sexta-feira, 29 de agosto de 2014

tarde de sexta de agosto

o vento
as nuvens
o horário
o cheiro do mundo
tudo se parece.

o telefone insiste em tocar
para dizer que as tardes
de sexta
de agosto
são iguais

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Na cara

Agostinho, não me abandone.
agora que sinto a palma
célere e sanguínea na face,
não me abandone.

voltarei ao capítulo um,
ao início da tradução
refarei as linhas que
a tolice moldou.

reescreverei as palavras
que outros dentes mastigaram
mas que jamais sentiram o sabor.

não é hora de parar.
é, ao contrário, hora de partir.
insistir.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O filtro

Um filtro redundantemente filtra. Nasceu para filtrar, filtra e assim permanecerá até que a filtragem pare (ou seja parada). Não é jogo de palavras: é apenas um fenômeno físico, embora muitas vezes seja pensado como fenômeno químico.

O fenômeno físico, em breve explanação, é aquele em que não há formação de novas substâncias, enquanto fenômeno químico é aquele em que ocorre a formação de novas substâncias. Desse modo, o filtro separará as substâncias, mas não criará nenhuma nova. Não é da natureza do filtro criar, pois, se assim o fosse, certamente não levaria esse nome.

O filtro de água, por exemplo, tende a separar as impurezas presentes na água, a fim de que essa se torne consumível (nem tudo consumível é potável). Em um mundo de falsas obviedades, não se pode desconsiderar que só haverá água filtrada se for inserida água, uma vez que a inserção de qualquer outro líquido compromete o processo de filtragem.

Nesse ponto, surge um problema, pois existem inúmeros líquidos que se parecem com água, possuem características semelhantes, fluidez, textura, cheiro (ou ausência dele), cor (ou ausência dela) e até utilidade similar, mas não podem ser intitulados como água. Se algum desses líquidos for colocado nesse filtro de água, em um mundo de falsas similitudes, o filtrado será bem parecido com água e apenas parecido se manterá.

Em um mundo de falsas singularidades, muitas são as águas, poucas as escolhidas. Existem variedades múltiplas, e o que garante o sucesso do filtro é que a água certa esteja no local certo. Água destilada, água oxigenada, água de batata, água de colônia, água-viva, água de chuva, água salgada, água doce e água-que-passarinho-não-bebe são águas(?), muitas delas apenas com parentesco linguístico. Desse modo, para que a água processada pelo filtro seja potável (a potabilidade não é para todos), é preciso que a água colocada tenha um mínimo de qualidade. Não nos esqueçamos de que as águas que fluem pelas nossas torneiras recebem tratamento antes de chegar a nossas casas: passam por desinfecção, fluoretação, correção de Ph e filtração, entre outros processos.

Após essa análise, é hora de o filtro trabalhar. Novamente surge uma questão física: o índice e a velocidade de filtragem. Quanto maior o filtro, maior a capacidade de filtragem diriam os mais afoitos, mas a filtragem não é absoluta. Abre-se, aqui, um questionário: qual o tamanho do filtro? Qual o volume de água a ser filtrado? Quais as condições da água (é água mesmo ou um produto similar?)? Qual a urgência do filtrado?

O filtro de água fará seu trabalho enquanto não atingir a saturação, pois, a partir desse momento, sua essência está comprometida. O índice de saturação, que é a razão entre a qualidade e a quantidade do que entra e a expectativa de uso daquilo que sai (o filtrado), explica e revela, substancialmente, a qualidade (ou falta dela) do produto final.

Se a água pós-filtro não estiver filtrada, o que se faz? É hora de avaliar as variáveis: a água é boa? Tem qualidade? Tem tratamento prévio? Segue um caminho seguro da origem até o filtro? Se a resposta é sim, avalia-se o filtro: é bom? Tem qualidade? Suporta o fluxo de filtração? Tem índice de saturação confortável, está próximo do limite ou já passou dele? Recebe manutenção preventiva? Se a resposta é sim, então ou o consumidor não conhece a água que bebe, ou há um processo de contaminação, ou a expectativa de uso compromete todo o processo.

Em um mundo gestado para ser estratégico, em que pululam bocas secas e hálitos aquosos, ter uma água boa pode ser um exemplo de eficácia. Em um mundo tocado por falsas, farsas e valsas, entender o filtro será eficiência.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

13 julhos

o Caneteiro partiu
pois não podia ficar
hoje é bula de remédio
mais calado
menos poético
menos extenso
mais vivo
são as outras mesmas hestórias

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Poeta

Para Ariano Suassuna 
em 23 de julho, foi o Maestro.
em 23 de julho, foi o poeta.
em hora aproximada, partiu naquela velha chalana.

não se sabe como, só se sabe que foi assim.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Dos anões

ainda que sejam sete anões
optaram por repetir o Dunga.
a procura por maçãs do sono crescerá.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

domingo, 20 de julho de 2014

Das fadas

Com Italo Calvino

o primeiro atributo das fadas é a leveza
de pés que não tocam o chão,
de sorriso tímido e olhos brilhantes.

a distância amiga
a palavra especial
o sentimento do mundo

sábado, 19 de julho de 2014

Barba

Para Rubem Alves

Nunca gostei de fazer a barba e, em um texto de Rubem Alves, encontrei a não-lâmina de que nunca mais me esquecerei. Com ela, recebi uma fina e elaborada reflexão sobre a existência que nenhuma lâmina cortará.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Ditosos

Para João Ubaldo Ribeiro

nos tempos de Mané,
domingo era dia de João.
agora,
sem Mané
sem João
os domingos não serão ditosos.

só os budas, quiçá os anjos.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Jão Tatu

a Copa do Mundo acabou hoje.
vero tiroteio foi a última cena.

feliz foi o Jão Tatu,
que tava no buraco.
- Sai, Jão! Que nós vão precisá desse buraco.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...