segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Altaestima

Não deveria haver problema de autoestima no mundo, não fosse a distribuição tão irregular existente entre as pessoas. A língua não prevê ainda, mas outras ciências (psicologia, antropologia, sociologia) certamente precisarão de mais opções léxicas para descrever o efeito de altaestima que assola as redes sociais. É alta, é estima, mas há muito já se desgarrou da autoestima.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

BIB

A Boçalidade Interna Bruta (BIB) do país tem batido recorde ano após ano.
É preocupante, pois a BIB é muito contagiosa e se configura como uma endemia.
O alento é saber que, quando o pasto que alimenta os boçais acabar, restará a eles apenas a autofagia.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Mamãe, eu quero

Agradecimento a Silvio Caldas

Mamãe eu quero, mamãe eu quero
Mamãe eu quero socar!
Mete a porrada, m
ete a porrada, mete a porrada,
Mete a porrada pra imprensa se calar!

Dorme, filhinho do meu coração,
Traz a cloroquina que o covid só pega em bundão
Tenho um conhecido que se chama Queiroz
Se ele abrir o bico, não sobrará nenhum de nós

Eu olho os laranjas, com aquele fingimento
O fruto é muamba e o pé é fraudulento.
Conheço uma Michele que é sensacional
Ela é da bossa e o marido é um boçal.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Festa pela maioridade


Illm. e Exm. Sr. – A camara da villa de S. Bento do Tamanduá extaziada de prazer pelo fausto successo da elevação do Sr. D. Pedro 2.º ao Throno declarado Maior[1] por uma resolução da assembléa geral legislativa; sucesso que coroou os votos de todo o Brasil, e que deve agrilhoar para sempre a feroz anarchia, que mais ou menos em quasi todos os pontos do imperio tem levantado o colo nos dez annos da dolorosa orphandade; apressa-se a participar a v. exc., como, e de que maneira fora recebida tão lisongeira noticia.

Chegando á esta villa o estafeta do correio á meia noite do dia 2 do corrente, trouxera ao doutor juiz de direito o impresso da proclamação da camara da cidade de S. João d’El-Rei pela qual convidára ao povo para assistir aos festejos que delineara por tão plausivel motivo; o sobredito juiz de direito não podendo conter o praser, que lhe transbordou o coração passou a communica lo á essa mesma hora aos visinhos, e imemdiatamente os repiques de sinos, salvas e vivas acordarão todo o povo de maneira, que as duas horas uma banda de musica percorria as ruas da villa já então apinhoadas de immensa gente, e a aurora do dia 3 foi annunciada com a salva imperial de 101 tiros de roqueira. Aberta a malla do correio as oito horas, identicos impressos recebem alguns vereadores, reune-se a câmara, concorrem aos paços desta o juiz de direito, o de paz, o chefe da legião, o juiz municipal, o vigario da vara, e os cidadãos mais grados do paiz, e quando um dos vereadores propoem o solemnisar-se uma tão grata noticia com a maior pompa possível, a espensas próprias, todos a uma voz sollicitão o compartirem as despesas. A camara pois resolveo convidar aos habitantes da villa para illuminarem as frentes de suas casas por tres noites consecutivas havendo lugar em todas estas as salvas imperiais e alvoradas, uma missa solene com Senhor Exposto, oração analoga, e Te Deum Laudamus em acção de graças ao Todo Poderoso no dia 9 do corrente na igreja matriz desta villa. A camara tem a inexplicavel satisfação de affirmar a v. exc., que desde o começo do festejo, que hontem findou, assistirão e concorrerão effectivamente todas as authoridades, todos os cidadãos habitantes na villa e o povo emfim de todas as classes, sendo de notar, que em uma reunião de tamanho vulto não se ouvio jamais um grito alem dos vivas nacionaes analogos ao objecto repetidos a miudo com patriotico enthusiasmo, de sorte que, dfiferença de opinioens politicas, dissençoens particulares, tudo, tudo desappereceo inteiramente nestes dias, para não haver lugar se não, e somente a alegria de que todos estão possuidos, e reinar como de facto reinou entre todos a mais perfeita harmonia, e fraternal amisade. A festa e Te Deum em conclusão do festejo fica adiada para domingo proximo futuro, assim pela necessidade de virem clerigos de fora, como para maior concurso de povo, e reunião de maior numero possivel de guardas nacionaes. Taes são as disposiçoens e puros votos da camara, e povo desta villa.

Deos guarde a v. exc.

Villa de S. Bento do Tamanduá em sessão extraordinaria de 6 de agosto de 1840.

Illm. e Exm. Sr. Bernardo Jacintho da Veiga, presidente da provincia de Minas

Luiz Mariano de Moraes.

Joaquim Ferreira Carneiro Junior.

José dos Santos Ribeiro.

Francisco José de Carvalho.

Gregorio Luiz de Cerqueira.

Manoel Ignacio Pereira da Terra.

Paulo Antonio de Avelar.

O Universal, Ouro-preto, n.94, anno XVI, 17 de agosto de 1840. p.2-3. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=706930&pesq=%22Trist%C3%A3o%20Luiz%20de%20Cerqueira%22&pagfis=9853



[1] Em 23 de julho de 1840, o então garoto Pedro, com 14 anos de idade, foi elevado à maioridade e assumiu o título de D. Pedro II, imperador do Brasil.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Dispensa de título


Correspondencias 

Sr. Redactor. – Rogo-lhe o obsequio de transcrever nas colunas de sua estimavel folha o officio abaixo, pois muito obrigado lhe ficará seu muito respeitador e criado – José dos Santos Ribeiro. 

Tendo sido nomeado tenente da primeira companhia do primeiro batalhão de guardas nacionais desta villa, por livres sufragios de meus concidadãos, e observando que estes são cousa nenhuma em presença dos artigos 2º e 6º da lei Mineira de 16 de março deste anno n.170, não pretendendo por tanto solicitar o titulo que a mesma lei exige, de ora em diante reassumo a classe de simples guarda, em cuja qualidade protesto prestar todos e quaesquer serviços ao meu alcance a bem da minha patria, bem como a obedecer ás ordens legaes dos officiaes que o governo houver de nomear; e dando assim minha formal demissão e renuncia do posto, entendo que cumpre a v. s. dar providencias a eleição do oficial, que me deve substituir, ou participar ao governo para as darr como a v.s. parecer mais acertado. 

Deos guarde a v. s.

Villa de S. Bento do Tamanduá 13 de junho de 1840.

Illm. Sr. Francisco José Soares, juiz de paz desta mesma villa. 

José dos Santos Ribeiro

O Universal, Ouro-preto, n.77, anno XVI, 08 de julho de 1840. p.4.

sábado, 1 de agosto de 2020

Nas sombras


A medida da fala não é a fala medida.
Não medida é falazada.
Desfalar é serenar o supremo suspiro nas sombras.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Nitô-Ichi

Esta pequena fábula japonesa comemora os 19 anos do Caneteiro, meu filho querido.
***

Num mundo branco pintado pela neve, há um homem apressado, apreensivo, afobado. Perseguir ou ser perseguido, eis a questão. Não se vê viva alma. Ele não anda, anda o caminho.

Depara-se com um palácio, branco como a neve que o decora. Não há guardas, nem sentinelas. Antevê o perigo que o espera à frente; maior é o monstro que (o) segue. A passos lentos, silenciosos, chega ao portão e, com alguma dificuldade, empurra-o, fazendo aquele enorme gigante roncar e abrir. Uma mínima brecha é o suficiente para que ele entre e encontre um jardim.

O oásis é também parte do deserto.

Não há como voltar. Está desarmado, cansado e com a mente confusa. Lembra-se, nesse momento, de Musashi, o samurai, e sente-se uma cópia barata e sem valor do guerreiro. Esse, porém, é um segredo dele. Só dele.

No jardim, caminhando com cuidado, vê um pequeno regato que ainda corre e uma ponte que o sobrepõe. Aproxima-se, abaixa-se e, antes de tocar água, avista uma mulher do outro lado da ponte que o observa. Levanta-se assustado e caminha para trás, mudo. A mulher, clara, bela e de longos cabelos, trajando um quimono extremamente delicado, mantém os olhos fixos nele.

Entreolham-se por longos segundos, ao fim dos quais ele resolve:

– Eu sou Mu... – é interrompido, porém, com um gesto da mulher que leva o dedo à boca numa sinalização inequívoca de silêncio.

– Eu sei quem você não é – disse ela.

Aquelas palavras o atordoam e ele recua ainda mais, agora que a mulher se dirige à ponte para atravessá-la. A distância que se encurta lhe permite ver os finos traços da mulher e sua suave força. Transpõe o regato e para, com os olhos sempre atentos ao visitante.

– Quantos perseguem você? – Pergunta ela.

– Muitos.

– Não vejo armas.

– São necessárias? 

– Para uma testa tão tensa, suas palavras são bem afiadas. 

Tenta relaxar e mostrar naturalidade, mas percebe que sua encenação não lhe trará sucesso. 

– Você olha pouco para trás. 

– Atrás é só uma perspectiva.

– Para trás não há fuga, só dúvida.

– Não quero fugir.

– Então se encontre.

– É o que me move.

– Agora, sim, seu corpo e sua boca estão em harmonia.

Ao longe, ainda de forma insípida, surge o som de um tropel de cavalos. A impaciência toma conta do homem, e a mulher delicadamente, como um longo espreguiçar de garça, leva a mão às costas. O homem se assusta, recua e vê surgir uma espada longa nas mãos dela. Não há palavras.

A mulher desenha uma flor diáfana no ar com a espada, ainda na bainha, e com um movimento rápido e preciso, aproxima-se do homem e lhe oferece a empunhadura. Atônito, renascido, ele ouve:

– Siga seu caminho; não fuja dele.

Ele pega a espada, retira-a da bainha e sente a força da arma, mantendo os olhos sempre fixos na mulher.

– Cuidado com esse jardim, pois há perigos dos quais você não faz ideia. Não se demore, porque, quando esses cavalos que ouve chegarem aqui, você poderá ser um homem morto.

– Não tenho medo de morrer, pois já morri outras vezes e uma parte de mim já está morta.

– Salve, então, a parte que está viva.

– E você? Se sua espada for encontrada comigo, sua vida estará em risco.

– Todos nós vivemos em risco.

– E se for morta?

– Não tenho medo de morrer, pois já renasci outras vezes e uma parte de mim não pode ser morta.

– Você está sem armas. Como poderá se defender?

– A escola das duas espadas é minha vida. A espada mais perigosa não corta e não pode ser vista. Quando transpassa um coração, você sabe o que é a vida.

– Ninguém é capaz de sobreviver a esse golpe.

– É verdade! Morrer por ele é ter a certeza de estar vivo.

– Não entendo.

– Quando seu coração for atingido, você saberá.

– Não posso ser atingido.

– Se não for atingido, morrerá sem saber o que é viver.

O tropel se aproxima.

Ele corre, atravessa a ponte, para, vira e vê a mulher ocultando-se entre folhas. Olha para a espada, reflete alguns segundos e retorna ao ponto onde a mulher está. Oferece-lhe a espada e diz:

– Não posso levá-la.

– Por que não?

– Prefiro carregar suas palavras a sua arma.

Com um movimento único, desenha um pássaro no ar com a espada e a entrega levemente à mulher. Surpresa, ela diz:

– Você conhece as duas espadas...

– Sabia como desenhar o pássaro, não como fazê-lo voar. Sou grato a você por isso.

Os cavalos atravessam o portão no galope, fazendo voar o pássaro, o homem e a dúvida.
***

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Honorários

DECRETO Nº 10.427, DE 9 DE NOVEMBRO DE 1889

Concede ao Banco do Commercio a faculdade de emittir bilhetes ao portador, convertiveis em ouro e á vista, e approva a reforma dos respectivos estatutos.

Attendendo ao que Me requereu o Banco do Commercio com séde nesta Côrte, e achando-se verificado que, além dos recursos necessarios para satisfazer os seus compromissos, tem o dito Banco realizado, em moeda corrente, o capital minimo exigido pela Lei de 24 de Novembro do anno proximo passado, para as companhias emissoras que tenham a sua séde na capital do Imperio, Hei por bem, na conformidade da Minha Imperial Resolução de Consulta da Secção de Fazenda do Conselho de Estado, desta data, Conceder-lhe autorisação para emittir bilhetes ao portador, convertiveis em ouro e á vista, e Approvar a reforma feita nos seus estatutos, com as seguintes alterações:

[...]

Art. 64. Continúa em pleno vigor, na fórma do vencido, a deliberação irrevogavel da assembléa geral dos accionistas de 25 de Agosto de 1884, que, em reconhecimento dos relevantes serviços prestados ao Banco, desde a sua installação, pelo accionista Senador Manoel José Soares, tornou para elle vitalicios os honorarios de director, de 6:000$ annuaes, quer exerça quer não o referido cargo.

Disponível: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-10427-9-novembro-1889-543419-publicacaooriginal-53700-pe.html

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Juiz

Em julho de 1832 o juiz ordinário Gregório Luiz de Cerqueira escreve ao presidente da província dando notícia de ter cumprido o que ordenava a portaria de onze de fevereiro do mesmo ano, indo averiguar a denúncia dada por Vicente Ferreira de Souza Lobato, furriel comandante do destacamento do Indaiá, sobre assassinatos e roubos que o denunciante afirmava terem sido perpetrados por “uns crioulos monteiros no córrego da prata, distrito de Bambuí”. O juiz Gregório segue relatando: “dirigi-me ao arraial de Bambuí ainda mais apressadamente, por me constar em representação do administrador do correio desta vila, que nos lugares indicados pelo denunciante foram acometidos os estafetas que conduziam as malas da província de Goiás”.

VELLASCO, Ivan; ANDRADE, Cristiana Viegas. Criminalidade, violência e justiça na Vila de Tamanduá. Varia Historia, Belo Horizonte, vol. 34, n. 64, p. 51-80, jan/abr 2018. p.71.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Parente sim, político sim, Mendes não



***
Manoel José Soares — Natural de Minas Geraes, e nascido a 1 de março de 1829, falleceu na cidade do Rio de Janeiro, a 12 de setembro de 1893, victima de um accesso do loucura que o levou ao suicidio, sendo negociante nesta cidade, director do Banco do commercio, membro do conselho fiscal da companhia de saneamento do Rio de Janeiro e commendador da ordem da Rosa. Depois de haver representado Minas Geraes na 18ª e na 19ª legislaturas geraes, foi pela Corôa escolhido senador do lmperio em 1888, militando sempre no partido conservador. Escreveu:
Banco do Commercio, sua iniciação, fundação e installação, e narração das principaes occurrencias. Outubro, 10-1875. Rio de Janeiro, 1875, 93 pags. in-4° — Teve segunda edição no mesmo anno na typographia de Nunes Pinto & Companhia.
Discurso pronunciado na Camara dos senhores deputados na sessão de 14 de setembro de 1882. Rio de Janeiro, 1882, 55 pags. in-12º – Versa sobre assumptos do ministerio da agricultura.

BLAKE, Sacramento. Diccionario Bibliographico Brasileiro (Volume 6: Letras M-Pe). [Rio de Janeiro] : Conselho Federal de Cultura, 1970, 7 v., v. 6: 2 p. sem numeração, 405 p. Reimpressão de Off-set da edição de 1883-1902. p.144. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/5451. Acesso em: 28 jul. 2020.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...