dezembro de 2019
Extraordinário B., meu irmão,
Foi quase desta vez! O Criador permitiu, apesar de nossas mazelas, que estejamos extremamente próximos nesta existência, ainda que não possamos nos encontrar, nos tocar, conversar ou mesmo retocar as cicatrizes que tão bem iniciamos uns nos outros. Não é o que gostaríamos, mas é o que há.
Também sinto falta de todos vocês: de nossa mãe, de você e também do Lulu. O Lulu é um grande menino, alma e coração sem tamanho, a essência mais pura e primeva de todos nós, e eu adoraria estar ao lado de vocês neste momento, pois nossa comitiva estaria completa.
Preciso antecipar uma notícia antes de responder a suas questões: encontrei Monsenhor Espinoza! Sim, nosso bom e velho jovial mestre. Tenho a satisfação de dizer que é meu amigo e que passamos horas construindo e reformulando mundos. É um homem notável, e motivo de gratidão ao Criador por ele estar conosco repetidas vezes.
Concordo com você ao dizer que o tempo é curto para nossa missão, por isso não podemos perder tempo com distrações. É preciso estarmos atentos a tudo! Aos textos e à Rita! Tocou-me seu pedido em relação a ela e devo admitir que percebi que você trocou de mão ao escrever esse trecho. Não é uma reprimenda, apenas uma observação sobre a grafia do coração.
Preciso dizer que ainda não encontrei Rita e que seu pedido é suficiente para aguçar a mente e o coração de qualquer homem. Sobre seus sentimentos por ela, esteja certo de que ela sabe de todos, sem ocultação da menor parte que seja. No momento apropriado, não tenho dúvida, vocês se encontrarão e, então, você poderá dizer tudo a ela. Não quero com isso dizer que não a buscarei, mas que você terá a chance de “gastar seu latim” (desculpe-me o trocadilho infame!) com ela.
Não fique irritado comigo, pois o humor dos tempos é diferente, e respeito profundamente seu sentimento. Se Rita não apareceu, confesso que já encontrei a filha dela, Stella. Uma mulher encantadora! Se conheces a árvore pelo fruto, entendo o motivo de um “coração enciumado” e digo que também o teria se me tocasse o peito essa espécie. Fico feliz por saber que o bom gosto é de família e digo-lhe que não temas os caminhos do coração, o meu e o de Rita, pois ela não tem olhos para "crianças" como eu.
A filha de Rita não está ciente de nossa proximidade com a mãe dela, mas acredito que descobrirá no momento oportuno. Os frutos têm a época certa para amadurecer, não é mesmo?
Tantos anos nos separam e tantos motivos nos unem, e, nessa hora, me pergunto: que são os anos? Por que me debruçar sobre o que é o tempo, se posso experimentá-lo da maneira mais intensa vivendo-o? Por que perguntar por quê, se posso simplesmente aceitar e me aguçar em responder como? Algumas vidas não contêm um por quê, mas ardem em um como.
A ingenuidade é a idade dos porquês; a maturidade, dos comos. É por esse como que vivo, que insisto, que escrevo e que fabulo.
Despeço-me rogando a Deus que esteja ao seu lado quando suas mãos encontrarem as de Rita, para que possamos festejar, em família, esse momento tão esperado e tão cantado.
Com o humor e o amor de sempre, seu irmão em Cristo.
B.
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