domingo, 30 de agosto de 2009

A banda

Este texto é uma homenagem a meu Tio Cesarinho, falecido em 28 de agosto de 2009, a quem eu chamo carinhosamente de "O prático".
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– Bota a Banda! – disse o Maestro.
– Eu já disse que não quero a Banda. – retrucou o Sapateiro.
– Cesarinho, ouça seu pai e deixe a Banda tocar. – disse o Padre Dulinho.
– Eu também acho, Cesarinho. Durante tantos anos você participou da Banda, ajudou a construir a identidade que ela possui, é devoto de Nossa Senhora das Dores e pessoa tão amada na cidade. Nada mais justo do que a Banda tocar. – ponderou o Ninico, limpando as narinas em seguida.
– Deixem o menino fazer o que ele quiser – interpelou Tio Lulu. – Vocês se intrometem de mais nos assuntos dos outros. Não amolem!
– Calma, Lulu, nós só estamos conversando. Não precisa estourar e aqui nem é o lugar para isso – apaziguou o Dinho Totonho.
– Qual é sua opinião, Padrinho Aluísio? – indagou Dr. Levi.
– É... – respondeu ele.
– Eu já entendi, gente. Mas não me acho merecedor da Banda, não quero dar trabalho para ninguém, quero apenas aquilo que escrevi. Só isso.
– Mas, Cesarinho, a Banda é a nossa alma. É alma de nosso povo. A música é o que corre em nossas veias, fantasiada de sangue, a mesma que adorna o altar da Matriz em tantos pontos diferentes. Nós passamos, mas nossa música fica. Permanece nas ladeiras que tantas vezes percorremos, em Fé, nas Semanas Santas, nas tristes tardes fúnebres, nos calorosos dias de festa. – refletiu o Cônego Belchior.
– Cesarinho, aquelas pessoas não estão lá para ouvir a Banda, mas todas elas gostariam e, não tenho medo de dizer, que todas, sem exceção, acham que ela deveria tocar. É uma homenagem para você e para todos nós que aqui nos reunimos. – disse o Maestro.
– Eu agradeço a atenção e o carinho de todos, mas não posso voltar atrás. Vejo e sinto o amor de todos que lá estão, uns que vieram de longe, outros daqui mesmo, tanta gente boa, tanta amizade... A Aurélia, a Rita, o Marco, o Pedro, o Zicó, a Zoca, o Zezé, a Santinha, a Mariazinha, o Lauro, o Belchior, os meus sobrinhos (os cabrinhas), as minhas sobrinhas, o pessoal da Banda, tantos amigos e amigas... Fico feliz por este momento ser assim...
– Então tá decidido: bota a Banda para tocar. Faça contato com o Marquinho e fale que ficou tudo certo, tudo acertado, sem restrições, sem mágoas. A Banda vai tocar.
O Maestro abraçou o filho e sorriu. Outros chegaram e se confraternizaram, naquele momento único, para, juntos, ouvirem o primeiro acorde.
– Saudades do Dinho Totonho...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Pontos

O que amedronta não é o obtuso ponto de interrogação, mas a presença aguda do ponto-final.

sábado, 22 de agosto de 2009

Fonte

Apesar de se utilizarem de canecas distintas, Forrest Gump e Benjamin Button bebem água da mesma fonte.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Bússola

O erro de algumas empresas é acreditarem que a Direção é o Norte, para onde todos os destinos e desejos convergem. Pavoíce consequente de seu séquito magnético (raramente geográfico), parvoíce decorrente de seu achatamento dos polos.

domingo, 9 de agosto de 2009

sexta-feira, 31 de julho de 2009

As palavras invisíveis

Para Italo Calvino

– Seja bem-vindo, Veneziano! Encontraste a mulher de meu sonho?
Marco Polo, depois de centenas de dias viajando pelo império do Grande Kublai, retornava da missão de encontrar uma mulher sonhada e descrita pelo imperador. O veneziano, ao entrar na sala imperial, fez a saudação ao soberano e caminhou em direção a ele. Sua face não demonstrava sucesso ou fracasso, o que fez Kublai Khan interromper os passos de Marco apontando-lhe o dedo indicador.
...
Mais de cem dias atrás, Marco Polo fora chamado à presença do Kublai. Frente a frente, a indagação:
– O que é um sonho?
Alguns instantes para pensar e a resposta:
– É uma realidade etérea.
O Khan o olhou fixamente:
– Na última noite, uma mulher visitou meus sonhos. Ela chegava caminhando, trazendo às mãos as rédeas de um cavalo branco. Suas feições eram limpas, sua pele clara como as mulheres do poente, os cabelos louros como o sol e seu andar felino. Aproximava-se de mim, dançava seus lábios em palavras inaudíveis e oferecia-me o cavalo.
Marco ouvia o relato atentamente.
– Ao fim de um galope, surgia uma árvore frondosa, de pequenas folhas, mas de grande altura e sombra. Descendo do cavalo, que arfava de cansaço, aproximei-me do tronco e encontrei uma outra mulher, mas que era a mesma. Sua pele estava como a das mulheres do levante, com cabelos pretos à altura dos ombros, um nariz delicado e orelhas e colo adornados com belas pedras verdes.
Nunca havia visto uma mulher com cabelos curtos e devo admitir que isso me causou grande estranheza. Ela se aproximou de mim e me presenteou com um espelho pequeno, como esses que minhas esposas seguram enquanto as amas penteiam seus longos cabelos. Novamente, uma sensação de estranheza tomou conta de mim, não por ver minha face refletida, mas por segurar o espelho. Não me lembro de ter segurado outro antes.
A mulher contornou a árvore com seu passo felino, ocultando-se pelo tronco. Seguindo seus passos, encontrei apenas um corcel, negro como a noite. O cavalo não parecia o mesmo, era maior e mais forte, com grandes narinas e parecia impaciente. Montando, parti em direção incerta.
Sentia o nascer do sol e observava o pôr, ritmados pelo trote do cavalo, que não corria, mas imprimia incrível velocidade. Aos poucos percebi que o sol estava parado, era eu que trilhava caminhos circulares, voltando sempre ao início, ao fim. Em um desses momentos, quando o fim toca o começo, uma mulher linda apareceu e sorriu. Meus olhos brincaram comigo, fazendo com que eu visse ora a mulher do levante, ora a mulher do poente, não raras vezes avistasse as duas juntas, com cabelos negros e louros, longos e curtos, na constituição de uma só mulher. Seus lábios bailavam, mas meus ouvidos estavam cegos àquela dança. Esticou os braços e desenrolou um pergaminho, que rapidamente tentei ler. Estava em branco.
Kublai se calou. Caminhou pela sala e sentou em seu trono.
– Tenho milhares de cavalos e poderia ter todos do império se quisesse. Tenho centenas de espelhos, de todos os tamanhos, de todos os formatos, e poderia mesmo controlar toda a produção deles. Tenho uma vasta biblioteca, com pergaminhos de todas as línguas conhecidas, e grande quantidade deles em branco, a serem preenchidos.
Fechando os olhos, colocou os lábios no tubo de âmbar do cachimbo e aspirou calmamente. Na seqüência:
– Mas não tenho essa mulher, não sei quem ela é nem onde mora. Ela está nos meus olhos e não posso pegá-la, está em minha mente e nem mesmo sei o seu nome. Invadiu minha fortaleza, interrompeu meu sono, trouxe-me a dúvida... Que exército vencerá um inimigo invisível?
Após nova aspiração, disse:
– Ponha-te em viagem, explora todas as costas e procura essa mulher.
...
Kublai Khan virou-se de costas e se pôs a pensar naquilo que, em segundos, findaria sua ansiedade de centenas de luas.
– Veneziano, trazes novidades?
– Sim, meu senhor.
– Encontraste a árvore frondosa?
– Sim, meu senhor.
– Viste belas mulheres?
– Sim, meu senhor. Teu reino é pródigo em beleza.
– Então, encontraste a mulher de meu sonho?
– Grande Khan, a mulher não foi encontrada, mas teu sonho sim. Aqui está ele.
Marco Polo retirou da roupa um pergaminho e o entregou ao Khan. Segurando-o, hesitou em abri-lo por alguns instantes. Desenrolando-o, descobriu-o em branco.
– Agora podes guerrear. Teu inimigo é visível.
Kublai Khan sorriu, descobrindo a mulher pelas linhas em branco do pergaminho.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

À sombra das peladas imortais

Para Mario Quintana
Da vez primeira em que me fraturaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, de cada vez que me quebraram,
Foram levando qualquer coisa minha…

E hoje, dos meus ossos calcificados, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada…
Arde um toco de vela, velha, amarelada…
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da pelada!
Ah! Deste pé, avaramente sestro,
Ninguém há de arrancar-me a bola amada!

Aves da noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
Não calará o canhoto, torto, que já foi destro!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Alma de um povo

Em 23 de julho de 1979, era gravado o primeiro disco da Corporação Musical Nossa Senhora das Dores.
Em 23 de julho de 1981, o Maestro Cesário, comandante da Corporação, era chamado à casa do Pai.
Em 23 de julho de 2008, era concluída a dissertação deste bucaneiro que aqui escreve.

Em 1979, na gravação do LP, foram decisivas as participações de Padre Gil e Padre Zicó, tendo o primeiro idealizado e o segundo viabilizado o projeto.
Em 1981, "A morte do justo", numa tarde fria de inverno, solou a despedida do Maestro.
Em 2008, as últimas palavras foram acrescentadas à dissertação, fechando a versão que iria à defesa. Nesse texto, sobredito dissertação, encontra-se o nome do Maestro Cesário Mendes de Cerqueira, a quem eu chamo carinhosamente de avô e tenho a satisfação de trazer comigo dupla parte de seu nome.

Um dia, quando a banda passar, todos nós estaremos juntos novamente no reencontro desse povo que é nossa própria alma.

terça-feira, 21 de julho de 2009

O bode da boda

O casamento é tão-somente uma crônica;
basta-lhe fidelidade e algum estilo.
Machado de Assis

O circo é chamado, com bastante razão, de o maior espetáculo da Terra. São vários atores, cenários, apresentações, um certo número de animais – alguns adestrados, outros não –, e o mais importante: os palhaços. O que seria de um circo sem roupas coloridas, caras pintadas e uma boa palhaçada? Entre gargalhadas e choros (de tanto rir), o espetáculo não pode parar.

Pensando no circo, acredito que o casamento é a maior aventura da Terra. Explico. Um casamento é composto por atores, um cenário, animais (não-adestrados) pululam e palhaços – de caras coloridas e roupas pintadas – pipocam de todos os lados. Hoje tem ou não tem marmelada?

Assim, empatados em grandiosidade, o casamento se torna a maior aventura da Terra pois ele é uma guerra em que aliados e inimigos vestem o mesmo uniforme. Jamais se entra ou se sai de um casamento ileso, principalmente se sua trincheira for o altar. Um casamento é o espaço ideal para rever inimizades, reaquecer intrigas, desmerecer créditos alheios, maximizar débitos terceiros, observar a ação do tempo e reencontrar amizades distanciadas. Considerando a empatia de minha caneta, reencontro as amizades, observo o tempo e engano os desatentos.

Dias atrás pisei esse campo de batalha, querendo, como Riobaldo, que o branco fosse branco e que o preto fosse preto. Possível não foi, mas a desandança seguiu, rumo a quem sabe onde não fala o que é. Atrás eu fui.

O primeiro que avistei foi Floro das Grassas e sua família, reluzente como sempre. Os ouros brilham na querença dos louros, mas há louros que não compram os ouros. Na ausência de graça, a família Grassa segue só, ridente, na vã esperança de preencher a mente.

Não muito distante, há poucos bancos de mim, Felipa dos Prazeres. Quem a visse, assim, abeatada, não imaginaria o que o plural de seu nome é capaz. Talvez não seja mais, apenas tenha sido, pois aquele viço de outrora, que nunca chegou a ser beleza, se esvaiu nas mãos do tempo. Casar gostaria, contudo os Prazeres são efêmeros.

Diferentemente, Bôsca das Flores, graciosa, aparentava rir do tempo, divertindo-se entre rosas e fragrâncias vindas de Zirma, Fedora, Ipazia, Eutrópia e Bersabéia. Sua busca por flores se apaziguou depois de entender que insetos e espinhos são parte do roseiral e que nossos olhos, muitas vezes, nos enganam.

Castigada pelo espelho, Lola das Faces deslizava pelas sombras, anônima. Poucos reconheceram Facinha – como era carinhosamente chamada –, ainda que seu vestido fosse luzente e ela estivesse bem à entrada principal. É preciso admitir que, em eventos como esse, não há muitos momentos para se demonstrar inteligência e perspicácia, virtudes indeléveis na face de Lola. Entrou Facinha, saiu Facinha, e não chamou a atenção de ninguém, mesmo que seus alvos dentes luzissem como pérolas.

Cumprimentou-me o Mariano. Ou melhor, Mariano dos Desejos, como ele afirmava e insistia. O que são os sobrenomes senão um selo que, diferentemente de alguns do mercado, não comprova nenhuma qualidade? Sem sobrenome, uma figura parva se torna insignificante, massificada pelo gentio. Você conhece o Zé? E o João? Se sim, digo que ambos devem ser ou parecer pobres, pois se fossem abastados seriam o Zé das Couves (com “c” maiúsculo), empresário das foliáceas, e o João Fedônio, garboso e aromático. Os Desejos são assim, o que se há de fazer?

Aproximaram-se Carmelo, de tantas canetadas, Tico Preto, de tantas campanhas, Lindolfo, de tantas histórias, e o Peralta, de tantas beligerâncias, alongando a amizade que a distância não conseguiu encurtar. A chegada deles espantou minhas divagações, assestrando minhas observações.

Sobre o casamento, nihil nove sub sole. A mesma liturgia, os mesmos símbolos, o mesmo “valha-me, Deus!”. Felizes entraram, felizes saíram, até que a morte os separe. Fidelidade e estilo, nas palavras de Machado, busco em meu texto; para o casamento, a hestória é outra.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Amigos

Segue a comemoração do aniversário do Caneteiro no dia do Amigo. Desde antes de "Beleza", o Caneteiro já recolhia e distendia sementes de sonhos, como aquele de ir trabalhar no interior da Inglaterra, capítulo onírico sumariamente enterrado com os incidentes de 11 de setembro de 2001.

Durante a escrita do Caneteiro, as amizades foram as certezas dos momentos incertos. Renata Velasco e Sônia Queiroz, primeiras sementeiras daquele projeto "Maluco", bussolavam a embarcação durante o son(h)o do timoneiro.

Os textos foram surgindo e novos amigos foram agregados. É bem certo, porém, que nem só de amizades vivia o Caneteiro, principalmente pela tinta acre que escorria do papel. Essa seiva espantou os "maus espíritos" e trouxe "familiares" distantes, perdidos, inéditos. A eles: Letícia Rodrigues, Lauro Mendes, Vera Casa Nova, Neide Freitas, os sempre votos de estima.

Em 2005, a hospitalidade do amigo André Penna permitiu que o Caneteiro ganhasse uma casa: http://www.caneteiro.com.br/, encerrada, em 2007, com a bênção de Medeiro Vaz. Era o momento de "queimar" o arquivo e buscar o-que-não-via, o-que-não sabe, o-que-não-digo.

A história está simplificada, mas os vértices estão citados.

O ademais é outra hestória.

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O texto de amanhã, O bode da boda, é aquele que eu gostaria de ter escrito. Em 21 de julho de 2006, em um casamento na Igreja da Boa Viagem, recebi o manuscrito em mãos, presente de Dona Quiméria. Aos nubentes da data, meus parabéns pelo terceiro ano de casamento; ao texto, quimérico, o renascimento do terceiro tomo de quatro.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...