintal. O bicho conseguiu iscapá, mais o rabo dele não. Na manhã seguinte, tava lá aquele rabo ensanguentado, aquela carniça, que atraiu um urubu. O Nicanô num cunhecia urubu, e achô que fosse um galo novo e resolveu incará. Como o combinado num valia pra urubu, o bicho deu um chega pra lá no Nicanô, que rolô comeno terra pelo quintal. Os outro galo quiseru parti pra cima, mais um deles, o Olegário, num dexô: era o batismo do Nicanô.
A pancada foi tão forte que o Nicanô num levantava. Quando todo mundo achô que ele tinha morrido ou que tudo ia ficá do jeito que tava, o Nicanô levantô e partiu para cima do urubu. Ele tava com sangue nos óio e cortô o urubu no coro, uma sova de fazê os outro minino ficá tudo impressionado. Sorte do urubu que vuou, sinão...
Os outro galo tudo cantaru na hora que o urubu vuou e o Nicanô foi aplaudido.
Da janela da cozinha, onde eu via tudo, eu gritei:
- Em terreiro de galo, urubu é pato.
Nenhum comentário:
Postar um comentário