quarta-feira, 8 de abril de 2020

Graal - parte I

De uma noite que andei longe

Não conseguia mais dobrar o joelho da perna direita, pois a dor era insuportável. O esforço com todo o lado esquerdo do corpo para puxar o direito esmagava os pensamentos, e as ideias se embolavam na mente. Não conseguia organizá-las, o que o tornava ainda mais perdido, pois o caminho já não o sabia há muito.

Topou com algum obstáculo pelo caminho e logo foi ao chão. Desmaiou. Sonhou: um sonho vazio, silencioso, branco. Uma onda de horror tomou conta dele e um projeto de grito que não se concretizou o despertou. Trevas.

Não enxergava.

Não era noite.

Estava cego.

Tentou gritar, mas a garganta seca não respondeu. Levou as mãos aos olhos, socou a própria cabeça, desesperou-se e o choro se irrompeu. Seco como aquelas areias em que se estendia.

Era o fim.

Invocou o nome do Santíssimo, pedindo à Mãe que intercedesse por ele.

Um vento seco riu dele.

Tentou gritar outras vezes, mas a dor na boca árida só crescia. Desmaiou novamente.

Dessa vez, não houve sonho. Só o nada.

Despertou sentindo o calor do sol e, com esforço, sentou-se. A certeza da morte tomou conta dele e fez brotar uma reflexão agreste. Dedicara a vida a encontrar o Santo Graal, a servir à Cristandade e à glória do Pai, mas agora estava só.

Não apenas só. Velho, doente, machucado, há dias sem comer ou beber, com dores terríveis na garganta, cego, castigado pelo sol, perdido. Meio morto, meio vivo. Só.

Sem forças para levantar ou mesmo para pensar, ficou onde estava. Sentado. Seco.

Acordado, sonhou com o Graal, com o cálice, com a vida eterna. Com a glória.

- Ei, cristão!

Essa voz chamou-o à realidade e fez com que piscasse os olhos freneticamente. Sem resultado, esfregou as mãos nos olhos na vã esperança de ver quem era.

- Quem é? Quem está aí?

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