quarta-feira, 11 de maio de 2016

Arroz com feijão

- Alô?! Alô?! É o Adisle?
- ...
- O Adile? Técnico do Galo? É a Quiméria, meu fio.
- ...
- Isso, Dona Quiméria.
- ...
- Isso memo que eu falei. Aguirre. O que que eu falei? Adilio. Isso. Aguirre.
- ...
- Adilio, tô ligando pr’ocê pra ti lembra que nós tamu no Brasil e aqui quem manda é o arroiz co’fejão. Tá ovino? Arroiz co’fejão.
- ...
- Num tá entendeno? Vô ti explica. Nós gostamu, Adile, é de arroiz co’fejão, que é um prato simples, mas muito bão. Nós comemu uma feijoada as veiz, uma dobradinha, um pé-diporco, mas o de todo o dia é arroiz co’fejão.  Ele é bão, hoje num tá barato, mas é o que nós  gostamu, deixa a gente cheio e dá força pra trabaiá. Intendeu?
- ...
- Intão, quando o Galo fô entrá em campo hoje, Adilio, faz um arroiz co’fejão e num inventa: iscala o time certinho, sem querê misturá catraca de canhão co’ conhaque de alcatrão. O povo atleticano sabe o time que tem que jogá e num tá aguentado s’as bizarria.
- ...
- O esqueleto do Galo, Adile, tem que tê o abençoado do Vito, o Léo Silva, o General no meio, o Carioca do lado dele, o Douglas de um lado e o Marcorrocha do outro, o Urso no meio e o Pratto na frente. Por falar nele, ocê sabe por que que todo mundo gosta do Pratto? Porque ele sabe fazê o arroiz co’fejão, Adisle. Ele num inventa.
- ...
- 8 é um número mágico, bobão, e o time num tá incompleto não, Adilio. Só tem oito, porque o Luan tá machucado (Eta! Tá fazeno uma falta danada!), o Dato tá machucado (otro que tá fazendo muirta farta) e o Robin veio, ma’ num trouxe a bicicreta dele. Tá pedalando poco e, quando pedala, num disenvolve.
- ...
- Aguiro, quando ocê chegô no Brasil, nós já jogava futebol há muitos ano. Mió: quando ocê nasceu, nós já jogava. Intão, num acha que ocê sabe dimais não, porque isso é mentira. A cigana que ti falô isso recebeu pra ti conta essa história, ela num falô digraça. Ocê é um minino esforçado, ma’ num é hora de inventá. Faz o simples, faz o arroiz co’fejão.
- ...
- Ocê cunhece o Rei?
- ...
- Esse tamém é, ma’ tô falano do Galo: o Reinaldo. Ocê viu ele jogá? Nem na televisão? Vô ti conta intão pr’ocê num isquecê: quem via ele jogá ficava se perguntando porque todo mundo num era igualinho ele. Era simples dimais, Adilio. Parecia que futebol era uma coisa tão boba de tão simples que ele fazia. Ma’ isso, Adislio, era purque ele era foradissérie, craque. Ele num precisava de cigana pra ovi isso.
- ...
- Pega esse exemplo, intão, é faz quinem. Simples, meu fio. Simples. Prepara um arroiz co’fejão hoje bem mineiro no primeiro tempo, dispois ocê bota um cadinho de farinha, segura isso nos quarenta e cinco. No segundo tempo, estrala um ovo, fritinho, disco-voador memo, dispois refoga uma couve com calma e fecha com a linguiça. Desse jeito.
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- Num precisa inventá a roda, Adislio, ela já foi inventada. O Levi, que tava antes d’ocê, é um minino bão, gosto dele, ma’ ele tamém gostava de inventá, dava sorte de veiz em quando, ma’ a sorte gosta de viajá e tem hora que ela num vorta. Intão, se ocê num inventá, a chance de dá certo é mto maió, porque arroiz co’fejão num erra.
- ...
- Dumingo, Aguisrre, ocê já inventô dimais e acabô entregano o oro pro’s bandido. Já tem gente chamanu ocê de tapir. É, tapir.
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- Bão... eu num ia querê esse nome pra mim... Se é ofensive? Não, claro que não... Dependi de como ocê vê a natureza. Má num preocupa com isso hoje, não, Aguire, pensa só no jogo e na simplicidade. Se ocê num agarrá, Aguirre, o time vai fazê a parte dele. A torcida sabe disso.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Desanular

o verbo "desanular" é defectivo
o verbo "desdesanular" também
só se conjugam por uma pessoa

até quando o verbo suportará prefixos?
até quando o povo brasileiro suportará o verbo?

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Di ego anta

para perder um título:
- entre em campo desligado;
- desperdice um pênalti no primeiro jogo;
- tenha um jogador expulso ainda no primeiro tempo da segunda partida;
- tenha reservas que deveriam ser apenas reservas;
- perca jogadores importantes por contusão;
- subestime o adversário;
- não tenha sorte e poupe quando não terá  oportunidade de gastar depois;
- invente na escalação a gosto.

sábado, 7 de maio de 2016

O terceiro olho

http://glo.bo/1ZpWMCT
Adnan Abidi/Reuters
***
Um relojoeiro usa uma lupa para reparar um relógio em oficina à beira de uma estrada em Déli, na Índia
***
o terceiro olho traz aquilo-que-não-se-via
cega o primeiro
oculta o segundo

nessa arte, ver é uma questão de tempo

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Comentários

Para Maria Cristina Brandão

Não há palavras que não cortem.
Aquelas que não cortam também não semeiam
e, se não o fazem, por que se grafam?

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Barragem

a barragem da Samarco se rompeu em novembro
outra
há anos
vem sujando vidas
corroendo faces

quando essa irromper
não haverá planejamento
nem reza
que salve parasitas e vermes

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Veículo

A vida é um veículo em que presente e futuro estão no para-brisa, e o passado, no retrovisor. A relação entre o tamanho do vidro e do espelho é ampla e pedagógica, pois revela a importância do ontem, do hoje e do amanhã.
Aquele que se apega ao retrovisor está condenado a despedaçar o para-brisa.
Pode não ser o fim da linha, mas, certamente, o fim da brisa.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Pulse - 2ª parte

Voltando ao LinkedIn Pulse, que é o tema deste artigo, já li vários artigos incentivando a redação de textos pertinentes à área de atuação do autor, outros dando dicas de como produzir um texto para a ferramenta, mas não me lembro de nenhum deles que propusesse uma atenção aos aspectos linguísticos. Talvez por ser uma premissa tão fundamental que beire a obviedade, os autores não a citem, e de igual forma, nos comentários, não me recordo de colocações pertinentes a questões de língua portuguesa (pedantes, inconvenientes...). Novamente, foco no conteúdo.

O crescimento do número de autores é um fato relevante, pois, inevitavelmente, o número de leitores crescerá, ainda que esse incremento não possa ser classificado qualitativamente. O aumento da produção escrita abriria um mercado enorme para revisores de texto, pois seriam necessários nas áreas mais diversas, em empresas de tecnologia e tradicionais, nos contextos mais diversos. Digo abriria, pois não é o que se vê na prática. O mercado cresceu muito para revisores de textos nos últimos dez, quinze anos, mas está aquém da produção escrita.

Não é possível que as questões linguísticas sejam pensadas apenas ao término da redação do texto, com a crença de que um revisor de textos (que muitos acreditam ser “o do Word”) possa resolver inúmeras variáveis em 24 ou 48 horas. Além disso, é muito difícil encontrar um revisor que tenha esse serviço como fonte única e exclusiva de trabalho e renda (muitos são professores de língua portuguesa ou têm formação em jornalismo ou direito, entre as áreas mais comuns).

O contexto do LinkedIn Pulse também deve ser analisado, uma vez que as relações são muito digitais, a sociedade é digital, e a forma de usar nosso tempo disponível, por consequência, cada vez mais digital. Há textos com linguagem de diário, com “fluidez” de uma conversa de bar (claro, sem o acompanhamento de bebidas e tira-gostos), com o figurino de listagens e listas (como aquela relação de ingredientes de uma receita), sem contar os mais jornalísticos e os autopromocionais. Não há demérito para nenhum deles, pois todos têm seu espaço e seu público-alvo. Por essa variada gama de gêneros textuais e por nossa rapidez digital, além de outros motivos, o conteúdo.

Não deixo de acompanhar o LinkedIn Pulse, porque me serve como fonte de informação, de conhecimento e de reflexão para o meu trabalho diário com a língua. Entretanto criei uma categoria de textos chamadas de “3P”, para os quais minha paciência analógica tolera até três parágrafos antes que a sanha digital contemporânea feche o navegador e passe para o próximo.

Para esses “3P”, muitos deles com milhares de visualizações, não há delação, só deleção.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Pulse - 1ª parte

Desde que o LinkedIn Pulse surgiu, tenho lido bons conteúdos, informações diversificadas e atuais e muitas novidades, inclusive do ponto de vista linguístico. Em contrapartida, observo que não há um trabalho sistemático em relação à língua portuguesa nesses artigos, o que gera, muitas vezes, um distanciamento entre forma e conteúdo.

Trabalho com edição de textos há anos, principalmente no ensino superior, e observo que o foco está, na produção de monografias, dissertações e teses, essencialmente, no conteúdo, restando à forma, se houver tempo, alguma atenção. Não quero debater aqui as questões relacionadas às variações linguísticas, porque, em minha opinião, um trabalho acadêmico que mereça esse título deve-se pautar na norma “científica” da língua. A preocupação com os aspectos linguísticos pode ser incipiente, mas jamais insipiente.

Os aspectos formais do texto são tão importantes quanto os relacionados ao conteúdo e deveriam ser assim tratados, inicialmente, pelos professores-orientadores, para que os alunos, já nos semestres iniciais, entendessem esse fato e o incluíssem no cronograma de execução do trabalho. Ao término de uma pós-graduação, restarão para a história o título (mais visível, curricular e social, mas que será perdido ao fim da vida) e o trabalho impresso, que poderá ser obra de referência para trabalhos posteriores e, certamente, parte da base de conhecimento de nossa sociedade.

Analisando essa questão de forma mais ampla, é notório que o problema não está na pós-graduação, certamente passa pela graduação, mas, sem dúvida, está na educação básica, e as mais de 53 mil redações no ENEM com nota zero confirmam esse fato. É preciso qualificar nossos alunos na produção de texto e cobrar, insistentemente, uma performance mais condizente com os padrões de que nossa sociedade necessita.

O Novo Acordo Ortográfico, depois de anos opcionais, agora é obrigatório. Estamos preparados para ele ou deveríamos perguntar se ele está preparado para nós? Para o nosso dia a dia digital e oral, não há diferença, mas não podemos nos esquecer de que as idéias de ontem podem não ser as ideias de hoje (muitas delas certamente não são). Não cabe a discussão se o NAO é relevante, pertinente ou agradável, pois agora ele é real e vigente.

domingo, 1 de maio de 2016

O brasileiro é um feriado

Para Nelson Rodrigues

No Brasil, o dia do trabalho ser feriado e cair em um domingo é um drama existencial.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...