O tempo não é uma entidade cartesiana.
A trindade temporal é una, à imagem e semelhança divina, a qual nos abençoa e nos provoca ininterruptamente, a fim de que a essência dos dias seja decifrada. Ontem, hoje e amanhã são uma só história, um só espírito, não uma só matéria. A materialidade é um suporte em que (re)escrevemos nossa história. Preciso reescrever uma parte agora.
Em 2009, no texto “A banda”, prestei uma homenagem a meu tio Cesarinho, o prático, e a muitos de meus parentes que tanto admiro. Em 2011, reencontrei-os em “Samba da bênção”, no qual refaço a minha história de minha família. A intenção é sempre manter a memória viva daqueles que me (e nos) antecederam e que graças a eles e por causa deles sou (somos) hoje o que sou (somos).
Na quarta, meu tio Sebastião, o discreto, a quem já havia citado em “Silêncio e esperança”, partiu para a casa do Senhor. Ontem, após as exéquias, familiares me procuraram para relatar o desconforto que causei a um dos citados com “A banda”, de 2009. Entre nós, os Mendes, é corrente o ditado popular que “O inferno está cheio de boas intenções”, motivo esse que me leva a fazer uma reparação com um pedido de desculpas.
Acredito que o texto de 2011 citado acima não deve ser do conhecimento de todos os que conhecem o de 2009, principalmente pelo fato de o de 2009 ter ganhado vida impressa por mãos de outros. Certamente, se o de 2011 tivesse a mesma repercussão de seu antecessor, esse desconforto já teria sido superado. O fato, porém, é que não o foi, e espero que o seja agora.
Alguns de nossos traços familiares não são os mais politicamente corretos, mas não são ilegais, nem imorais, nem imortais. Podem ser mudados, tantos já o foram, alguns são mais reticentes: esse é o ciclo. Cada um de nós, os Mendes, contribui com um capítulo nessa história, que serve de apoio para um próximo, esteja ele na mesma geração, na seguinte ou naquela que ainda nem sabemos que virá. Assim é.
Desse modo, quero me desculpar publicamente pelo mal-estar que causei com meu texto e pedir a esse Mendes, também Cerqueira, que estique generosamente a mão e me busque do “inferno das boas intenções”, diferentemente da história de Lázaro e do rico, para o qual não houve salvação. Ainda há tempo, ainda há graça. As duas.
Sua história é a minha. É a nossa.
Com a admiração, o respeito e o afeto de sempre.
B.M.
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