quarta-feira, 25 de abril de 2018

Nicanor (parte 1) - O miserável

O Nicanô chegô aqui em casa dentro de uma caixa de sapato, ainda era um franguim. Alguém dexô ele aqui na porta num dia de manhã; era cedim, abri a porta pro Luizin saí e vi que ele oriçô no portão.
– Uai, sô! Quequi foi, minino?
Fui no portão, vi a caixa do lado de fora e achei que fosse dispacho. Eta, bestage! Abri o portão e o Chicão correu pra fucinhocá a caixa. A tampa levantô e eu vi o Nicanô todo inculhido num canto. Levei a mão pra tocá nele, ma o miseravi sartô de banda e quase me pegô. O Chicão, nessa hora, quiria matá o Nicanô de quarqué jeito, e eu picisei sigurá ele pra num acontece uma disgraça. Peguei a caixa e entrei pra dentro de casa, com o Chicão querendo pulá na caixa.
– Quéta, minino! Esse franguim tá assustado.
Coloquei a caixa em cima da mesa e fui fazê o café. Dispois de pronto, sentei e fui cunversá com o franguim:
– É, miseravi, quase qui ocê me pegô, mais a Quimerinha num bubéia não. Cumé que ocê chama? Quem dexô ocê aqui?
Ele num respondeu. 
– Pudia chama ocê de Miseravi, mais num vô fazê isso não. Vô batizá ocê de Nicanô, purque ocê me lembra um vendedô de linha: veiaco quinem ele.
Tomei o café, lavei as xicra e o Nicanô num saía da caixa. Tinha uma coisa errada.
– Nicanô, quequi ocê tem? Pur que ocê num sai dessa caixa?
Ele num respondia nada e eu comecei a ficá com a pulga atráis da oreia.
- Vamu, minino! Pode saí, nóis aqui é de paz.
Balancei a caixa e vi que ele se movia com dificuldade.
- Uai, minino! Quequi ocê tem? Ocê tá machucado? Dexovê.
O miseravi tentô me pegá outra vez, e o Chicão ferveu nele dinovo.
- Calma, Chicão! Calma!
Nessa confusão, a caixa virô, ele caiu em cima da mesa e foi quando eu vi que ele tava apoiando numa perna só.
- Ah, minino! Então é isso. Ocê tá com a perna machucada.
Nessa hora, num pensei duas veiz. Fiz a reza-brava qui a Sá Rita mi ensinô e botei a mão no Nicanô. Ele ficô quéto, sem intendê o quequi tava acontecendo e eu discobri que ele num tava com a outra perna machucada, ele só tinha uma perna. Pelo que parece, tinha nascido assim e esse foi o motivo de alguém tê deixado ele na minha porta.
Ainda na reza, levei ele pro quintal, arrumei um canto pra ele, pus mio e água e deixei ele lá. Fechei a reza e ele ficô me olhando com cara de quem num intendeu nada.
– Ocê tem os seu segredo, miseravi, e eu tenho us meu.

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