segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Uivo da Noite

Partiram de Recife em 15 de novembro a bordo d' O uivo da noite em direção a Agadir, no Marrocos. A tripulação era bastante numerosa, o que exigia muitos víveres e utensílios, o que foi perfeitamente atendido graças à habilidade do Capitão Stevenson. Esse escocês, proprietário do Uivo, tem como imediato uma figura peculiar, de nome Long John Silver, muito habilidoso com cartas náuticas e também com uma espada, ainda que possua uma só perna humana (a outra é obra de um marceneiro).

O cirurgião do navio é o Dr. Jekyll, um bom homem, conhecedor da ciência e também da palavra de Deus. Há também um passageiro "eventual", de nome Mr. Hide. Pouco afeito a contatos sociais, é sempre visto à noite andando pelo convés, com um passo agitado e movimentos abruptos. Apesar da dimensão do navio e de a tripulação ser numerosa, não se sabe em que cabine Mr. Hide se recolhe. Sobre ele, o Capitão Stevenson diz que é um amigo de infância e pede para que ninguém se incomode com Mr. Hide, pois, certamente, a recíproca será verdadeira.

Dona Quiméria não gosta de Mr. Hide, acha que é um passageiro inoportuno. Chicão é desafeto declarado de Mr. Hide, e, não raras vezes, em suas caminhadas pelo convés, o homem é visto a rosnar para o cão, que responde a ele com não menos dentes.

Long John Silver assegura que Mr. Hide é importante para o Uivo, ainda que seja tão estranho, sobredito esquisito. Afirma o imediato que, em suas longas viagens, descobriu que nem só de bons homens é feita uma tripulação e que, às vezes, é necessário ter um homem de sangue negro no navio. "Quando os canhões abrem fogo e o mar escancara as portas do inferno, são esses homens que sabem como dobrar o demo", afirma John Silver.

A viagem transcorreu bem, com duas tempestades mais memoráveis e algumas aproximações dignas de nota. Pelo Uivo da Noite, cruzaram o Beagle (que, segundo relatos, navegava em direção a Galápagos), o Peregrino da Alvorada, o Pequod (que causou um calafrio em Dona Quiméria) e outras dúzias de galeões de diversas nacionalidades.

O único grande perigo ocorreu já nas proximidades de Agadir, quando pequenas e inúmeras embarcações buscaram se aproximar do Uivo. Nesse momento, um grito seco de John Silver cortou os ares, e um uivo arrepiante rasgou as ondas que confrontavam o navio. Capitão Stevenson assumiu o leme, enquanto Long John Silver, numa agilidade fantástica, entoava ordens aos quatros ventos do navio. A tripulação, em armas, aguardava a aproximação daqueles piratas modernos, naqueles curtos momentos que antecedem a eternidade.

Nesse momento, pela primeira vez, viu-se Mr. Hide em plena luz do dia, com o cabelo despenteado e os olhos vermelhos inundados em sangue. Não dizia nada, apenas mastigava as palavras que insistiam em chegar à boca.

As mãos contraídas e os punhos cerrados de Mr. Hide, contudo, perderam-se com a retirada das embarcações. Não se sabe o motivo, mas não houve um tiro sequer, apenas um movimento circular de retorno e abandono. Parte da tripulação comemorou aquele sucesso, enquanto Mr. Hide, calado, triturava freneticamente a ira e o ódio que perdera naquela evasão. Mais bestializado que antes, seguiu para a cabine de Dr. Jekyll e não mais foi visto durante a viagem.

Desembarcaram em Agadir em 15 de dezembro, durante as cores únicas da alvorada. À frente, Dona Quiméria exibia o estandarte alvinegro e bailava naqueles movimentos únicos de porta-bandeira, conduzindo aquele imenso cordão alvinegro rumo a Marrakech.

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