- Me diga seu nome primeiro. – Disse o padre.
- Quincas, seu padre.
- Conheço você?
- Não, senhor.
- Você me conhece?
- Sim, seu padre.
- De onde?
- Da missa no Rosário.
- Você é filho de quem?
- Dos meus pais, seu padre.
Sem a condição de medo do menino, o padre teria ralhado
com essa resposta.
- Me fala o nome do seu pai e da sua mãe, menino.
- Zé e Maria, seu padre.
- Você é parente da Rita?
- Não, seu padre.
- Então, você não é Pemba?
- Não, seu padre.
O garoto leva as mãos à boca apertando o rosto
fortemente.
- O que foi, meu filho?
- A Rita pediu pro senhor acudir um vizinho dela
que tá morrendo.
- Por que você está segurando o rosto?
- Tô segurando meus dentes. Fico ainda mais
nervoso com eles tremendo.
- Acalme-se, meu filho. Agora está tudo bem.
- Não tá não, seu padre.
O garoto balança o rosto negativamente e, soltando
as mãos rapidamente, cobre-se com o sinal da cruz repetidas vezes. O padre
coloca a mão no ombro do garoto e diz:
- Está tudo bem. Deus está conosco.
Com essa presença, o garoto relaxa a musculatura
dos braços e respira mais pausadamente, ainda que sem perceber esse movimento.
- Me conta o que está acontecendo.
Quincas, ainda encostado na parede, tenta falar,
mas a sequidão da boca o impede. Demora alguns segundos para encontrar o ponto
de fala e diz:
- A Rita mandou que eu procurasse o senhor, seu
padre, e pedisse que fosse acudir o Tião. Ele tá morrendo.
- Ele está morrendo?
- Sim, senhor. – Repetindo o sinal da cruz.
- Eu conheço esse Tião?
- É o Canjerê, seu padre.
- Tião Canjerê? O feiticeiro?
- Não, senhor, seu padre. Não, quer dizer, sim,
senhor, seu padre... É...
- É ele ou não é?
- É, seu padre.
- Ele é feiticeiro, não é cristão e não acredita
em Deus, meu filho. Como posso ajudá-lo?
- Foi a Rita que pediu depois que ele morreu.
- Como assim depois que ele morreu? Você disse que
ele estava morrendo.
- É, seu padre.
- É o quê?
- Morrendo, seu padre.
- Ele morreu ou não morreu, Quincas?
- Tá morrendo, seu padre, já deve ter morrido.
- Ele estava doente?
- É nó-nas-tripa.
- O médico não foi chamado?
- Isso é coisa de rico. O povo é pobre, seu padre.
- A que horas é o enterro?
- Não sei, seu padre.
- Avise a Rita que estarei lá às 6 horas para a
encomendação.
- Não, seu padre, o senhor tem quer ir comigo. A
Rita pediu que eu não voltasse sem o senhor.
- Meu filho, se o homem já morreu, não adianta ir
agora. Quando o dia clarear, irei e farei a encomendação do corpo.
- Não, seu padre, pelo amor de Deus! Não me deixa
voltar sozinho. A Rita falou que o senhor ia voltar comigo, e o Tião pode tá
precisando do senhor. Salva a alma dele, seu padre!
Pe. Belchior começa a pressentir que a história
não está bem contada, que há algum detalhe não mencionado pelo garoto que
justifique aquele horror e o pedido naquela hora.
– Quincas – disse o Padre se aproximando do garoto
e deixando a vela entre os dois –, o que você ainda não me contou sobre esse
caso?
O garoto baixa os olhos.
- Quincas, olhe pra mim. Tem alguma coisa errada
nessa história e você ainda não me contou. O que é?
O garoto treme novamente sem olhar para o padre.
- Quincas, o Tião morreu ou não morreu?
***
Nenhum comentário:
Postar um comentário