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Num mundo branco pintado pela neve, há um homem apressado, apreensivo, afobado. Perseguir ou ser perseguido, eis a questão. Não se vê viva alma. Ele não anda, anda o caminho.
Depara-se com um palácio, branco como a neve que o decora. Não há guardas, nem sentinelas. Antevê o perigo que o espera à frente; maior é o monstro que (o) segue. A passos lentos, silenciosos, chega ao portão e, com alguma dificuldade, empurra-o, fazendo aquele enorme gigante roncar e abrir. Uma mínima brecha é o suficiente para que ele entre e encontre um jardim.
O oásis é também parte do deserto.
Não há como voltar. Está desarmado, cansado e com a mente confusa. Lembra-se, nesse momento, de Musashi, o samurai, e sente-se uma cópia barata e sem valor do guerreiro. Esse, porém, é um segredo dele. Só dele.
No jardim, caminhando com cuidado, vê um pequeno regato que ainda corre e uma ponte que o sobrepõe. Aproxima-se, abaixa-se e, antes de tocar água, avista uma mulher do outro lado da ponte que o observa. Levanta-se assustado e caminha para trás, mudo. A mulher, clara, bela e de longos cabelos, trajando um quimono extremamente delicado, mantém os olhos fixos nele.
Entreolham-se por longos segundos, ao fim dos quais ele resolve:
– Eu sou Mu... – é interrompido, porém, com um gesto da mulher que leva o dedo à boca numa sinalização inequívoca de silêncio.
– Eu sei quem você não é – disse ela.
Aquelas palavras o atordoam e ele recua ainda mais, agora que a mulher se dirige à ponte para atravessá-la. A distância que se encurta lhe permite ver os finos traços da mulher e sua suave força. Transpõe o regato e para, com os olhos sempre atentos ao visitante.
– Quantos perseguem você? – Pergunta ela.
– Muitos.
– Não vejo armas.
– São necessárias?
– Para uma testa tão tensa, suas palavras são bem afiadas.
Tenta relaxar e mostrar naturalidade, mas percebe que sua encenação não lhe trará sucesso.
– Você olha pouco para trás.
– Atrás é só uma perspectiva.
– Para trás não há fuga, só dúvida.
– Não quero fugir.
– Então se encontre.
– É o que me move.
– Agora, sim, seu corpo e sua boca estão em harmonia.
Ao longe, ainda de forma insípida, surge o som de um tropel de cavalos. A impaciência toma conta do homem, e a mulher delicadamente, como um longo espreguiçar de garça, leva a mão às costas. O homem se assusta, recua e vê surgir uma espada longa nas mãos dela. Não há palavras.
A mulher desenha uma flor diáfana no ar com a espada, ainda na bainha, e com um movimento rápido e preciso, aproxima-se do homem e lhe oferece a empunhadura. Atônito, renascido, ele ouve:
– Siga seu caminho; não fuja dele.
Ele pega a espada, retira-a da bainha e sente a força da arma, mantendo os olhos sempre fixos na mulher.
– Cuidado com esse jardim, pois há perigos dos quais você não faz ideia. Não se demore, porque, quando esses cavalos que ouve chegarem aqui, você poderá ser um homem morto.
– Não tenho medo de morrer, pois já morri outras vezes e uma parte de mim já está morta.
– Salve, então, a parte que está viva.
– E você? Se sua espada for encontrada comigo, sua vida estará em risco.
– Todos nós vivemos em risco.
– E se for morta?
– Não tenho medo de morrer, pois já renasci outras vezes e uma parte de mim não pode ser morta.
– Você está sem armas. Como poderá se defender?
– A escola das duas espadas é minha vida. A espada mais perigosa não corta e não pode ser vista. Quando transpassa um coração, você sabe o que é a vida.
– Ninguém é capaz de sobreviver a esse golpe.
– É verdade! Morrer por ele é ter a certeza de estar vivo.
– Não entendo.
– Quando seu coração for atingido, você saberá.
– Não posso ser atingido.
– Se não for atingido, morrerá sem saber o que é viver.
O tropel se aproxima.
Ele corre, atravessa a ponte, para, vira e vê a mulher ocultando-se entre folhas. Olha para a espada, reflete alguns segundos e retorna ao ponto onde a mulher está. Oferece-lhe a espada e diz:
– Não posso levá-la.
– Por que não?
– Prefiro carregar suas palavras a sua arma.
Com um movimento único, desenha um pássaro no ar com a espada e a entrega levemente à mulher. Surpresa, ela diz:
– Você conhece as duas espadas...
– Sabia como desenhar o pássaro, não como fazê-lo voar. Sou grato a você por isso.
Os cavalos atravessam o portão no galope, fazendo voar o pássaro, o homem e a dúvida.
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