domingo, 1 de dezembro de 2019

Lição de vida

Para Lélio e Lina do Pinhém

o mundo
misturado é,
remoído fica,
não carece de conserto.
concertado é amor,
bruto, duro, doce.

sábado, 23 de novembro de 2019

Família

a talha quebrada.
o rastro vermelho no chão.
uma geração de cacos.

ajoelhou-se e se pôs a recolher um por um,
caco por caco,
sonho de grude e goma.

dois se encaixaram, puzzle.
mais um. com alguma dificuldade, outro.
afastou-se e percebeu encaixes e arestas.

seu rosto se iluminou e redobrou o esforço na emenda.
estava certo, ali, no rasteiro, que nunca fora uma talha.
era um quebra-cabeça escondido,
pronto para ser montado.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Shangri-la

estalo coronariano,
arritmia anímica,
campo de papoulas.
Shangri-la

nesse não lugar de luz,
Canaã do querer,
cavalgo palavras aladas,
rabisco o chão que não piso.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Ho'oponopono

demos as mãos.
brincadeira de roda.
compromisso.
oração.

os ais do alforje pesavam
meus ombros. tantos.
não de agora. não meus.
sinto muito

sofridos e cansados,
enterravam meus pés,
raiz de dor e silêncio.
me perdoe

pranteei palavras,
vidas, preces.
bicho em fuga.
obrigado.

a paz,
essa tormenta ardente,
invadiu o meu coração.
eu te amo



quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Sêmi

Vivemos tempos de pós-verdades, de fake news (sempre existiram, não com essa incidência e com esse nome, mas se lembre de que a serpente já se utilizava desse recurso), de radicalização e de ódio declarado (haters), de conexão constante, de curtidas, likes e viralização. Um fato rotineiro que se junta a esse grupo citado tem me chamado a atenção: os sêmis. Uma pesquisa mais dicionarizada talvez não revele esse “sêmi” substantivado, com acento, arrimo de família, mas essa forma carinhosa e apelidada se justifica plenamente pela insistência pela qual nos deparamos com ele.

“Semi-”, assim, sem acento e com faca em mãos, foi batizado de prefixo e cresceu bem relacionado, político, marcando presença nos mais variados ambientes e se unindo a todos aqueles se mostrassem interessados nessa parceria. Seu sentido primevo é o de metade, donde se tem o semicírculo, o semianalfabeto, a semijoia e o seminovo, legítima invenção brasileira.

Acontece, contudo, que a sociedade vai mudando (para o bem ou para mal) e a linguagem vai mudando junto (para o bem ou para mal), as inovações tecnológicas se fazem cada vez mais presentes (para o bem ou para mal), e o indivíduo, parte menor da engrenagem, parte maior da existência, muda também. Semimuda, semitambém, semi-indivíduo.

Hoje, o “Sêmi” está, muitas vezes, deixando de ser metade para ser integralidade ou, opostamente, quase não ser. A esse movimento, dou o nome de semiverdade, que não é o mesmo que pós-verdade e não se parece com ela, pois se constitui em uma classificação taxonômica particular e talvez seja a primeira ocorrência dessa fase pela qual passamos no momento.

Em julho deste ano, um político brasileiro, referindo-se a outro político, usou a seguinte expressão “próximo de imbecil”, que nada mais é que um semi-imbecil. Há poucos dias, havia “praticamente certeza” de que o petróleo que polui o litoral brasileiro era venezuelano, e agora há fortes indícios que ele seja proveniente de um navio de bandeira grega: isso é semicerteza. Perceba-se que, nessa fase sêmi em que vivemos, as informações não são necessariamente falsas, não necessariamente verdadeiras, logo semifalsas ou semiverdadeiras.

Não é difícil encontrar alguém que tenha uma ou várias ideias brilhantes, revolucionárias, que não se sustentam, porém, à mínima análise. Essas são, sem dúvida, semi-ideias, que certamente serão veladas e sepultadas assim, sem desfibrilador que as salve ou ressuscite. No mundo corporativo, ocorre o mesmo: semigestão, semiprofissional, semiplanejamento, semirreunião, semiqualificado. Nas relações familiares, idem: semipai, semimãe, semifilho e outros sêmis mais, que a medicina genética poderá explicar sem grandes dificuldades, mas não sem grandes tabus.

Nas questões de gênero, políticas, futebolísticas (o VAR inaugurou o semi-impedimento) ou do ENEM, sempre há sêmis, basta estar atento para observá-los. Nesses casos, se estiver semiatento, pode-se não perceber ou semiperceber. Assim, da metade para quase tudo ou para o quase nada, o sêmi pode ser meia parte ou mea culpa. É uma questão de semiperspectiva.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Palavrório


"Na sala de espera de um dermatologista, inicia-se um tratamento otorrinológico."

revista cantada,
falso divã,
programa de auditório.

não há palavrório botulínico para essa marca de expressão.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

domingo, 27 de outubro de 2019

Fragmento akáshico

Um único golpe de pá fora o suficiente para matá-lo, restando o segundo apenas como descarga de ódio e ímpeto incontrolável para certificar a qualidade da execução do serviço.

Não abriu uma cova funda para esconder o corpo, primeiro porque ele não valia tanto esforço e segundo porque o solo estava muito endurecido, fruto do frio extremo e da neve que castigara os dias anteriores. O trabalho tremendo o fizera transpirar bastante e, fechando aquela vala-sepultura, chutou um pouco de neve para cima dela tal qual um cachorro que esconde um osso.

O primeiro sentimento de culpa foi abafado porque ninguém saberia do acontecido, e ele próprio sumiria no mundo. Não era certo matar um homem, mas era justo mostrar a todos do que ele era capaz, e essa sensação de justiça pessoal trouxe-lhe o bem-estar que precisava para se afastar do local.

Ainda não sabia que, de alguma maneira, levava o morto consigo.

sábado, 26 de outubro de 2019

77

Para Milton Nascimento

há em Minas uma montanha,
não nos mapas,
encantada.

para meus ouvidos,
visitantes,
travessia cantada.



sexta-feira, 25 de outubro de 2019

O estranho ofício

O ofício no blog é um laboratório, tal qual o do Dr. Jekyll: algumas vezes entra o médico e não sai nada ou ninguém; outras vezes, entra o médico e sai o médico, vindo do pó e ao pó voltando; certas vezes, porém, entra o médico e surge saltitando, voraz, livre e liberto, Mr. Hyde.
Não há estranheza para quem conhece a poção.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Tatoo

no espelho, à ponta de faca, tatuei:
“É tudo vaidade, e correr atrás do vento”

desde então,
minha idade,
não menina,
baixos-relevos,
me sorri sem dentes,
à espera da tinta que fabule o borrão.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...