quinta-feira, 9 de abril de 2020

Graal - parte II

O silêncio permaneceu por um longo período.

- Cristão, vendo-o daqui, na condição em que se encontra, faz realmente diferença para você quem sou eu?

- Ajude-me, estranho. Dê-me água!

- Beba, cristão. Essa é a água da vida.

Sentiu algo tocar-lhe as mãos e percebeu que se tratava de um cálice. Bebeu avidamente, deixando que grande parte escorresse pelo corpo.

- Mais! - Implorou o homem.

O estranho tomou o cálice dele, encheu-o e estendeu a mão:

- Aqui.

Bebeu rapidamente e pediu mais.

- Sim, cristão, mas cuidado para não quebrar o Graal.

O mundo parou.

- O que disse?

- Cuidado para não quebrar o Graal - respondeu o estranho.

O homem apertou fortemente o cálice, buscando cada recorte daquela peça, contornando cada curva, cada saliência. Cheirou, bateu nele com os dedos, alisou-o.

- Que brincadeira é essa? Por que chama esse simples cálice de Graal?

- Cristão, esse é o Graal. Por que você pensa que estou brincando?

- Você, estranho, de quem não sei o nome, não deveria usar o sacro nome do cálice sagrado nesse cálice miserável! – Disse mostrando irritação.

- Esse cálice “miserável”, cristão, está salvando sua vida. Essa que você bebe é a água da vida, ou sua fé não é suficiente para mostrar-lhe esse gosto?

O homem agarrou-se ainda mais ao cálice.

– Dê-me. – Pediu o estranho. – Beba mais.

O moribundo protegeu o cálice como se o outro pudesse roubá-lo.

– O que há? Não quer mais? Já está salvo?

Com uma mão segurando o objeto, levou a outra aos olhos, desesperado pela visão que lhe faltava.

– Sua fé precisa dos olhos, cristão?

O homem estava desnorteado. Não sabia o que dizer, o que fazer. Talvez agora pudesse chorar, gritar, levantar e se jogar sobre o estranho...

– Dê-me sua mão, estranho. Deixe-me tocá-la!

– Você procura as chagas?

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