quinta-feira, 9 de julho de 2020

O papel aceita tudo

Imagem: Pixabay. Disponível https://bit.ly/2Z5uztN.

Sempre deverão existir maus escritores, pois eles atendem ao gosto das faixas de idade não desenvolvidas, imaturas; estas têm suas necessidades, tanto como as maduras.
Friedrich Nietzsche. Humano, demasiado humano, aforismo 201.

Há algumas semanas, divulguei, em minha conta no Instagram, o lançamento de meu quase livro “Eu, Testosterona”. Muito mais um exercício lúdico-editorial que propriamente um volume, produzi uma postagem “bem real”, apesar de não sê-la e também de não não sê-la. A história por trás desse quase livro foi publicada, de maneira ficcional, em meu blog e resolvi produzir uma estrutura que sustentasse todo aquele jogo textual.

Fiz a capa do quase livro a partir de um banco de imagens gratuitas na internet (Pixabay) e consegui todo o suporte visual no site adazing.com, no qual desenvolvi a capa em 3D e recebi outras peças gráficas, inclusive memes para meu quase livro. O único texto real do quase livro era o da orelha, postado no Instagram:

“Com uma linguagem moderna e vibrante, o autor apresenta a história ardente de um casal em busca da completude da vida. Com relatos apaixonados e diálogos fortes, somos chamados a vivenciar todos os percalços de dois amantes, no sentido mais amplo da palavra, que descobrem, juntos, todos os matizes do amor e do amar. Certamente, o leitor se identificará com a narrativa e reconhecerá os dilemas pessoais que todos aqueles que têm um coração preenchido por um outro eu tão vivamente experimentam. No futuro, Brutus e Bela estarão no panteão dos casais imortalizados como tantos outros da literatura universal. A narrativa de H.C. Clement, um dos nomes mais aclamados da nova geração de autores, sanguínea e penetrante, é um convite aos sentidos.”

Não resta dúvida de que essa orelha tem muitos mais recursos comerciais do que literários, além de uma boa dose de pretensão e de imodéstia. Afinal, se não for assim, como introduzir um “romance” no mercado de tantas publicações? É verdade que cheguei a vender alguns exemplares e que minhas companhias literárias mantiveram-se em silêncio, certamente sem saber o que se passava. De gêneros mais nobres ou nem tanto, respeito profundamente todos os autores, sejam escritores ou escreventes como diria Roland Barthes, porque sei que escrever não é um ato simples, nem fácil, pois exige, no mínimo, coragem.

Todo esse preâmbulo para chegar ao ponto principal deste texto: veracidade na escrita. Tive um colega de trabalho que tinha como mantra um velho ditado: “O papel aceita tudo.” Os suportes de escrita mudaram, mas essa verdade segue inabalável. A escrita a todos recebe bem, desde fake news e promessas eleitorais até informações do currículo Lattes, passando por inverdades, pós-verdades, incorreções e, no extremo, quase esquecidas, as boas e velhas mentiras. Por que boas? Toda mentira é boa. Uma mentira é ruim quando ela se apresenta como verdade.

É fácil perceber esse fato: conte uma mentira que seja extremamente falsa ou inverossímil e veja o efeito em sua audiência. A chance de haver riso é bem grande, porque a mentira “desvairada” e “cabeluda” é divertida. Conte, porém, uma mentira e a maquie, vista-a com um longo e esvoaçante vestido de verdade ou, então, um terno bem cortado, com colete e gravata de sinceridade: toda uma relação com sua audiência entrará numa zona nebulosa de dúvida e ficará estremecida; mais cedo ou mais tarde, aparecerá o dano quando a mentira for despida.

É perceptível que estamos quantitativamente em uma sociedade mais “escritora” do que estávamos há trinta anos, ainda que haja muita discussão qualitativa sobre o tema. Logo, se há mais gente escrevendo, há mais leitores? Se há mais uso da escrita, essa variedade está mais valorizada? Se há mais leitura, há mais conhecimento? Essas provocações dizem muito sobre nossos consumidores de texto (produtores ou não).

Assim, reserve-se sempre o direito da dúvida e a boa vontade da confirmação, para que toda afirmativa, nua ou explicitamente vestida, seja motivo para alegrar o dia e não para estragá-lo. Lembre-se de que o papel (celulótico ou eletrônico) aceita tudo, nós não.

Publicado originalmente no LinkedIn em 08 jul. 2020.
https://www.linkedin.com/pulse/o-papel-aceita-tudo-humberto-mendes

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