muitos querem independência,
mas poucos sabem que liberdade,
essa ave esfíngica,
essência desse desejo,
dilacera,
com garras e bico,
o sonho dos mais tolos.
não para poucos, independência é morte.
nem para todos, morte é liberdade.
domingo, 7 de setembro de 2014
sábado, 6 de setembro de 2014
Reza
Numa manhã de Finados
no cemitério do Bonfim:
- Aqui é que é bão, Luizinho.
Aqui num tem preto,
num tem branco,
num tem rico
nem pobre.
Aqui num tem filho da puta nenhum!
É tudo pó! - afirmou Reinaldão.
Luizinho fitou-o e disse sorrindo:
- Amém.
no cemitério do Bonfim:
- Aqui é que é bão, Luizinho.
Aqui num tem preto,
num tem branco,
num tem rico
nem pobre.
Aqui num tem filho da puta nenhum!
É tudo pó! - afirmou Reinaldão.
Luizinho fitou-o e disse sorrindo:
- Amém.
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
50 tons de cinza
Foto: Lee Acaster
Um ganso sob o céu tempestuoso de Londres, às margens do rio Tâmisa, foi a foto vencedora do Prêmio de Fotografia de Vida Selvagem Britânica, que reúne trabalhos que mostram a beleza e diversidade da vida selvagem no país
http://g1.globo.com/natureza/noticia/2014/09/exposicao-revela-beleza-da-vida-selvagem-na-gra-bretanha.html
***
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Verborreia
quando faltam ou sobram
números
palavras
dados
argumentos
é hora de apagar a empresa
acender as pessoas
lembrar que amanhã será outro dia
números
palavras
dados
argumentos
é hora de apagar a empresa
acender as pessoas
lembrar que amanhã será outro dia
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
7 anos
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!
não há Raquel
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!
Luis de Camões
***
não há Raquel
apenas loucas
palavras
no papel
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Nas costas
por que retiras o que te defines?
porque minha definição é maior que a lacuna
e mais voraz que a sutura.
porque minha definição é maior que a lacuna
e mais voraz que a sutura.
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
Pródiga
Para Vitória, a Régia
melhor que a parábola é o prodígio: "porque esta tua irmã era morta e reviveu, estava perdida e se achou."
sábado, 30 de agosto de 2014
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
tarde de sexta de agosto
o vento
as nuvens
o horário
o cheiro do mundo
tudo se parece.
o telefone insiste em tocar
para dizer que as tardes
de sexta
de agosto
são iguais
as nuvens
o horário
o cheiro do mundo
tudo se parece.
o telefone insiste em tocar
para dizer que as tardes
de sexta
de agosto
são iguais
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
Na cara
Agostinho, não me abandone.
agora que sinto a palma
célere e sanguínea na face,
não me abandone.
voltarei ao capítulo um,
ao início da tradução
refarei as linhas que
a tolice moldou.
reescreverei as palavras
que outros dentes mastigaram
mas que jamais sentiram o sabor.
não é hora de parar.
é, ao contrário, hora de partir.
insistir.
agora que sinto a palma
célere e sanguínea na face,
não me abandone.
voltarei ao capítulo um,
ao início da tradução
refarei as linhas que
a tolice moldou.
reescreverei as palavras
que outros dentes mastigaram
mas que jamais sentiram o sabor.
não é hora de parar.
é, ao contrário, hora de partir.
insistir.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
O filtro
Um filtro redundantemente filtra.
Nasceu para filtrar, filtra e assim permanecerá até que a filtragem pare (ou
seja parada). Não é jogo de palavras: é apenas um fenômeno físico, embora
muitas vezes seja pensado como fenômeno químico.
O fenômeno físico, em breve
explanação, é aquele em que não há formação de novas substâncias, enquanto
fenômeno químico é aquele em que ocorre a formação de novas substâncias. Desse
modo, o filtro separará as substâncias, mas não criará nenhuma nova. Não é da
natureza do filtro criar, pois, se assim o fosse, certamente não levaria esse
nome.
O filtro de água, por exemplo, tende a separar as impurezas presentes na água, a fim de que essa se torne consumível (nem tudo consumível é potável). Em um mundo de falsas obviedades, não se pode desconsiderar que só haverá água filtrada se for inserida água, uma vez que a inserção de qualquer outro líquido compromete o processo de filtragem.
Nesse ponto, surge um problema, pois existem inúmeros líquidos que se parecem com água, possuem características semelhantes, fluidez, textura, cheiro (ou ausência dele), cor (ou ausência dela) e até utilidade similar, mas não podem ser intitulados como água. Se algum desses líquidos for colocado nesse filtro de água, em um mundo de falsas similitudes, o filtrado será bem parecido com água e apenas parecido se manterá.
O filtro de água, por exemplo, tende a separar as impurezas presentes na água, a fim de que essa se torne consumível (nem tudo consumível é potável). Em um mundo de falsas obviedades, não se pode desconsiderar que só haverá água filtrada se for inserida água, uma vez que a inserção de qualquer outro líquido compromete o processo de filtragem.
Nesse ponto, surge um problema, pois existem inúmeros líquidos que se parecem com água, possuem características semelhantes, fluidez, textura, cheiro (ou ausência dele), cor (ou ausência dela) e até utilidade similar, mas não podem ser intitulados como água. Se algum desses líquidos for colocado nesse filtro de água, em um mundo de falsas similitudes, o filtrado será bem parecido com água e apenas parecido se manterá.
Em um mundo de falsas singularidades, muitas são as águas, poucas as escolhidas. Existem variedades múltiplas, e o que garante o sucesso do filtro é que a água certa esteja no local certo. Água destilada, água oxigenada, água de batata, água de colônia, água-viva, água de chuva, água salgada, água doce e água-que-passarinho-não-bebe são águas(?), muitas delas apenas com parentesco linguístico. Desse modo, para que a água processada pelo filtro seja potável (a potabilidade não é para todos), é preciso que a água colocada tenha um mínimo de qualidade. Não nos esqueçamos de que as águas que fluem pelas nossas torneiras recebem tratamento antes de chegar a nossas casas: passam por desinfecção, fluoretação, correção de Ph e filtração, entre outros processos.
Após essa análise, é hora de o
filtro trabalhar. Novamente surge uma questão física: o índice e a velocidade
de filtragem. Quanto maior o filtro, maior a capacidade de filtragem diriam os
mais afoitos, mas a filtragem não é absoluta. Abre-se, aqui, um questionário:
qual o tamanho do filtro? Qual o volume de água a ser filtrado? Quais as
condições da água (é água mesmo ou um produto similar?)? Qual a urgência do
filtrado?
O filtro de água fará seu
trabalho enquanto não atingir a saturação, pois, a partir desse momento, sua
essência está comprometida. O índice de saturação, que é a razão entre a
qualidade e a quantidade do que entra e a expectativa de uso daquilo que sai (o
filtrado), explica e revela, substancialmente, a qualidade (ou falta dela) do
produto final.
Se a água pós-filtro não estiver filtrada, o que se faz? É hora de avaliar as variáveis: a água é boa? Tem qualidade? Tem tratamento prévio? Segue um caminho seguro da origem até o filtro? Se a resposta é sim, avalia-se o filtro: é bom? Tem qualidade? Suporta o fluxo de filtração? Tem índice de saturação confortável, está próximo do limite ou já passou dele? Recebe manutenção preventiva? Se a resposta é sim, então ou o consumidor não conhece a água que bebe, ou há um processo de contaminação, ou a expectativa de uso compromete todo o processo.
Em um mundo gestado para ser estratégico, em que pululam bocas secas e hálitos aquosos, ter uma água boa pode ser um exemplo de eficácia. Em um mundo tocado por falsas, farsas e valsas, entender o filtro será eficiência.
Se a água pós-filtro não estiver filtrada, o que se faz? É hora de avaliar as variáveis: a água é boa? Tem qualidade? Tem tratamento prévio? Segue um caminho seguro da origem até o filtro? Se a resposta é sim, avalia-se o filtro: é bom? Tem qualidade? Suporta o fluxo de filtração? Tem índice de saturação confortável, está próximo do limite ou já passou dele? Recebe manutenção preventiva? Se a resposta é sim, então ou o consumidor não conhece a água que bebe, ou há um processo de contaminação, ou a expectativa de uso compromete todo o processo.
Em um mundo gestado para ser estratégico, em que pululam bocas secas e hálitos aquosos, ter uma água boa pode ser um exemplo de eficácia. Em um mundo tocado por falsas, farsas e valsas, entender o filtro será eficiência.
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