sábado, 28 de abril de 2018

Nicanor (parte 4) - O pelejador

Teve uma veiz, meu fio, qu’eu picisei comprá um remédio e num tinha dinheiro. Foi uma época dífice, e eu passei apertada. Cumé que eu ia fazê pra arrumá esse dinheiro? Rezei, pidi a Deus que me ajudasse, que me desse uma luz. Ele me ouviu.
Tinha acabado de iscutá a consagração de Nossa Senhora Aparecida com o Pe. Vito, e alguém chamô na porta da minha casa. Vou até o portão e o Chicão, com os pelos tudo arrupiado, já me mostrava que num era boa gente. Era um home de terno claro, bigode fino, fala mansa de malandro, dizendo que ficô sabendo que eu tinha um galo bom de briga, que nunca tinha perdido, e que queria desafiá ele pr’uma briga. Disse que era de Capelinha, que tinha um galo muito bom e quiquiria arrumar um adversário à altura pro galo dele, que tava cansado de batê em franga, que nunca tinha encontrado um galo que durasse muito tempo.
Num gostei disso purque nunca tinha ido numa rinha e dispois, se as história do Nicanô fosse tudo mintira, ele pudia morrê, purque o galo do home divia vivê disso (e o miseravi do dono dele tamém).
Enquanto preparava para respondê, o home tirô um monte de nota do bolso e disse que pagaria pelo desafio, mais que eu num ia podê reclamá se o Nicanô morresse. Nessa hora, surge o Nicanô vindo na rua, até torto, voltando da safadeza e sacizando como de costume.
O home olhô e disse:
- É esse o galo? Um aleijado?
Minino, nessa hora meu sangue ferveu e eu tive vontade de rachá a cara do miseravi no meio, de soltá o Chicão em cima dele pra estraçaiá aquele terno branco de merda qui ele vistia.
- Ondé que é, moço? – Eu perguntei.
O miseravi me deu o endereço, e eu falei que ele chamasse um padre, purque nóis só ia se a encomendação do galo dele fosse feita antes da luta, que nóis num gostava de mandá ninguém pro inferno sem a benção de Deus. O home me olhô sério, guardô o sorriso e saiu acertano o bigode.
O Nicanô mal ficava em pé por causa da gandaia, tava com os óio quase fechado e foi logo deitando. Nessa hora, eu pensei na burrada que eu tinha feito, deixano que o home me tirasse do sério com aquelas palavra. Não ia dá pro Nicanô brigá daquele jeito, e eu nem sabia se ele brigava memo, ou se tudo aquilo era invencionice do povo.
Tava tudo marcado para as 6 hora, e aquele dinheiro era nossa salvação.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Nicanor (parte 3) - O varado

Quando o Nicanô chegô na adolescência e discobriu as galinha... Eta, minino! Foi só pena que vuou. Era um Deus nos acuda. Esse minino corria atrás das galinha toda, e quiria toda hora, e mais de uma vez, e dispois com outra, dispois na vizinhança. Aí nessa época que incontrô as duas coisa que deru fama pr’ele: as galinha e as briga.
Quando ele começô visitá as galinha da vizinhança, começô a briga co’s galo tamém. Aí o nome dele ficô conhecido, purque ele batia nos galo e depois pegava as galinha, muitas veiz fazendo isso mais de uma vez por dia. Teve um dia que ele brigô quatro veiz e ainda fez uma meia dúzia de minino. Eta, ferro!
Nessa safadeza toda, o Nicanô ficô conhecido pelos dono das galinha e eu recibi proposta pra vendê o Nicanô, purque o povo quiria que ele fosse pra rinha. El’s falava que seria campeão, que daria muito dinheiro, que ninguém ia vencê ele, que eu tava com uma mina de ouro em casa e outras coisa do tipo, mas eu num gostava desse tipo de coisa e tamém num precisava de dinheiro. A vida q’eu levava tava boa: cumia, vistia, durmia e sorria.
Mas isso num impediu que eu ficasse sabendo das aventura dele nas rinha. As histórias chegavam que ele bateu num, matô outro, desmoralizô o galo de fulano de tal, que aleijô o galo do coronel ..., que cegô o galo de Dona..., e puraí vai. Pode num ser bunito de falá, meu fio, mais era assim que as coisa acuntecia.
Ocê sabe aquela história que eles conta, uns acha até que é piada, sobre um home que chega numa rinha e pergunta: “Qual desses que é bão?”. Alguém aponta pr’um galo, esse home aposta dinheiro nele, o galo toma uma surra e o home perde o dinheiro. Esse home pergunta dispois: “Mais ocê num falô que esse galo era bão?” O outro responde: “Esse era bão memo, o outro qu’era mal quinem o tinhoso”. Intão, isso foi fato acunticido com o Nicanô. O Roberto tava fazendo uma matéria nesse dia e presenciô tudo.
Nesse tempo, começô a chegá gente na minha casa trazendo galinha pra cruzá com o Nicanô, isperando que os fiote fosse quinem o pai. Nisso eu num fazia oposição, mais avisava que o Nicanô era arado e que a galinha tinha que tá preparada, purque sinão... Pr’essas coisa, o povo dizia que ele num tinha pena.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Nicanor (parte 2) - O saci

O Nicanô, com o tempo, se acustumô com o quintal, comigo, com o Luizim (com o Chicão ele num amarrava as égua) e foi crescendo. Nós chamava ele de Nicanô Saci, e ele aprendeu logo o nome, tanté que quando eu chegava da rua e gritava o nome dele, ele levantava a cabeça e ficava de oio nimim. 
Os outro galo num mixia com ele, purque eu já tinha avisado a molecada comé que a banda tocava, e num quiria ele invulvido em briga nem em rinha. Mais quando a gente tá predestinado, num tem jeito, as coisa acontece memo, e o Nicanô era um desses. 
Numa noite, o Chicão rancô o rabo de um gato que resolveu cortá caminho pelo nosso quintal. O bicho conseguiu iscapá, mais o rabo dele não. Na manhã seguinte, tava lá aquele rabo ensanguentado, aquela carniça, que atraiu um urubu. O Nicanô num cunhecia urubu, e achô que fosse um galo novo e resolveu incará. Como o combinado num valia pra urubu, o bicho deu um chega pra lá no Nicanô, que rolô comeno terra pelo quintal. Os outro galo quiseru parti pra cima, mais um deles, o Olegário, num dexô: era o batismo do Nicanô. 
A pancada foi tão forte que o Nicanô num levantava. Quando todo mundo achô que ele tinha morrido ou que tudo ia ficá do jeito que tava, o Nicanô levantô e partiu para cima do urubu. Ele tava com sangue nos óio e cortô o urubu no coro, uma sova de fazê os outro minino ficá tudo impressionado. Sorte do urubu que vuou, sinão... 
Os outro galo tudo cantaru na hora que o urubu vuou e o Nicanô foi aplaudido. 
Da janela da cozinha, onde eu via tudo, eu gritei: 
- Em terreiro de galo, urubu é pato.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Nicanor (parte 1) - O miserável

O Nicanô chegô aqui em casa dentro de uma caixa de sapato, ainda era um franguim. Alguém dexô ele aqui na porta num dia de manhã; era cedim, abri a porta pro Luizin saí e vi que ele oriçô no portão.
– Uai, sô! Quequi foi, minino?
Fui no portão, vi a caixa do lado de fora e achei que fosse dispacho. Eta, bestage! Abri o portão e o Chicão correu pra fucinhocá a caixa. A tampa levantô e eu vi o Nicanô todo inculhido num canto. Levei a mão pra tocá nele, ma o miseravi sartô de banda e quase me pegô. O Chicão, nessa hora, quiria matá o Nicanô de quarqué jeito, e eu picisei sigurá ele pra num acontece uma disgraça. Peguei a caixa e entrei pra dentro de casa, com o Chicão querendo pulá na caixa.
– Quéta, minino! Esse franguim tá assustado.
Coloquei a caixa em cima da mesa e fui fazê o café. Dispois de pronto, sentei e fui cunversá com o franguim:
– É, miseravi, quase qui ocê me pegô, mais a Quimerinha num bubéia não. Cumé que ocê chama? Quem dexô ocê aqui?
Ele num respondeu. 
– Pudia chama ocê de Miseravi, mais num vô fazê isso não. Vô batizá ocê de Nicanô, purque ocê me lembra um vendedô de linha: veiaco quinem ele.
Tomei o café, lavei as xicra e o Nicanô num saía da caixa. Tinha uma coisa errada.
– Nicanô, quequi ocê tem? Pur que ocê num sai dessa caixa?
Ele num respondia nada e eu comecei a ficá com a pulga atráis da oreia.
- Vamu, minino! Pode saí, nóis aqui é de paz.
Balancei a caixa e vi que ele se movia com dificuldade.
- Uai, minino! Quequi ocê tem? Ocê tá machucado? Dexovê.
O miseravi tentô me pegá outra vez, e o Chicão ferveu nele dinovo.
- Calma, Chicão! Calma!
Nessa confusão, a caixa virô, ele caiu em cima da mesa e foi quando eu vi que ele tava apoiando numa perna só.
- Ah, minino! Então é isso. Ocê tá com a perna machucada.
Nessa hora, num pensei duas veiz. Fiz a reza-brava qui a Sá Rita mi ensinô e botei a mão no Nicanô. Ele ficô quéto, sem intendê o quequi tava acontecendo e eu discobri que ele num tava com a outra perna machucada, ele só tinha uma perna. Pelo que parece, tinha nascido assim e esse foi o motivo de alguém tê deixado ele na minha porta.
Ainda na reza, levei ele pro quintal, arrumei um canto pra ele, pus mio e água e deixei ele lá. Fechei a reza e ele ficô me olhando com cara de quem num intendeu nada.
– Ocê tem os seu segredo, miseravi, e eu tenho us meu.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Medo

Para H. P. Lovecraft

o inominado e inominável é um caminho sombrio, solitário e sem volta.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

domingo, 22 de abril de 2018

Pesadelo

O pior pesadelo é aquele que impede o sono,
acende a vigília,
rasga o medo que dormia em nós.

sábado, 21 de abril de 2018

Tiradentes

poucos falam de Tiradentes,
muitos aproveitam o feriado.
um dia será lembrado, talvez,
por ter feito uma marca vermelha na folhinha.
nesse dia, certamente,
a folhinha será uma múmia.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Flor de fábula

flor de liz
flor de ló
flor de nó

três vasos,
três vassouras,
uma história. só.
acabou a fábula.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Intoxicação

depois da quebra do barraco, veio a bebida láctea.
é muita intoxicação para quem tem ouvidos,
mas não para quem só tem orelhas.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Meu livrinho

Para Monteiro Lobato

minha história não era mais bonita
que a de Robinson Crusoé.
sinistro, resolvi escrevê-la assim mesmo.
torto, meu livrinho,
sujo, surrado, desleixado,
sem capricho muitas vezes,
é o esboço do que sou hoje.
a rasura é meu marca-passo.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...