- Mininada, junta as coisa que nós tamu de partida. Viemu, vimu e vociferamu.
A bordo do Uivo da Noite, no convés, Dona Quiméria acariciava Luisinho enquanto se afastava do litoral de Agadir. O sentimento do dever cumprido era pessoal, mas não a satisfazia, não a alegrava, não a preenchia. Engasgada com as ideias, aproximou-se da cabine principal e disse:
- Mininada, atenção! Eu queria dizê uma coisa que tá me intalando aqui. - e colocou as mãos sobre o peito. - Nós saímu do Brasil e andamu meio mundo para acompanhá o Galo, e ainda acho que nós viemu sozinho. Ondé que o Galo se meteu? Cadê os jogadô? Cadê a nossa camisa? Nós rasgamu o mundo todo dibaixo de sol e de chuva pra jogá duas veiz de branco? A camisa branca é a reserva, e no nosso time só joga titulá. Será pussíve que ninguém percebeu que a gente tava sem alma com a camisa branca? Que o manto que identifica nosso povo é o preto e branco? - baixou a cabeça e irrompeu colérica: - Eu num vô guentá: Que meeeeerrrrrrrrrrrrdaaaaaaa!!!
Todos olharam surpresos, afinal daquele boca não saíam aquelas palavras. Naquele momento saíram.
- Eu tentei controlá, mas num guentei. Agora falei. Num é a camisa que ganha jogo, mas nós somu alvinegro até a alma, nós num podia aceitá isso desse jeito. A camisa que briga no varal desde o 6° dia é a preta e branca, num é a branca. A culpa num é da camisa branca, ela tamém tem história, mas as listra faz falta. Num podemu ficá sem o misturado. Quando nada dá certo, temu que contá é com ele.
Calou-se. Todos a olhavam fixamente. Iniciou um movimento com o braço, mas sem concluí-lo. Sentou-se e permaneceu olhando o Marrocos que se distanciava.
Naquela noite, deitou-se mais cedo e sonhou sem cores.
Naquela noite, deitou-se mais cedo e sonhou sem cores.
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