domingo, 15 de março de 2020

A flor dos Mendes


Minha amada Queta,

Comemoramos hoje mais um ano de seu nascimento, e quero oferecer a você um buquê de flores, belas, algumas excêntricas, mas sempre únicas, das famílias que você tão bem conhece e das quais você é a principal: as Mendes e as Cerqueira. Reconheço a beleza de sua mãe, Dona Carolina, mas quis o destino que ela não empunhasse nem Mendes, nem Cerqueira. Sua irmã Maria, mais velha que você, certamente carregava em si a semente, mas, de forma semelhante, quis a história que não houvesse germinação. Coube a você, Queta, a alegria, a beleza e a dor de iniciar as linhas de nossa história, e por isso hoje, 15 de março, festejamos sua vida.

Espero que o Major leia esta carta com você e que, se o coração dele se encher de ciúmes por causa da “amada” que abre esta carta, releve o sentimento tão próximo que nos sustenta. Entendo o ruído dessa “intimidade”, pois poucos (ou pouquíssimos) maridos estão aptos a perceber essas nuances de sentimento, esse espectro de cores de que é feito o amor e do qual são inúmeras as combinações, todas elas carregadas de ardor, mas que não se pintam apenas de vermelho. O pintor de uma cor só não sabe o que é arte.

Nesses tantos anos, o buquê dos Mendes iniciado por você está repleto de flores. Sempre lindo, perfumado e maravilhoso. Como, porém, nem tudo são flores, com perdão do trocadilho, esse nosso buquê está incompleto. Sei que esse assunto é espinhoso, mas não abordá-lo é permitir que insistamos nessa lacuna, quando, na verdade, deveríamos ter uma coluna.

Sim, Queta, é a Cerqueira que deveria ter sido Mendes. Lembro-me de quando ralhou comigo de forma irascível, literalmente me pondo a correr. Hoje parece engraçado, mas no dia foi assustador. Espero que tenha superado esse desencontro e que eu possa contar com seu apoio e afeto para esse fim.

Dizer que vou atrás dela seria uma incoerência, pois estou atrás dela há muito tempo. Tenho conversado com muita gente, evidentemente sem revelar que a procuro, e muitas informações importantes têm surgido. Quando encontrá-la, teremos a chance de fechar um ciclo e avançar em nossa narrativa.

Antes de terminar, quero dizer que, na última semana, encontrei-me com uma Cerqueira, ainda que sequer ouvisse sua voz. Ao contemplá-la, cabelos, pele, olhos, boca e andar, tive a exata certeza de que se tratava de uma Cerqueira e me lembrei muito de você. Alegrei-me por vê-la. Não, Queta, certamente não era Mendes, e a mim não cabe dizer se o futuro a fará familiar ou não. Minha narrativa é de agora. Amanhã é um dia de outro autor.

Que seus anos sejam sempre lembrados pelos seus, pelos nossos, para que saibamos que, da costela de que viemos, nasceu uma flor; do barro soprado, voou uma pétala; da imagem e semelhança, ficou-nos a beleza.

Com o amor de sempre.

B.M.

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