sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

domingo, 17 de janeiro de 2021

O pardal que canta



Então, perguntei [Pedro] a ele:
- Como posso amar alguém que não me ama e que cobiça minha propriedade? Alguém que roubaria minhas posses?
E ele [Jesus] respondeu:
- Quando está arando e teu criado está semeando atrás de ti, te deterás para olhar para trás e afugentar um pardal que se alimenta de algumas de suas sementes? Se o fizeres, não é digno das riquezas de tua colheita.

Khalil Gibran. Jesus, o Filho do Homem. p.148.

***
O pardal pode ser confundido, o dono das sementes não.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Filosofia de teia

 



Na janela de meu quarto, há uma teia, não uma aranha. Há meses, convivo com aquela grinalda etérea em minha paisagem, que não me corta a visão, apenas a juventude. Não posso dizer “minha” janela, se a marca que a identifica não é minha. Aquela porta de ilusão que só meus olhos atravessam é a fronteira entre quem eu sou e quem eu poderia ser; no meio, a teia.

A teia seria um sinal de sujeira, velhice e desleixo? Será que a aranha pensa assim? Como posso destruir uma obra, sem ao menos conhecer sua criadora, essa fiandeira silenciosa, comprometida e talentosa? Não é essa tessitura uma obra do acaso, mas o fruto indiscutível de arte, técnica e suor. Não sei se aranhas transpiram; se não o fizerem, revela-se maior a perfeição do criador e da criatura.

Leio esses fios longos e esvoaçantes como os cabelos de Dulcinéia, aquela por quem os moinhos de vento fabularam uma paixão única em uma triste figura. Estão ali as garatujas dos escritores perdidos do tempo, uns talvez de amor, outros de lembrança, muitos que não tiveram tempo de se inscrever nesse mundo da escrita. Ali também estão os fantasmas, tristes figuras quase teiares, que correm o mundo esperando que alguém acredite neles, que os veja, que conte suas terríveis histórias de vida, não de além-morte, e, principalmente, que lhes dê a certeza de que são obra do criador, não por ele esquecidos.

Há uma teia que nos une todos os dias, que se repassa infinitamente, inserindo e retirando pontos, conexões, proximidades, lonjuras, belezas e dores. Essa teia, sedosa e invisível, pode ser um elo ou um grilhão, solidariedade ou prisão, companhia ou solidão. Essa rede, não aracnídea, insiste em nos mostrar que não estamos sós, somos nós.

Eis, então, que essa suave artista se revela. Com seus longos e finos dedos, esguia e de cintura bem marcada, confere cada ponto, cada nó, cada nota, naquela partitura dos tempos. Desliza por sua obra com propriedade e, num frenesi, dedilha um solo elétrico e hipnotizante. Hendrix. Extasiada, sai do palco. Logo, está de volta. É um balé: com movimentos graciosos e aéreos, voa, livre, jogada de um lado para outro por uma brisa que não se contenta em apenas assistir. Pavlova.

Essa Penélope, de tão fino tapete, não se guarda para o amado viajante, mas aguarda um outro, com sofreguidão, numa relação de poucas palavras, que possa preenchê-la de vida e sabor. Amanhã, quando as memórias forem digeridas, não haverá remorso, só saciedade e a espera de um novo par para uma nova refeição.

Agora ela está parada e me observa. Com seus múltiplos olhos, me vê muitas vezes mais, talvez de forma fragmentada, bem humana, e avalia o que faço: meu dedilhar não contém harmonia, melodia ou beleza, é apenas um teque, teque, teque monótono. Talvez pense em quão pouca técnica há em tantos teques, espaçados por um clique. Avistando meu suor, provavelmente considere o esforço grande para produção tão pequena e, curiosa, espere que minha rede, composta de palavras, espaços, orações e parágrafos, se revele promissora. Ao fim, inequívoca, afirmará: “Esse vai morrer de fome.” Piada ou profecia?

Essa esteta se recolhe e some, para não mais aparecer. Fecham-se as cortinas do espetáculo, não da 'tecitura'. A teia segue castigada pelo vento, pela chuva e pelo olhar que não a entende. Efêmera, em algum momento, será varrida do espaço, do tempo e da memória. Eterna, em qualquer momento, é a prova da memória, do tempo e do espaço.

Na janela de meu quarto, há uma criatura à margem do criador. Imagem e verossimilhança da existência.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Porta de Santo Amaro


Era uma noite única. Tomou banho, arrumou-se, fez a barba com alguns senões, pois as mãos já não tinham a firmeza de tempos mais juvenis, mas nada que o impedisse de se sentir mais novo. Acertou os cabelos, aqueles últimos e velhos remanescentes de sua vida leonina, fez uma conferência detalhada no rosto, nos dentes, nas orelhas, ensaiou sorrisos e versos, sentiu uma emoção nova e teve a certeza de que estava pronto para o jantar.

Aqueles eram dias felizes, pois a memória estava controlada, sem lapsos, e não havia esquecido nada importante há algum tempo, o que o deixava mais confiante e animado. Havia preparado um pequeno buquê de flores do campo para presentear a anfitriã e estava muito contente com a aquarela de cores que reunia. Havia amarelas, vermelhas, laranjas, violetas e outras que se misturavam, insatisfeitas com um só tom.

Olhou o relógio, confirmou a hora e também sua pequena lista diária, apesar de não tê-la usado nos últimos dias. Tudo certo, à exceção dos remédios, pois optara pelo vinho que levava junto ao buquê. Misturar medicamentos e álcool não era uma boa opção, e seu histórico recente de lembranças lhe dava a segurança de que não teria nenhum problema.

Saiu de casa, fechou a porta. O contraste entre a rua escura e o céu iluminado lhe chamou a atenção.

Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós

Um verso veio à sua cabeça e ele sorriu. Um encontro em sua idade não era dos eventos mais comuns, ainda mais com uma mulher tão única. Pensou, então, como os adjetivos mudam com os anos, pois a primeira palavra que lhe veio à mente foi “atraente”, mas que estava muito longe do sentido usual dessa palavra. Na fase em que temos contato mais com coroas do que com buquês, a atração cede lugar à atraência. Com uns anos a menos, certamente se diria eufórico naquela noite.

A força desse amor
Nos invadiu...
Com ela veio a paz, toda beleza de sentir

Outros versos vieram à mente e ele sorriu largamente. Estaria compondo uma poesia? Estaria se descobrindo poeta nessa fase da vida? Ele, que mal escrevera umas poucas linhas ao longo de tantos anos, encontrava agora uma nova inspiração? Sua confiança crescia e ele, naquele momento, via o mundo como uma grande pintura, com cores aquareláveis, em que vermelhos eram mais rubros e azuis, mais celestes.

A casa de sua anfitriã não era longe, nada que uma caminhada musical não pudesse vencer, e ele optou por cadenciar o passo para não transpirar de mais. Além disso, era uma boa maneira de limpar a mente de problemas cotidianos e focar realmente no que era imprescindível. Como as flores naquele ramalhete tão belo.

Caminhando, levantou o buquê à altura dos olhos e sentiu a fragrância delicada das flores. Lembranças olfativas lhe vieram à mente e um singelo desejo de viver tomou conta dele.

Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você...

Os versos seguiam-se em sua mente e uma onda de amor-próprio se apossou dele, até que fosse se quebrar na areia. Uma dúvida precipitou tudo: conseguiria lembrar dos versos que compunha? Bastava ficar calmo, não entrar em pânico, deixar as ideias fluírem e tudo daria certo. O vinho o ajudaria a relaxar e, talvez, até compor mais.

O vinho! Meu Deus! Esquecera o vinho. Não era possível! Havia programado a compra, o rótulo, a safra, com maior cuidado e zelo, e deixara a garrafa em casa. Olhou o relógio! Voltar ou não? Não havia muito tempo para isso e, se o fizesse, precisaria de outro transporte para chegar à casa da... da...

Não era possível! Não se lembrava do nome da anfitriã! Meu Deus, agora não! Ele não podia se esquecer do nome dela justo naquele momento, depois de tanto tempo esperando o jantar. O vinho, então, se tornou o menor dos seus problemas, assim como o tempo para buscar a garrafa.

Parou de caminhar e encostou numa parede. Fechou os olhos, respirou fundo e disse a si mesmo que ficasse calmo, era uma crise que logo passaria e que não atrapalharia seu encontro. Mudou a respiração e procurou os remédios em um dos bolsos. Não estavam. Como não estavam? Ele sempre carregava os remédios no bolso. Sentiu um calafrio e uma frustração enorme tomou conta dele.

Olhou o relógio de novo. Não viu as horas. Não dispunha de muito tempo e nada lhe vinha à mente que pudesse ajudá-lo. Ainda encostado, resolveu repassar todo o dia, a fim de buscar alguma ideia que o ancorasse naquele mar de dúvidas em que se encontrava.

Meu amor...
Vou lhe dizer
Quero você

Aqueles versos que não paravam de ocupar seus pensamentos. Não! Com tantos anos da vida para se fazer poeta, logo naquela hora, em que não podia dividir a mente, eles surgiram com força. Um desespero começou a brotar dentro dele e a aflição do fracasso iminente disparou-lhe o coração, ressonando as batidas nos ouvidos. E agora?

Escorregou mantendo as costas na parede e caiu sentado, desanimado, desamparado, mudo. Ainda desnorteado com toda aquela situação, lembrou-se de equilibrar a respiração para manter a calma. As lágrimas lhe correram pela face, e o sentimento de impotência lhe invadiu, mostrando a ele, brutalmente, que os anos não podem ser enganados.

Com a respiração restaurada, um feixe de clareza começou a brotar nele. Decidido, levantou-se, bateu a mão na roupa para retirar a poeira e seguiu rumo à casa da anfitriã. O buquê, fielmente em suas mãos.

Com a alegria de um pássaro
Em busca de outro verão

Que versos eram aqueles? Um pensamento aflorou: não eram versos dele, não era ele um poeta, mas um copiador, um ladrão de versos estúpido, que mal sabia de quem roubava e dizê-los só aumentaria sua vergonha e limitação.

Pouco tempo depois, chegou à casa do jantar e parou à porta.

Na noite do sertão

Que porta era aquela?

Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei

Não reconheceu a porta. Estaria no endereço certo? Teria confundido o local? Haveria uma mulher realmente a esperá-lo, ou tudo não passaria de uma ilusão de sua mente senil? Sentiu a boca seca e as mãos transpirando. Um buquê. Que buquê era aquele?

Tomado de pavor, encarou a porta e sentiu o coração bater por ela. Era simples, de um tom azulado do fim das tardes de inverno, esmaecido, em que se percebe que o tempo chupou, tal como uma laranja, grandes partes da cor original, deixando apenas a lembrança que o bagaço já foi fruto.

Havia uma ferida na lateral, que sangrava e escorria pelo chão, mas que lutava, maternalmente, para gerar uma semente que partia rumo ao céu. Não era uma trepadeira, era uma sobrevivente, uma planta que não aceitou a limitação, a ausência de solo, de carinho e de atenção, e rasgou nas entranhas da casa uma fábula de querer viver apesar de tudo. Não, não era uma ferida, era um sonho.

Não satisfeita de fugir do destino de erva, de mato, aquela planta abraçou a porta, a cobriu, a protegeu e com ela se uniu. Casaram-se. Agora, aquele véu florido pertencia a ambas, tão parte, tão arte, que a porta não se reconhecia mais como mera fronteira entre dois mundos, mas como única existência, flor.

O degrau, comido por pés ora aflitos, ora displicentes, se juntava ao chão, fazendo uma comunhão rasteira, nunca rasa. Certamente, jamais seria casa, mas encontrou sua essência se fazendo chão. Não havia glamour, nem louvores, nem presentes e adulações, mas a felicidade do degrau não exigia um próximo passo, apenas um pé que o empurrasse ao encontro de seu par.

As flores daquele véu lhe chamaram atenção e uma luz distante, mínima e solitária piscou em sua mente: o nome dela era uma flor. Isso! Graças a deus! Sua anfitriã tinha o nome de uma flor, começava a se lembrar. Agora, era se acalmar e pensar nas opções, pois logo se lembraria de todos os detalhes. O pior já passara.

Começou a listar nomes de flores que podiam ser também próprios: Margarida, Rosa, Hortênsia... Begônia, Petúnia... Líria, Girassola, Crava, Cinamoma... Algo não estava certo... Aqueles nomes que vinham à mente eram realmente de flores? Um sentimento de que não eram começou a surgir e a sufocá-lo. Henriqueta, a flor... Henriqueta, sim, era flor, disso não tinha dúvida, e aquele sorriso enigmático lhe invadiu com serenidade e encanto. Quem era Henriqueta?

Olhou o relógio: as horas estavam lá, mas não lhe diziam nada. Voltou os olhos para a porta, percorreu-a de ponta a ponta, virou-se para a rua e, aéreo, não percebeu movimento naquele mar de solidão. Meteu a mão no bolso e não encontrou os remédios. Na outra mão havia um buquê. Que flores eram aquelas? Será que o nome que procurava estava em suas mãos e ele não reconhecia?

Era melhor seguir em frente e jogar fora para sempre aquele encontro, de cuja companhia ele nem se lembrava, ou era melhor voltar para casa e tentar recomeçar depois, tomando os remédios e seguindo suas atividades de memorização?

Não teve tempo de optar, pois a porta se abriu. Uma mulher atravessou o marco e, vendo-o ali, exclamou animada:

– Amaro! Boa noite! Você chegou agora?

Uma onda de calor tomou conta dele e um sorriso brotou-lhe incontinente. Tentou dizer alguma coisa, mas as palavras não saíram.

– Você está muito elegante, viu?

Cada palavra doce e gentil agitava seu corpo.

Tentou articular alguma frase, sem sucesso, emitindo apenas um rosnado inaudível.

– O que é isso em sua mão, Amaro? É um buquê?

– É...

Os olhos dela brilhavam.

– É... – voltou a dizer ele.

Um silêncio costurou os olhares de ambos.

– É...

Engasgou-se com os pensamentos, enquanto lutava com os lábios mudos.

– É...

– Que lindo! – Disse ela.

Uma torrente reprimida e incontrolável disparou:

– É para você, minha flor.

Sem saber como havia dito aquilo, viu um buquê branco surgir nos lábios da mulher, enquanto o rosto dela se tingia de vermelho.

Ele retribuiu o sorriso e esticou a mão com as flores para ela.

– Obrigada – disse ela um tanto desconcertada. – Vamos entrar. – Recolheu as flores com uma mão, levando a outra até a mão dele. Entraram juntos, de mãos dadas, e a porta se fechou.

À mesa, esqueceram-se de tudo.
***

Aquarela de Marci Nunes (@marci_nunes) e poesia de Flávio Venturini (@flavioventurinioficial), Céu de Santo Amaro.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

É, de repente

E de repente é noite
Salvatore Quasimodo

Cada um está só sobre o coração da terra
Trespassado por um raio de sol:
E de repente: é noite.
Trad.: Ernesto Sampaio
***

Cada um tem só, sobre o coração, a terra
Trespassada por um raio de sol:
E, de repente, a vida se fez poesia.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Estupro culposo

A violência do crime se repete a cada vez que essa construção esdrúxula (pobre língua!) é pronunciada. Nossos ouvidos e nossa dignidade são violados, repetidamente, enquanto houver um miserável que se ampare e creia nessa odiosa tese.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Meia-verdade

Imagem de holdmypixels, by Pixabay. 

Ennio Alberto Filho e Humberto Mendes 

Em uma entrevista de emprego, o entrevistador, ao ler o currículo do candidato, identifica “curso superior incompleto” e questiona o entrevistado o quanto exatamente é “incompleto”. O candidato responde que passou pelo vestibular, cursou um mês e trancou a matrícula. “Um mês?” pergunta o entrevistador, e “Sim” responde o candidato. “Isso é incompleto?” perguntou um, “Bastante incompleto, senhor”, respondeu o outro. 

Nessa breve história, fictícia em relação à entrevista e verídica em relação ao currículo, destaca-se uma questão bem contemporânea: a meia-verdade. Apesar de consideravelmente velha, talvez ainda não tenha sido estudada com a profundidade com que merece, pois, sem dúvida, está, senão em patamar semelhante, muito próximo àquele ocupado pelas fake news, pela pós-verdade e mesmo pela mentira. 

Sem dúvida, a meia-verdade se confunde com a meio-verdade, que muito se aproximam, mas que não são idênticas. As normas linguísticas elucidam esse parentesco (meio x meia), mas é inegável, do ponto de vista lógico, que tudo que contém um pouco de verdade precisará conter um tanto de não verdade para ser inteiro, valendo o mesmo para a mentira. 

Antes da metade, é importante focar o inteiro. O que é a verdade? Certamente, a filosofia está mais bem preparada para debater esse tema, mas se pode considerar a verdade um conceito e uma realidade que coabitam com união de bens e com separação litigiosa simultaneamente. Essa é uma afirmação um tanto questionável, o que afirma seu caráter propositivo e provocativo, próprio do movimento reflexivo a que se propõe este texto. 

Por que a verdade pode ser um conceito? Porque pode ser discutida, debatida, contestada e até mesmo negada, apontem os fatos ou não para essa possibilidade. Por que pode ser uma realidade? Porque pode ser factual, visível, sensível e científica. A proporção entre conceito e realidade determinará o quanto uma verdade é “inteira”, se há inteireza entre meias, metades, meios e fins. 

O ponto central que se pretende debater neste texto é a quantidade de energia gasta atualmente para se discutir uma meia-verdade, para reafirmar dois lados complementares, mas sem se buscar uma visão outra que possa resolver a questão como um todo e permitir que haja um avanço não só epistemológico, mas também humano. 

Um exemplo modesto é o copo com água até a metade de sua capacidade. Meio cheio? Meio vazio? Aqui há possibilidades simbólicas variadas de leitura e interpretação, mas, do ponto de vista pragmático, se aquele “meio copo” é uma questão a ser debatida, o foco deve ser o quão relevante é faltar ou conter no copo. Se o conteúdo do copo não for um problema, o melhor é não perder tempo nem com ele nem com o outro. 

Um exemplo mais ácido é o momento pelo qual passamos, de pandemia, em que economia e saúde pública têm se chocado. Não deveriam se chocar, pois precisam caminhar juntas, paralelamente, e o princípio matemático básico prevê que duas retas paralelas jamais se encontrarão, logo jamais se chocarão. Então por que discutir se é melhor focar em uma ou outra neste momento? É o mesmo que discutir se o copo do parágrafo anterior é o mais indicado para conter água. 

Economia e saúde pública devem ser pensadas juntas, sistemicamente, partes inseparáveis das políticas de Estado e do dia a dia de cada ente de um grupo social. O debate a ser promovido é sobre como conciliar ambas, como, eventualmente, permitir que uma avance um pouco agora até que a outra possa alcançá-la depois, como responder às inúmeras demandas de saúde pública que o Brasil exige diante de um quadro de recursos limitados e, muitas vezes, já comprometidos. 

Muitas vezes, grupos antagônicos defendem pontos de vista distintos, mas não excludentes, apenas “meiados”. Dizer que a culpa é do governo não resolve nada, assim como afirmar que a população não faz a parte dela não melhora a situação. Não se busca aqui uma politização do debate, mas observe: a culpa é do governo? Primeiro, essa frase precisaria ser completada: culpa de quê? Se a resposta for sim, é culpa só desse governo? Então essa situação veio do governo anterior: só dele? Ah, não, do anterior também e dos anteriores “antecessivamente.” Não há dúvida de que encontrar uma solução e resolver os problemas, pelo menos no primeiro momento, é infinitamente melhor do que discutir e não avançar. Mesmo que a culpa seja desse governo, buscar incialmente a solução é o mais sensato. 

Há uma questão central na meia-verdade sobre a qual sempre se deve ater: se uma proposição pode ser classificada como meia-verdade, de que será constituída sua outra parte? Um meia-verdade implica uma meia-mentira? Uma meia-verdade é uma meia-mentira que não se realizou, e vice-versa? 

É preciso “certo repertório”, como afirma Luiz Felipe Pondé, para poder se desvencilhar desse jogo fracionário da atualidade. Entende-se “repertório”, aqui, como um fazer compartilhado de e por informação, cultura e sabedoria. Podem não ser tudo de que se precisa, mas, certamente, serão os itens iniciais para um conhecimento que não será completo jamais, mas conseguirá ser muito mais do que incompleto. 

Texto publicado no LinkedIn em 29 de outubro de 2020.

domingo, 25 de outubro de 2020

Da bênção, o samba

Este post foi publicado originalmente em 2011, bucaneado do "Samba da Bênção", de Vinícius de Moraes e Baden Powell. Passados nove anos, algumas lacunas foram preenchidas e hoje, no dia de aniversário de 12 anos deste blog, eu o republico como agradecimento a todos que me dão a honra de passar por aqui.
***

Agradecimento a Vinícius de Moraes e Baden Powell

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
[...]

Eu, por exemplo, o bicho do mato
Humberto Mendes
Editor e bucaneiro
O branco e preto mais torto do Brasil
Na linha direta de Quixote. En gard!
A bênção, Dona Quiméria,
a maior vidente de BH,
terra da eterna luta no varal.
A bênção, Cônego Belchior,
tu que me ensinaste na vida
todos os matizes de nossa dor.
A bênção, Chocô, a bênção, Tadeu,
A bênção, Padre Dulinho,
Sua bênção, Ninico, primo dos prazeres
A bênção, Tio Lauro,
A bênção, Dr. Ezequiel,
A bênção, Geraldinho,
você, sobrinho de Cesarinho,
o inesquecível.
A bênção, José, meu pai,
o severo, o menino.
A bênção, todos os grandes
caneteiros do Brasil
preto, mulato, branco,
lindo como a pele macia de Otsu.
A bênção, maestro Cesário Mendes,
companheiro de blog e avô querido,
que já viajaste tantas letras comigo
e ainda há tantas por viajar.
A bênção, Clóvis Habibe,
parceiro cem por cento
você que une a palavra ao sentimento
e ao pensamento.
A bênção, Baden Powell,
A bênção, Vinícius de Moraes,
que fizestes este samba
que agora bucaneio.
A bênção, Sr. Luiz, meu avô,
companheiro de blog,
que me ensinaste o engenho dos adjetivos.
A bênção, Tio Lulu,
o único, o múltiplo,
os mais Mendes de todos os Mendes,
incluindo meu Tio Sebastião.
En gard!
A bênção, que eu vou partir
eu vou ter que dizer adeus.
[...]

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...