O homem se lançou desesperadamente à frente na expectativa de se agarrar ao estranho, mas só encontrou areia e pedras. Sentiu algo quente pela face e, levando a mão, encontrou um filete de sangue que jorrava.
– Quem é você, desgraçado? Que zomba de um moribundo e usa a sagrada escritura para escarnecer de minha miséria? Que tipo de homem é você? Ou você é um demônio, tal qual aquele que tentou o Salvador?
- Devo admitir que você conhece a Bíblia, cristão, mas não posso dizer que você a entende.
Com um movimento rápido, tomou o cálice da mão do homem.
– Não! – Gritou o moribundo.
– O que há, homem? Se não acredita em mim, por que se agarra ao cálice?
Sujo, coberto de areia e com uma máscara de poeira e sangue, tentou se levantar. O corpo disse não.
– Beba mais, cristão. Quem sabe assim você consegue limpar seu coração.
O homem virou-se lentamente e esticou o braço. Tocou o cálice. Pegou e o levou a boca. Vazio.
- Desgraçado! Não bastasse minha dor, você ainda zomba de mim?
Nesse momento, sentiu água tocando-lhe o rosto: o estranho a jogava nele.
- Aí está sua água, cristão. Ou você precisa do cálice para salvar-se? Você crê na palavra ou na materialidade do objeto? – Disse tomando-lhe o cálice.
O vento seco riu novamente.
- Você caminhou muito para não chegar a lugar nenhum. Aproveite essa água, lave os olhos e encontre o caminho de sua casa.
- Estou cego! – Gritou o homem. – Como vou a algum lugar?
- Cego você é há muito tempo, mas mesmo assim chegou até aqui. Pergunte-se como.
O estranho se afastou.
- Não me deixe aqui, estranho!
- Adeus, cristão.
- Quem é você? Qual seu nome?
- Lembre-se de mim como o homem do Graal.
- Maldito! Não zombe da Cristandade!
O estranho riu brevemente.
- Espero que a água da vida, em algum momento, toque seu coração. Sua jornada está perdida, mas a semeadura ainda não acabou. Desperte e salve-se. Ninguém o fará por você. Enquanto buscar fora, o interior estará vazio.
O moribundo tentou gritar, mas sua voz estava presa na noite.
***
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