quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte II

- Me diga seu nome primeiro. – Disse o padre.
- Quincas, seu padre.
- Conheço você?
- Não, senhor.
- Você me conhece?
- Sim, seu padre.
- De onde?
- Da missa no Rosário.
- Você é filho de quem?
- Dos meus pais, seu padre.
Sem a condição de medo do menino, o padre teria ralhado com essa resposta.
- Me fala o nome do seu pai e da sua mãe, menino.
- Zé e Maria, seu padre.
- Você é parente da Rita?
- Não, seu padre.
- Então, você não é Pemba?
- Não, seu padre.
O garoto leva as mãos à boca apertando o rosto fortemente.
- O que foi, meu filho?
- A Rita pediu pro senhor acudir um vizinho dela que tá morrendo.
- Por que você está segurando o rosto?
- Tô segurando meus dentes. Fico ainda mais nervoso com eles tremendo.
- Acalme-se, meu filho. Agora está tudo bem.
- Não tá não, seu padre.
O garoto balança o rosto negativamente e, soltando as mãos rapidamente, cobre-se com o sinal da cruz repetidas vezes. O padre coloca a mão no ombro do garoto e diz:
- Está tudo bem. Deus está conosco.
Com essa presença, o garoto relaxa a musculatura dos braços e respira mais pausadamente, ainda que sem perceber esse movimento.
- Me conta o que está acontecendo.
Quincas, ainda encostado na parede, tenta falar, mas a sequidão da boca o impede. Demora alguns segundos para encontrar o ponto de fala e diz:
- A Rita mandou que eu procurasse o senhor, seu padre, e pedisse que fosse acudir o Tião. Ele tá morrendo.
- Ele está morrendo?
- Sim, senhor. – Repetindo o sinal da cruz.
- Eu conheço esse Tião?
- É o Canjerê, seu padre.
- Tião Canjerê? O feiticeiro?
- Não, senhor, seu padre. Não, quer dizer, sim, senhor, seu padre... É...
- É ele ou não é?
- É, seu padre.
- Ele é feiticeiro, não é cristão e não acredita em Deus, meu filho. Como posso ajudá-lo?
- Foi a Rita que pediu depois que ele morreu.
- Como assim depois que ele morreu? Você disse que ele estava morrendo.
- É, seu padre.
- É o quê?
- Morrendo, seu padre.
- Ele morreu ou não morreu, Quincas?
- Tá morrendo, seu padre, já deve ter morrido.
- Ele estava doente?
- É nó-nas-tripa.
- O médico não foi chamado?
- Isso é coisa de rico. O povo é pobre, seu padre.
- A que horas é o enterro?
- Não sei, seu padre.
- Avise a Rita que estarei lá às 6 horas para a encomendação.
- Não, seu padre, o senhor tem quer ir comigo. A Rita pediu que eu não voltasse sem o senhor.
- Meu filho, se o homem já morreu, não adianta ir agora. Quando o dia clarear, irei e farei a encomendação do corpo.
- Não, seu padre, pelo amor de Deus! Não me deixa voltar sozinho. A Rita falou que o senhor ia voltar comigo, e o Tião pode tá precisando do senhor. Salva a alma dele, seu padre!
Pe. Belchior começa a pressentir que a história não está bem contada, que há algum detalhe não mencionado pelo garoto que justifique aquele horror e o pedido naquela hora.
– Quincas – disse o Padre se aproximando do garoto e deixando a vela entre os dois –, o que você ainda não me contou sobre esse caso?
O garoto baixa os olhos.
- Quincas, olhe pra mim. Tem alguma coisa errada nessa história e você ainda não me contou. O que é?
O garoto treme novamente sem olhar para o padre.
- Quincas, o Tião morreu ou não morreu?

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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte I

Para Henry Jekyll e Edward Hyde
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Este texto espera ser um conto de terror,
fruto de um sonho inconsequente.
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São Bento do Tamanduá, 22 de maio de 18--.

O breu da noite esvazia as ruas e afasta qualquer possibilidade de uma alma perdida perambular pela cidade numa hora como essa. Na Porcena, não há mais trabalho, as meninas se recolhem, as últimas velas são apagadas, e os bêbados mais exaltados jazem pela calçada desacordados em sonhos que não entendem e dos quais não se lembrarão no dia seguinte.
Pela terra batida chamada de rua, apenas o frio vento da madrugada a buscar frinchas para uma melodia lúgubre, sinistra e apavorante. Todos dormem.
A matriz em construção espera o sol raiar para voltar às obras, e um relógio sonâmbulo, rebelde, insiste em quebrar o silêncio anunciando a terceira hora da madrugada; com ela, surgem passos apressados pela rua morta. O som abafado não deixa dúvidas de que são pés descalços, e a fluência apertada e temerosa indica pressa.
As passadas param, e ouve-se o som de uma nervosa aldraba. À frente da casa do recém-ordenado Pe. Belchior, um garoto de não mais de 10 anos treme de medo e de frio, ansioso pela abertura da porta. Não há resposta. A hora está morta. O garoto, aflito, olha para os lados repetidamente pedindo a Deus que mantenha a rua vazia e que ninguém apareça, vivo ou morto, naquele momento.
A aldraba nervosa soa novamente. Do lado de dentro, o padre já está sentado na cama, com ouvidos atentos, aguardando a confirmação daquele som, que bem poderia ter saído de seu sonho. Ao ouvir a batida morta, levanta-se, veste-se apressadamente sobre o pijama, tateia o criado em busca dos fósforos, acende a vela e, com o castiçal em mãos, ainda descalço, caminha em direção à porta.
Encostado à porta, aguarda que aquela mão insistente diga alguma palavra que justifique essa visita. Ao sentir que a aldraba seria molestada novamente, impede rispidamente a ação.
- Quem é?
- Careço de falar com o padre. – Respondeu o garoto entre a tremedeira dos dentes.
- A uma hora dessas?
- É caso de vida e morte.
- Por que não procura o médico?
- Ele num ia arresolvê agora mais. Tô vindo a pedido da Rita Pemba.
Nesse momento impensável, um nome impensável. O padre coloca o castiçal no chão, destrava a porta e vê, como um raio, o garoto entrar e se encostar na parede com as mãos espalmadas. Fecha a porta, recolhe o castiçal e aproxima a vela do rosto do garoto. A expressão de pavor é nítida: os olhos esbugalhados, os lábios arroxeados e ressecados, a respiração descompassada e a musculatura da face revelando a cerração dos dentes.

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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Carta ao "Dia do Fico"


Artigos d’Officio.
S
enhor. – A Heroica, Sabia, e Magnanima Resolução que Vossa Alteza Real Acaba de Appresentar ao consternado Brazil, Decidindo-se nelle ficar[i] até ulteriores providencias do Soberano Congresso, não podendo, e nem devendo mesmo ser indiferente á todo bom Portuguezes, de tal maneira innundou de prazer aos Habitantes desta Villa, e Termo, que esta Camara na qualidade de Representante, e Interprete de seus sentimentos; julgar-se-hia assaz criminosa, se hum só momento retardasse levar á Augusta Presença de Vossa Alteza Real os accrisolados sentimentos de lealdade, fidelidade, e patriotismo, que se desenvolverão por occasião deste faustissimo successo, em que tanto escora-se o Socego Publico, e que já pressagia a Grandeza á que somos destinados; e tanto mais puros são estes sentimentos quanto estavamos persuadidos, de que só nos restava em partilha huma misera orfandade, ou talvez a escravidão, ou a anarchia. O Ceo, porém, que sempre he Justo, e que vela attento sobre a Grande Nação Portugueza; Ouvio os nossos gemidos, illuminando, e dirigindo á Augusta Decisão de Vozza Alteza Real. O Nome Augusto de Vossa Alteza Real que já Corre ao nível como dos mais Grandes Principes do mundo; recebe agora hum realce, e gloria em tudo superiores á esses Louros salpicados de sangue com que o Mundo pertende immortalizar os seus Heróes.
Possa, Augusto Senhor, o Anjo da Concordia Consolidar para sempre este Monumento da Politica e Sabedoria de Vossa Alteza Real. (Monumento talvez unico capaz de prender em laços indissoluveis hum, e outro Hemisferio, e de realisar os altos destinos de que se faz credora esta heroica Nação.) Ah! Senhor, e qual será o verdadeiro Portuguez que não reputará sempre tenue sacrificio derramar a ulitma gota de sangue em defeza de tão Grande Principe?
Tal he, Senhor, o enthusiasmo, taes os cordiaes sentimentos da Camara, Clero, e Povo deste Termo, que depois de se terem dirigido á Igreja Matriz, e alli rendido a Deos, Primeiro Movel de tanto bem, solemnes Acções de Graças, a noite illuminada espontaneamente, e da maneira a mais brilhante toda a Villa prorromperão em incessantes vivas ás Cortes, á Constituição, a ElRei Constitucional, a Vossa Alteza Real, e á União de Portugal com o Brasil.
Deos Guarde a Augusta Pessoa de Vossa Alteza Real por dilatados annos.
Villa de S. Bento do Tamanduá em Camara de 24 de fevereiro de 1822.
José Ferreira Gomes
Antonio Gonçalves de Souza
Manoel José de Araujo e Oliveira
Paulo Antonio de Avellar
Antonio Domingues Ferreira de Souza
Antonio Lopes de Araujo
Francisco José Pereira
Francisco Ferreira Lemos, Vigario da Vara
João Antunes Correia, Vigario da Igreja
O Padre Luiz da Silva Mezencio
João Quintino de Oliveira, Capitão Mór das Ordenanças
Antonio Affonso Lamounier, Juiz de Orfãos
O Padre José Furtado de Souza
Domingos Rodrigues Chaves
José Joaquim de Oliveira
José Liberato Gomes da Motta
Luiz Marianno de Moraes
João José Soares
Joaquim da Silva Cardozo
Antonio Jose da Costa
Francisco Antonio Malachias
Floriano Antonio Marcellino e Gouveia
Jacinto José Teixeira
Antonio José Teixeira
Joaquim Domingos da Paixão
Vicente Peixoto Guimarães
Francisco de faria Moreira
Manoel Pacheco da Cruz
Joaquim Ferreira Carneiro
Jacinto Mendes Ribeiro[ii]
Antonio Alves Ferreira
Ignacio Francisco Barboza
Joaquim Ferreira da Costa
Antonio José da Costa
Manoel Gonçalves Gomide
Francisco Ignacio da Terra
Henrique José de Carvalho
Antonio Ferreira da Silva
Ignacio da Silva Paz
Antonio Alves da Rocha
Francisco José Soares
Manoel José Soares
Serafim Nunes da Costa
Gregorio Luiz de Cerqueira[iii]
Caetano Luiz de Cerqueira[iv]
José Antonio Marques
Francisco José de Magalhães
Francisco José Pereira Bellarmino
Ruduzino Eustaquio Rodrigues Gandim
Silvestre Justiniano da Silva
Manoel José Vidigal
José Gomes Pereira Junior
Domingos José de Magalhães
Justino da Paixão Costa, Sacristão da Matriz
Serafim da Costa
Manoel Peixoto Ferreira
Felix de Araujo e Souza
José Gomes Pereira

Fonte: Gazeta do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Imprensa Regia 1819-1822. (port.)



[i] Este documento deve fazer menção ao “Dia do Fico”, ocorrido em 9 de janeiro de 1822, quando Dom Pedro I contrariou as ordens das Cortes Portuguesas para retornar a Portugal e se manteve no Brasil.
[ii] Nosso ascendente que “inaugura” a família Mendes Ribeiro em Itapecerica.
[iii] Nosso ascendente que “inaugura” a família Cerqueira em Itapecerica.
[iv] Ainda não citado em nossa ascendência e, talvez, irmão de Gregório Luiz de Cerqueira.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Violência

uma bruta essência ancestral.
ou somos racionalmente brutos com ela
ou ela será brutalmente violenta conosco,
sem razão que nos salve.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Uma por semana

as opiniães são diversas, controversas.
um tema recorrente é a pena de morte,
não a ocorrência de chacina.

o Brasil tem outras necessidades mais urgentes,
a do Bruno pode ser esquecida.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Da neve

O sol nasce por trás de uma árvore coberta de neve perto de Amtzell, no sudoeste da Alemanha.
Felix Kästle/DPA/AP
Disponível em https://goo.gl/qZCXot
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o sol nasce
a neve cai
a esperança não morre

a esperança da neve é que o sol perca o verbo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

No cume

Funcionário do Zoológico ZLS de Londres posa para fotos com um louva-deus escalando seu rosto durante a contagem anual dos animais do zoo.
Daniel Leal-Olivas/AFP
Disponível em: https://goo.gl/7uS0tl
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"Quando alcançar o topo, poderei contemplar o mundo e entender alguns mistérios que a proximidade do céu revela", pensou o louva-deus. Sem louvar e sem se reconhecer nesse nome, o inseto não descobriu nada no cume, nem no caminho.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Demanda de obediência

De fato, e parafraseando o velho Riobaldo, da mesma forma que viver, pensar também é muito perigoso, um pouco porque interrompe todas as outras atividades, inclusive aquelas referentes aos negócios e à vida, outro tanto porque dissolve as verdades previamente estabelecidas, funcionando com um primeiro movimento de reação a uma demanda de obediência.
Heloisa Starling. Lembranças do Brasil.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Se Mentes Abertas


"Se Mentes Abertas" é um projeto que nasceu pequeno, como uma semente, e que vem germinando há algum tempo graças ao apoio de muitos amigos. O objetivo é plantar árvores, sempre respeitando as características físicas e ambientais do local de plantio, para que essas árvores possam se desenvolver e permitir nosso desenvolvimento, com ar, sombra e futuro.

Esse primeiro logotipo é uma semente e está aberto a receber "adubos" de cultivadores mais experientes na área. Todas as contribuições são bem-vindas e não é preciso gastar, nem pagar: só plantar. Não há apoio nem vinculação políticos, apenas o desejo de garantir mais equilíbrio para a Terra, nossa terra.
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Fonte da imagem: http://www.freepik.com

domingo, 1 de janeiro de 2017

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...