sexta-feira, 10 de abril de 2020

Graal - parte III

O homem se lançou desesperadamente à frente na expectativa de se agarrar ao estranho, mas só encontrou areia e pedras. Sentiu algo quente pela face e, levando a mão, encontrou um filete de sangue que jorrava.

– Com estupidez, esse sangue que escorre de seu rosto pode matá-lo. 


– Quem é você, desgraçado? Que zomba de um moribundo e usa a sagrada escritura para escarnecer de minha miséria? Que tipo de homem é você? Ou você é um demônio, tal qual aquele que tentou o Salvador? 

- Devo admitir que você conhece a Bíblia, cristão, mas não posso dizer que você a entende. 

Com um movimento rápido, tomou o cálice da mão do homem. 

– Não! – Gritou o moribundo. 

– O que há, homem? Se não acredita em mim, por que se agarra ao cálice?

Sujo, coberto de areia e com uma máscara de poeira e sangue, tentou se levantar. O corpo disse não. 

– Beba mais, cristão. Quem sabe assim você consegue limpar seu coração. 

O homem virou-se lentamente e esticou o braço. Tocou o cálice. Pegou e o levou a boca. Vazio. 

- Desgraçado! Não bastasse minha dor, você ainda zomba de mim? 

Nesse momento, sentiu água tocando-lhe o rosto: o estranho a jogava nele. 

- Aí está sua água, cristão. Ou você precisa do cálice para salvar-se? Você crê na palavra ou na materialidade do objeto? – Disse tomando-lhe o cálice. 

O vento seco riu novamente. 

- Você caminhou muito para não chegar a lugar nenhum. Aproveite essa água, lave os olhos e encontre o caminho de sua casa. 

- Estou cego! – Gritou o homem. – Como vou a algum lugar? 

- Cego você é há muito tempo, mas mesmo assim chegou até aqui. Pergunte-se como. 

O estranho se afastou. 

- Não me deixe aqui, estranho! 

- Adeus, cristão. 

- Quem é você? Qual seu nome? 

- Lembre-se de mim como o homem do Graal. 

- Maldito! Não zombe da Cristandade! 

O estranho riu brevemente. 

- Espero que a água da vida, em algum momento, toque seu coração. Sua jornada está perdida, mas a semeadura ainda não acabou. Desperte e salve-se. Ninguém o fará por você. Enquanto buscar fora, o interior estará vazio. 

O moribundo tentou gritar, mas sua voz estava presa na noite.

                                                                            ***

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