O casamento é tão-somente uma crônica;
basta-lhe fidelidade e algum estilo.
basta-lhe fidelidade e algum estilo.
Machado de Assis
O circo é chamado, com bastante razão, de o maior espetáculo da Terra. São vários atores, cenários, apresentações, um certo número de animais – alguns adestrados, outros não –, e o mais importante: os palhaços. O que seria de um circo sem roupas coloridas, caras pintadas e uma boa palhaçada? Entre gargalhadas e choros (de tanto rir), o espetáculo não pode parar.
Pensando no circo, acredito que o casamento é a maior aventura da Terra. Explico. Um casamento é composto por atores, um cenário, animais (não-adestrados) pululam e palhaços – de caras coloridas e roupas pintadas – pipocam de todos os lados. Hoje tem ou não tem marmelada?
Assim, empatados em grandiosidade, o casamento se torna a maior aventura da Terra pois ele é uma guerra em que aliados e inimigos vestem o mesmo uniforme. Jamais se entra ou se sai de um casamento ileso, principalmente se sua trincheira for o altar. Um casamento é o espaço ideal para rever inimizades, reaquecer intrigas, desmerecer créditos alheios, maximizar débitos terceiros, observar a ação do tempo e reencontrar amizades distanciadas. Considerando a empatia de minha caneta, reencontro as amizades, observo o tempo e engano os desatentos.
Dias atrás pisei esse campo de batalha, querendo, como Riobaldo, que o branco fosse branco e que o preto fosse preto. Possível não foi, mas a desandança seguiu, rumo a quem sabe onde não fala o que é. Atrás eu fui.
Dias atrás pisei esse campo de batalha, querendo, como Riobaldo, que o branco fosse branco e que o preto fosse preto. Possível não foi, mas a desandança seguiu, rumo a quem sabe onde não fala o que é. Atrás eu fui.
O primeiro que avistei foi Floro das Grassas e sua família, reluzente como sempre. Os ouros brilham na querença dos louros, mas há louros que não compram os ouros. Na ausência de graça, a família Grassa segue só, ridente, na vã esperança de preencher a mente.
Não muito distante, há poucos bancos de mim, Felipa dos Prazeres. Quem a visse, assim, abeatada, não imaginaria o que o plural de seu nome é capaz. Talvez não seja mais, apenas tenha sido, pois aquele viço de outrora, que nunca chegou a ser beleza, se esvaiu nas mãos do tempo. Casar gostaria, contudo os Prazeres são efêmeros.
Diferentemente, Bôsca das Flores, graciosa, aparentava rir do tempo, divertindo-se entre rosas e fragrâncias vindas de Zirma, Fedora, Ipazia, Eutrópia e Bersabéia. Sua busca por flores se apaziguou depois de entender que insetos e espinhos são parte do roseiral e que nossos olhos, muitas vezes, nos enganam.
Castigada pelo espelho, Lola das Faces deslizava pelas sombras, anônima. Poucos reconheceram Facinha – como era carinhosamente chamada –, ainda que seu vestido fosse luzente e ela estivesse bem à entrada principal. É preciso admitir que, em eventos como esse, não há muitos momentos para se demonstrar inteligência e perspicácia, virtudes indeléveis na face de Lola. Entrou Facinha, saiu Facinha, e não chamou a atenção de ninguém, mesmo que seus alvos dentes luzissem como pérolas.
Cumprimentou-me o Mariano. Ou melhor, Mariano dos Desejos, como ele afirmava e insistia. O que são os sobrenomes senão um selo que, diferentemente de alguns do mercado, não comprova nenhuma qualidade? Sem sobrenome, uma figura parva se torna insignificante, massificada pelo gentio. Você conhece o Zé? E o João? Se sim, digo que ambos devem ser ou parecer pobres, pois se fossem abastados seriam o Zé das Couves (com “c” maiúsculo), empresário das foliáceas, e o João Fedônio, garboso e aromático. Os Desejos são assim, o que se há de fazer?
Aproximaram-se Carmelo, de tantas canetadas, Tico Preto, de tantas campanhas, Lindolfo, de tantas histórias, e o Peralta, de tantas beligerâncias, alongando a amizade que a distância não conseguiu encurtar. A chegada deles espantou minhas divagações, assestrando minhas observações.
Sobre o casamento, nihil nove sub sole. A mesma liturgia, os mesmos símbolos, o mesmo “valha-me, Deus!”. Felizes entraram, felizes saíram, até que a morte os separe. Fidelidade e estilo, nas palavras de Machado, busco em meu texto; para o casamento, a hestória é outra.
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