maio de 1937
Estimado B., meu irmão,
Não foi desta vez! Esperava que a graça de Deus nos possibilitasse esse encontro, mas as linhas tortas do Criador têm uma sintaxe própria, em que complementos e predicativos só atendem à regência divina. É desolador, mas é o que há.
Sentimos tua falta: eu, mamãe e, principalmente, Lulu. Apesar de não compreender esse tema e não saber que nos correspondemos, Lulu é uma pessoa diferente quando não estamos juntos, nós três. Foram tantas jornadas, tantas histórias para contar, inúmeras as vezes em que brigamos e nos ferimos mutuamente, que as cicatrizes que carregamos, mais do que nunca, devem ser chamadas de “nossas”, jamais de “minhas” ou "tuas".
A linguagem nos une, todavia o tempo nos separa. A família nos une, os parentes nos distanciam. Essa nossa essência inflamável se coliga em nós, e precisamos sempre de auxílio para controlá-la. Por isso é tão difícil e tão lindo ao mesmo tempo lidar com essa seiva bruta e divina que corre em nós, não necessariamente nessa ordem. É notório que mais conhecimento gera mais responsabilidade, mais virtude, mais controle, mais oração e mais trabalho.
O tempo é curto para uma missão tão grande, pequena talvez para o Criador, mas, para nós, talvez seja melhor dizer para mim, ela se apresentou muito além do que poderia executar. Infelizmente, falhei várias vezes. Reconheço minha limitação, meus momentos de descontrole, de ira e fúria, seguidos de dor, angústia, nostalgia e opressão. Nunca me fizeram bem, eu sei, mas não consegui controlá-los.
Estou certo de que, ao ler esta carta, já terás experimentado tudo isso, porque nosso conhecimento e nossa vivência são complementares. Tal qual numa escalada, o passo primevo de um de nós leva consigo o outro, que será o próximo a subir e que, por sua vez, trará o primeiro, e assim sucessivamente.
Sei que meus escritos não chegarão facilmente a tuas mãos. Por isso, peço-te: busque-os! A energia que corre nessas linhas não se apagará, mesmo que o papel desista de suportá-las, mesmo que inúmeros intermediários tolos e limitados tentem ocultá-los, mesmo que os digam desaparecidos, perdidos, imaginados. Nós sabemos que eles vivem e que são parte de nós.
Sei que meus escritos não chegarão facilmente a tuas mãos. Por isso, peço-te: busque-os! A energia que corre nessas linhas não se apagará, mesmo que o papel desista de suportá-las, mesmo que inúmeros intermediários tolos e limitados tentem ocultá-los, mesmo que os digam desaparecidos, perdidos, imaginados. Nós sabemos que eles vivem e que são parte de nós.
Quero também pedir-te um especial favor, desses que só a irmandade permite e autoriza: encontra a Rita! Move terras e céus, desdobre-te, aprende outras línguas, viaja o mundo, enfrenta trevas ou mergulha nas almas, mas não permitas que ela passe por ti de maneira inerte. Faze isso por mim.
Dize-lhe, por mim, tudo o que sabes de meu amor por ela, de minhas dores e de meu arrependimento bestial por minha opção. Agora, na velhice atroz, sem ela, não há caminho, não há saída nem fuga, pois não há destino. Apenas o Criador me espera e eu a ele, para que eu possa chorar em silêncio até meu julgamento.
Este parágrafo que agora escrevo me ofende e me dói, mas não conseguirei passar sem ele: peço-te, meu irmão, não a ames! Haverá milhares de mulheres neste mundo e em tantos que poderão ser descobertos quando estiveres com esta carta em mão, por isso fecha teus olhos para Rita e não permitas que teu coração arda por ela. É uma grande tolice este meu pedido, mas meu coração enciumado não me daria sossego sem estas linhas.
Agora chove e a sinfonia das goteiras toca lá fora sem fim, preparando o dia que não tardará a despertar. Despeço-me com a certeza de que estamos no caminho correto, ainda que tão distantes no tempo e no espaço. Estou convicto de, em momento oportuno, estaremos juntos novamente, naquela comitiva que nós conhecemos tão bem.
Com o amor de sempre, seu irmão em Cristo.
B.
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